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Estado de Minas

Enchentes invadem fábricas e paralisam a produção em Minas

Chuvas em Minas destroem galpões e máquinas na Zona da Mata, prejudicam escoamento de cargas na Grande Belo Horizonte e levam perdas ao comércio da Região Central do estado


postado em 08/01/2012 07:16 / atualizado em 08/01/2012 08:30

Solange de Oliveira, proprietária da fábrica de móveis Kaslinc que ficou totalmente destruida na avenida Antonio Luiz Silva da Cruz, em Guidoval (foto: Marcos Michelin/EM/D.A Press)
Solange de Oliveira, proprietária da fábrica de móveis Kaslinc que ficou totalmente destruida na avenida Antonio Luiz Silva da Cruz, em Guidoval (foto: Marcos Michelin/EM/D.A Press)

A lama deixada pelas fortes chuvas que assolaram dezenas de cidades mineiras na semana passada começa a dar lugar a um cenário de prejuízos para a economia dos principais municípios atingidos. Fábricas inteiras foram destruídas pela força da correnteza ou ficaram totalmente paralisadas. Produtores agropecuários também contam as perdas. Há casos de empresas que deixaram de escoar seus produtos diante da interdição de importantes vias de acessos rodoviário e ferroviário. Nas lojas, os clientes sumiram, levando a cortes de receita no comércio, que amargou estoques inteiros inutilizados pelas inundações.

As fábricas de móveis de Guidoval, na Zona da Mata mineira, tentam chegar à conta dos estragos provocados pelo pior período de chuvas vivido nos últimos anos na região, um dos polos da indústria moveleira de Minas. Segundo o presidente do Sindicato Intermunicipal das Indústrias Moveleiras de Ubá, Michel Pires, cerca de 40 das 350 empresas que compõem o segmento estão concentradas em Guidoval e Visconde do Rio Branco, os municípios mais castigados pelos temporais. “O impacto foi enorme, paralisando completamente a maioria das indústrias. Não há previsão de quando elas vão retomar a produção”, afirma.

Vítima da fúria das águas que isolou a cidade, a empresa Kaslianc perdeu insumos e equipamentos. “Não temos como calcular os valores ainda. Já não temos matéria-prima e ainda ficamos sem parte do maquinário”, conta a proprietária, Solange de Oliveira Machado. Calejada pela destruição das chuvas de 2008, que também inundaram a cidade, Solange conta que chegou a armazenar mais de meio metro acima do chão todo o maquinário e material como espumas, grampos e tecidos. “Achamos que seria suficiente, mas o nível da água subiu dois metros e meio”, conta.

O que a empresária garante é que não será possível retomar as atividades antes de 30 dias. “A perda pode alcançar R$ 500 mil só na receita de vendas em apenas um mês”, calcula. A unidade industrial será transferida para uma área com dimensões 50% inferiores às atuais e, de acordo com Solange, não há como evitar o corte no quadro de funcionários. “Atualmente são 30 empregados e, de imediato, vamos ter que demitir cinco pessoas.” A meta de aumentar a produção em 20% neste ano foi adiada e as vendas da nova temporada, que já deviam ter começado, estão suspensas. “Já comunicamos os representantes para não venderem”, diz Solange.

Na fábrica de móveis BM Tubulares, a proprietária, Eliana Massa, estima que as perdas decorrentes da destruição de um galpão de armazenagem de insumos e grande parte de matérias-primas cheguem a R$ 200 mil. A produção não foi afetada diretamente. “Mas nem todos os funcionários têm condições de vir para o trabalho. Ainda assim, temos como produzir, mas não há como escoar as encomendas por conta da destruição de uma ponte que dá acesso à cidade”, lamenta.

Também na Zona da Mata, Cataguases sentiu os efeitos das tormentas. Na Indústria Cataguases de Papel – que produz 170 toneladas por dia – o prejuízo pode atingir R$ 400 mil. “Fomos obrigados a parar toda a produção por quase três dias. Mas as perdas ainda não foram totalmente calculadas”, afirma o gerente de processos ,Hairton Feitosa. Equipamentos também ficaram debaixo d’água e estão sendo analisados para verificar se poderão ser reaproveitados.

Tragédia anunciada Informações indicando perdas nas indústrias das cidades mais afetadas pelos temporais começaram a chegar à Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg) na segunda-feira. O presidente da instituição, Olavo Machado Júnior, pediu um levantamento detalhado do impacto das águas nas fábricas aos 10 escritórios da Fiemg espalhados pelo estado.

Com base nos relatos sobre a situação da produção industrial esperados para amanhã, a Fiemg pretende propor medidas emergenciais aos governos municipais e estadual. “As chuvas ocorrem com a mesma violência de três anos atrás e o que nós fizemos nesse intervalo de tempo para evitar os estragos? Muito pouco”, critica Machado Júnior.

Segundo o presidente da Fiemg, os prejuízos do setor não se resumem ao rombo no caixa, com os equipamentos afetados, a paralisação das linhas de produção e o que as empresas deixam de ganhar. A produtividade também se ressente da apreensão de empresários e trabalhadores quanto à segurança das próprias famílias. Muitas delas perderam tudo.

Perdas de R$ 150 mil por dia

Estoques inteiros foram levados pelas águas e afetam o comércio de diversas cidades entre as 103 em situação de emergência no estado. Com o transbordamento do Rio Itapecerica – que subiu mais de quatro metros – a cidade mineira do vestuário, Divinópolis, espantou comerciantes que saem de todas as regiões do Brasil para reforçar os estoques no comércio atacadista local.

“O movimento caiu entre 20% e 30%. Vários consumidores deixaram de vir por conta das enchentes”, conta o diretor do Sindicato da Indústria do Vestuário de Divinópolis e do Divishop, Edilson José da Costa. O shopping com 165 lojas funcionou precariamente na terça e na quarta-feira por conta da falta de acesso livre, depois do avanço das águas. “Houve inundação de algumas áreas, o que afastou os clientes. Isso, sem contar o fato de que ainda ficamos sem água”, explica Edilson. Segundo estimativas do centro de compras, cada loja fatura entre R$ 2 mil e R$ 3 mil ao dia e deve ter perdido 30%, em média, das vendas com a tragédia. O shopping perdeu, portanto, negócios avaliados em quase R$ 150 mil a cada dia.
Em Congonhas, no Campos das Vertentes, o secretário de Gestão Urbana, José Vicente Santana, também avalia os impactos no comércio, um dos mais afetados. “Tivemos uma das maiores enchentes da história e muitos estabelecimentos comerciais foram inundados. Ruas estão interditadas por conta de deslizamentos, o que também prejudica a logística da cidade”, afirmou.

Em Conselheiro Lafaiete, na Região Central, comerciantes estão desolados. “Comércio e pequenas indústrias, dos mais diferentes setores de atividades, perderam os estoques de mercadoria”, lamenta o prefeito José Milton de Carvalho Rocha (PSDB). (PT e PC)

Minérios ficam sem transporte

Acostumadas a lidar com as chuvas, as minerações de ferro, que contribuem fortemente para o desempenho da economia na Região Central de Minas Gerais, chegaram a paralisar a produção e o transporte da matéria-prima, atividades que só devem voltar hoje à normalidade. A MRS Logística, operadora dos trilhos da extinta Rede Ferroviária Federal, se viu forçada a retirar 80 trens de circulação no trecho entre Belo Horizonte e Jeceaba, distante 124 quilômetros da capital mineira, da segunda-feira à tarde de quinta-feira, por absoluta incapacidade de vencer a enchente. Ficou parada cerca de metade das composições férreas que passam pelo trajeto transportando de minérios a cimento e alimentos.

Na sexta-feira, os técnicos da companhia levaram oito horas para liberar a linha férrea e promover serviços de manutenção previstos na chamada operação blecaute. A MRS informou que o seu departamento comercial ainda não tem os números do prejuízo. A operadora havia retomado, na tarde de sexta-feira, 80% do fluxo tradicional de carga no trecho entre BH e Jeceaba.

A destruição provocada pelas chuvas paralisou o escoamento do minério da Serra Azul de Minas, rica porção do Quadrilátero Ferrífero, explorada pelas empresas Usiminas Mineração, MMX, Ferrous Resources do Brasil, ArcelorMittal, Comisa, Minerita e MBL. O terminal Serra Azul de embarque do insumo, que é levado ao Porto de Sepetiba, no Rio de Janeiro, pelos trilhos da MRS, parou de funcionar de terça-feira à sexta-feira, depois que o Rio Paraopeba transbordou e alagou as estradas que dão acesso ao terminal gerenciado pelas mineradoras Minerita e MBL. Cerca de 120 mil toneladas de ferro deixaram de ser embarcadas durante quatro dias.

A Usiminas Mineração informou, por meio de sua assessoria de imprensa, ter adotado rota alternativa para transportar por caminhões o minério de ferro que abastece as usinas do grupo de Cubatão (SP), e Ipatinga, no Vale do Aço mineiro. A Ferrous Resources do Brasil suspendeu na segunda-feira a operação de suas minas Esperança, em Brumadinho, e Viga, em Congonhas, mas não computou prejuízo pelo fato de ainda não estar trabalhando em grande escala nas duas reservas. A MMX, Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) e a Vale confirmaram pequenas interrrupções no trabalho em suas minas durante os temporais. As paralisações, entretanto, não comprometeram a produção e os contratos de venda, já que as empresas mantêm estoques do produto.

Em Jeceaba, a siderúrgica Vallourec & Sumitomo Tubos do Brasil (VSB) teve seu principal acesso rodoviário temporariamente interrompido na segunda e terça-feira. O transporte de trabalhadores da fábrica, o abastecimento de matérias-primas, equipamentos e o despacho de produtos acabados foram afetados. De acordo com nota divulgada pela empresa na tarde de sexta-feira, a situação estava normalizada. (MV)


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