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Estado de Minas

Construção civil lidera número de mortes por acidente de trabalho

A construção civil é uma das atividades onde mais morrem operários, mas o setor de serviços, com destaque para as oficinas lideram as ocorrências de acidente de trabalho


postado em 06/11/2011 07:43

No último dia do mês de maio deste ano, numa casa muito humilde em Santo Antônio do Descoberto, o despertador tocou mais uma vez às 4h30. José Alves da Cruz Júnior, 39 anos, acordou, arrumou-se silenciosamente e foi correndo para o ponto de ônibus. Às 7h30, estava na obra de um prédio em Águas Claras, no Distrito Federal. Estava animado naquele dia. Não via a hora de receber o salário de R$ 600 para fazer as compras do supermercado para a mulher Maria Sileide, 35, e os quatro filhos — Patrick e Pablo, gêmeos de 8 anos, Pablício, 5, e Priscila, 2 — que deixou em casa ainda dormindo.

Antes que o sol caísse naquele dia e ele enchesse a despensa, José Cruz, pernambucano de Salgueiro, estava morto. Ele caiu às 11h16 do quarto andar de uma obra da construtora A&A enquanto montava um andaime. Morreu na hora. Depois de 10 anos juntos, Maria Sileide se viu sozinha com as quatro crianças na casa onde moram de favor. Não trabalhava, por vontade do marido, para cuidar do lar e dos filhos. O salário de José era a única renda da família. Agora, ela está à espera da pensão do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) para se mudar para Anápolis onde moram duas irmãs. Por enquanto, tem recebido R$ 600 da construtora e uma cesta básica. “Já avisaram que vão suspender quando sair a pensão do INSS”, conta. Na carteira, o salário do operário era de R$ 605 brutos. Mas ele recebia R$ 300 por fora, diz ela.

Locomotiva do atual crescimento econômico, a construção civil é a atividade que mais mata trabalhadores. Em 2009, últimos dados disponíveis no Ministério da Previdência, 395 operários morreram levantando paredes. Na contramão dos indicadores de acidentes no país, que apontam redução, na construção, as ocorrências crescem a cada ano. Em 2007, foram 36,5 mil casos registrados pela Previdência Social em todo o país. Em 2008, saltaram para 52,8 mil e, em 2010, já tinham alcançado 54,6 mil. A explicação da indústria para o aumento dos acidentes é a maior quantidade de obras no país.
Apesar dos números negativos da construção civil, desde 2009, a indústria em geral deixou o posto de campeã de acidentes no Brasil . Impulsionado pelo crescimento econômico e responsável pela maior parte das ofertas das vagas geradas nos últimos anos, o setor de serviços assumiu liderança entre os trabalhadores que mais se acidentaram, com 340.681 ocorrências em 2009 e 331.895 em 2010. Já a atividade industrial registrou 321.171 e 307.620 casos, respectivamente.

Nas oficinas Os estabelecimentos de revendas de carros e oficinas mecânicas são os responsáveis pelo maior número de acidentes na área de serviços — um total de 95,5 mil no ano passado. Em seguida, vêm as atividades de armazenagem e transporte de mercadorias, com 51.934 ocorrências, que também são a segunda colocada em número de mortes.
Afastado por três meses do trabalho, depois que teve tendinite no punho, o operador de máquinas Juliano Augusto Fernandes só foi receber os valores referentes ao afastamento depois que já havia voltado ao trabalho. “Durante três meses, todas as contas foram pagas por minha mulher, que trabalha como vendedora, depende de comissão para retirar em média R$ 1,1 mil”, diz. Isso incluiu prestações fixas de apartamento e carro, além do aluguel e as despesas com alimentação. Durante esses meses, dos R$ 1,2 mil de salário que costumava receber, só teve acesso a R$ 700, o que não foi suficiente para pagar as dívidas: “Isso aconteceu no ano passado e até hoje estamos endividados”.

Culpado
Durante quase 20 anos, de segunda a sábado, José Arnaldo Vargas, 49 anos, trabalhou como instalador de acessórios numa concessionária de veículos em Brasília. Nunca sofrera qualquer acidente. Chegou a integrar a Comissão Interna de Prevenção de Acidentes (Cipa) da empresa por dois anos. Em 9 de fevereiro de 2007, ele foi enterrado com o veredito de culpado. José Arnaldo morreu um dia antes ao ser atingido pelo veículo que consertava junto com um colega, ao despencar do elevador eletromecânico que o sustentava no alto. Os peritos da Polícia Civil concluíram que o equipamento funcionava regularmente e que a culpa foi de Vargas, que não verificou, "no início do içamento", se o veículo estava bem posicionado no elevador. A Justiça do Trabalho acolheu a defesa da concessionária com base no laudo da Polícia Civil e negou a indenização por danos morais pedida pela família.


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