
Jaboticatubas – É do alto de um morrinho, atrás de uma árvore, perto da cerca, no terreiro de casa, que a aposentada Joana Suely Rosa consegue, de vez em quando, sinal de telefonia, em seu aparelho celular. “Se arredar um pouquinho para a esquerda, já era”, lamenta. Moradora de São Sebastião do Campinho, distrito de Jaboticatubas, a 63 quilômetros de Belo Horizonte, na Região Central do estado, a situação de Joana é a mesma das 2,88 milhões de pessoas que moram em áreas rurais em Minas Gerais. O morrinho, aliás, é famoso no pequeno vilarejo, que tem pouco mais de 400 eleitores. É só perguntar onde conseguir sinal de telefonia e o pessoal logo indica o terreiro da casa de Joana. É comum ver os moradores revezando o espaço apertado atrás da árvore.
As regras da telefonia determinam, segundo a Agência Nacional das Telecomunicações (Anatel), que as operadoras cubram apenas 80% das áreas urbanas dos municípios. Com isso, para quem mora em zonas rurais restam os resquícios dessa cobertura. A esperança de que a situação pudesse mudar com o leilão da faixa de 450 megahertz, previsto para maio, esbarra na vontade das operadoras para participar da disputa. A polêmica tem relação com a viabilidade econômica da prestação desse serviço. Gente como dona Joana não é soma considerável nas planilhas das empresas de telefonia. Procuradas pela reportagem, sobre o assunto, as operadoras Tim, Vivo, Claro e Oi citaram que cumprem a legislação e levam o serviço às áreas urbanas determinadas nos municípios. A CTBC não respondeu à solicitação do jornal.

No modesto armazém de Valdir Machado, conhecido por todos ali como Bar do Toquinho, o palm top do vendedor da distribuidora de bebidas, Geraldo Miguel dos Santos, contrasta com as cachaças, queijos, torresmos e outras coisas da roça. Geraldo usa o aparelho de última geração, com tela sensível ao toque, para recolher pedidos em mais de 20 estabelecimentos como o de Toquinho, em localidades como Curralinho, São José do Almeida, Cardeal da Mata e Santa do Riacho. “O aparelho tem um chip 3G e a ideia seria agilizar o processo, já encaminhando os pedidos imediatamente. Mas como não pega telefone em nenhum desses lugares, eu deixo todos os pedidos armazenados e costumo enviar para a central somente no fim do dia, em Lagoa Santa”, conta. Quando a situação é periclitante, ele descarrega os dados usando um cabo mesmo, à moda antiga.

Só música em Morro Vermelho

É a mesma reclamação do apicultor Amarildo Eládio, que depende dos telefones públicos de Morro Vermelho para contatar compradores em Caeté: “Tenho de fazer todas as ligações até as 10h. Depois disso, não tem orelhão que dê linha em Morro Vermelho”. A falta de sinal na telefonia móvel e a precariedade do serviço fixo revolta os cerca de 800 eleitores do distrito. Ainda mais com a antena de telefonia instalada na localidade, desde 2007, a poucos metros da igrejinha de Nossa Senhora do Rosário. “A gente fica sem saber pra que serve a antena”, diz. Segundo a Oi, a torre serve para redistribuição dos serviços de telefonia fixa. A respeito da qualidade desse serviço, a operadora informou que enviará técnicos à localidade, para verificar os equipamentos. (FB)

São José do Rio Preto – O Brasil tem 245,179 milhões linhas de telefones móveis, de acordo com os últimos dados da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), divulgados em meados de fevereiro. Em números absolutos, dá uma média de mais de um celular por habitante. No entanto, mesmo com tantos aparelhos habilitados, ainda há os que não são atendidos pelas operadoras. Para ter acesso ao serviço no interior, muito têm que gastar com antenas ou fazem algum sacrifício, se deslocando até um ponto distante com sinal precário.
A dificuldade enfrentada pelos excluídos da telefonia móvel é verificada em São José do Rio Preto, localidade de 300 habitantes, perto de Itacambira (Norte de Minas). No lugarejo não existe telefonia celular, nem fixa nas casas. Há somente um telefone público, que está com defeito há três anos. Com isso, os moradores têm que subir até o alto de um morro, onde foi “descoberto” um ponto com sinal da Vivo. Para chegar até o local, antes de escalar cerca de 300 metros, passando por uma trilha no meio do mato, os moradores têm que atravessar um riacho a pé. Não existe ponte.
O sacrifício é enfrentado com frequência pelo agricultor Antônio Edson de Lima. “O jeito é subir até o morro para telefonar. É o lugar mais próximo com sinal”, diz. “Já houve situação em que precisei telefonar à noite. Subi no escuro. Em época de chuva, o riacho enche e o drama é pior.
No mesmo município, o produtor rural Liordino Duarte de Souza, de 66 anos, consegue usar a telefonia móvel, mas só porque gastou cerca de R$ 600 na montagem de uma antena. “O sinal do celular é captado, mas é ruim. Ás vezes, fica mais de 20 dias sem funcionar.” A cidade, que fica a 512 quilômetros de BH, tem 5,2 mil habitantes. Desses, 85% vivem na zona rural.
