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Estado de Minas

Mais de 2,8 mi de mineiros que vivem na zona rural sofrem com a precariedade do sinal de celular

Hoje, operadoras são obrigadas a cobrir apenas 80% das áreas urbanas


postado em 03/03/2012 06:00 / atualizado em 03/03/2012 13:01


José Estevão Gonçalves, o seu Manézim, encara subida até o campinho de futebol a pé ou a cavalo para tentar conexão suficiente
José Estevão Gonçalves, o seu Manézim, encara subida até o campinho de futebol a pé ou a cavalo para tentar conexão suficiente "para dois dedos de prosa" (foto: Renato Weil/EM/D.A Press)

Jaboticatubas – É do alto de um morrinho, atrás de uma árvore, perto da cerca, no terreiro de casa, que a aposentada Joana Suely Rosa consegue, de vez em quando, sinal de telefonia, em seu aparelho celular. “Se arredar um pouquinho para a esquerda, já era”, lamenta. Moradora de São Sebastião do Campinho, distrito de Jaboticatubas, a 63 quilômetros de Belo Horizonte, na Região Central do estado, a situação de Joana é a mesma das 2,88 milhões de pessoas que moram em áreas rurais em Minas Gerais. O morrinho, aliás, é famoso no pequeno vilarejo, que tem pouco mais de 400 eleitores. É só perguntar onde conseguir sinal de telefonia e o pessoal logo indica o terreiro da casa de Joana. É comum ver os moradores revezando o espaço apertado atrás da árvore.

As regras da telefonia determinam, segundo a Agência Nacional das Telecomunicações (Anatel), que as operadoras cubram apenas 80% das áreas urbanas dos municípios. Com isso, para quem mora em zonas rurais restam os resquícios dessa cobertura. A esperança de que a situação pudesse mudar com o leilão da faixa de 450 megahertz, previsto para maio, esbarra na vontade das operadoras para participar da disputa. A polêmica tem relação com a viabilidade econômica da prestação desse serviço. Gente como dona Joana não é soma considerável nas planilhas das empresas de telefonia. Procuradas pela reportagem, sobre o assunto, as operadoras Tim, Vivo, Claro e Oi citaram que cumprem a legislação e levam o serviço às áreas urbanas determinadas nos municípios. A CTBC não respondeu à solicitação do jornal.

O quintal da dona de casa Joana Rosa é disputado, mas linha cai quando arreda para esquerda(foto: Renato Weil/EM/D.A Press)
O quintal da dona de casa Joana Rosa é disputado, mas linha cai quando arreda para esquerda (foto: Renato Weil/EM/D.A Press)
A faixa de 450 megahertz (MHz), hoje usada pela polícia federal, é ideal para a telefonia rural, porque tem maior abrangência que o atual 3G, que opera nos gigahertz (GHz) – quanto menor a frequência, maior a área de cobertura. Isso significa que menos antenas “dariam conta” de mais espaços, o que converge com a estrutura das áreas rurais. A expectativa do Ministério das Comunicações é, com o leilão, levar telefonia a 15 milhões de pessoas que hoje têm verdadeiro apagão de sinal e vivem ilhados do contato, subindo em morrinhos e porteiras para conseguir um sinal sofrido. Se não houver interesse na faixa de 450 MHz, a concessão será leiloada em conjunto com o 4G, que permitirá banda larga móvel de alta velocidade – algo que, na realidade de São Sebastião do Campinho, soa como objeto de ficção científica.

No modesto armazém de Valdir Machado, conhecido por todos ali como Bar do Toquinho, o palm top do vendedor da distribuidora de bebidas, Geraldo Miguel dos Santos, contrasta com as cachaças, queijos, torresmos e outras coisas da roça. Geraldo usa o aparelho de última geração, com tela sensível ao toque, para recolher pedidos em mais de 20 estabelecimentos como o de Toquinho, em localidades como Curralinho, São José do Almeida, Cardeal da Mata e Santa do Riacho. “O aparelho tem um chip 3G e a ideia seria agilizar o processo, já encaminhando os pedidos imediatamente. Mas como não pega telefone em nenhum desses lugares, eu deixo todos os pedidos armazenados e costumo enviar para a central somente no fim do dia, em Lagoa Santa”, conta. Quando a situação é periclitante, ele descarrega os dados usando um cabo mesmo, à moda antiga.

Geraldo dos Santos recebe os pedidos de Valdir Machado no palmtop: tecnologia limitada (foto: Renato Weil/EM/D.A Press)
Geraldo dos Santos recebe os pedidos de Valdir Machado no palmtop: tecnologia limitada (foto: Renato Weil/EM/D.A Press)
Como a cobertura de telefonia móvel em áreas rurais se limita aos respingos de sinais das áreas urbanas, é comum que as partes altas das localidades sejam os únicos pontos onde, com sorte, as barrinhas de sinal dão as caras nas telas dos aparelhos. No alto do campinho de futebol que dá nome à localidade, José Estevão Gonçalves, conhecido como seu Manézim, diz que ali é o melhor lugar para conseguir falar ao telefone em São Sebastião do Campinho. Quem tem fôlego para encarar a subida consegue dois dedos de prosa ao telefone. Ele, muitas vezes, vai a cavalo. “É duro, mas a gente se acostuma, porque precisa de acostumar, né?”, resigna-se seu Manézim, que não tem esperanças: já ouviu muitas vezes a história de que a cobertura telefônica pode estar perto de chegar ao Campinho. Tantas que não acredita mais.

Só música em Morro Vermelho

Driele Évyley e sua mãe, Gleiciane Carlos: problemas com o móvel e com o fixo(foto: Renato Weil/EM/D.A Press)
Driele Évyley e sua mãe, Gleiciane Carlos: problemas com o móvel e com o fixo (foto: Renato Weil/EM/D.A Press)
Caeté –
Sonho de consumo adolescente, o telefone celular de Driele Évyley Carlos, de 14 anos, serve mesmo é para ouvir música, quando ela está em casa, em Morro Vermelho, distrito de Caeté, há 49 quilômetros de BH. Quando vai estudar na cidade, o aparelho ganha utilidade; a mãe dela, Gleciane da Silva Carlos, que trabalha como doméstica, consegue se comunicar com a filha, usando para isso o telefone fixo. “Mas não é sempre que pega, mesmo o telefone fixo aqui tem dias que resolve não funcionar”, diz Gleiciane.

É a mesma reclamação do apicultor Amarildo Eládio, que depende dos telefones públicos de Morro Vermelho para contatar compradores em Caeté: “Tenho de fazer todas as ligações até as 10h. Depois disso, não tem orelhão que dê linha em Morro Vermelho”. A falta de sinal na telefonia móvel e a precariedade do serviço fixo revolta os cerca de 800 eleitores do distrito. Ainda mais com a antena de telefonia instalada na localidade, desde 2007, a poucos metros da igrejinha de Nossa Senhora do Rosário. “A gente fica sem saber pra que serve a antena”, diz. Segundo a Oi, a torre serve para redistribuição dos serviços de telefonia fixa. A respeito da qualidade desse serviço, a operadora informou que enviará técnicos à localidade, para verificar os equipamentos. (FB)

Antônio Edson atravessa rio e sobe montanha para conseguir se comunicar(foto: Luiz Ribeiro/DA Press )
Antônio Edson atravessa rio e sobe montanha para conseguir se comunicar (foto: Luiz Ribeiro/DA Press )
Milhões de linhas e exclusão


São José do Rio Preto – O Brasil tem 245,179 milhões linhas de telefones móveis, de acordo com os últimos dados da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), divulgados em meados de fevereiro. Em números absolutos, dá uma média de mais de um celular por habitante. No entanto, mesmo com tantos aparelhos habilitados, ainda há os que não são atendidos pelas operadoras. Para ter acesso ao serviço no interior, muito têm que gastar com antenas ou fazem algum sacrifício, se deslocando até um ponto distante com sinal precário.

A dificuldade enfrentada pelos excluídos da telefonia móvel é verificada em São José do Rio Preto, localidade de 300 habitantes, perto de Itacambira (Norte de Minas). No lugarejo não existe telefonia celular, nem fixa nas casas. Há somente um telefone público, que está com defeito há três anos. Com isso, os moradores têm que subir até o alto de um morro, onde foi “descoberto” um ponto com sinal da Vivo. Para chegar até o local, antes de escalar cerca de 300 metros, passando por uma trilha no meio do mato, os moradores têm que atravessar um riacho a pé. Não existe ponte.

O sacrifício é enfrentado com frequência pelo agricultor Antônio Edson de Lima. “O jeito é subir até o morro para telefonar. É o lugar mais próximo com sinal”, diz. “Já houve situação em que precisei telefonar à noite. Subi no escuro. Em época de chuva, o riacho enche e o drama é pior.

No mesmo município, o produtor rural Liordino Duarte de Souza, de 66 anos, consegue usar a telefonia móvel, mas só porque gastou cerca de R$ 600 na montagem de uma antena. “O sinal do celular é captado, mas é ruim. Ás vezes, fica mais de 20 dias sem funcionar.” A cidade, que fica a 512 quilômetros de BH, tem 5,2 mil habitantes. Desses, 85% vivem na zona rural.


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