No espelho, a servidora pública Ana Carolina Costa viu a tinta preta transformar em passado as madeixas louras. Mas o sorriso de satisfação não vinha só da alegria com o resultado. Noventa reais e uma hora depois, ela voltava a ser morena para, com isso, conseguir gastar menos dinheiro com o cabelo – durante o ano em que esteve loura, entre hidratações e retoques nas luzes, a moça investiu mais de R$ 1,2 mil na cabeleira. Já morena, ela faz o balanço: “Nesse período, os preços das tinturas subiram muito e os serviços de cabeleireiro acompanharam”. A percepção de Ana Carolina é confirmada pelos números da inflação medidos pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE): o preço com que se paga o doce pecado da vaidade é cada vez mais caro. E muito mais alto que a média da variação dos preços.
Enquanto a média geral do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) chega a 4,98% no acumulado do ano, itens como cabeleireiro (6,08%), produto para unhas (6,84%), para cabelos (5,99%) ou manicure e pedicure (7,23%) tiveram variação bastante superior na mesma base de comparação. Os dados nacionais mensais da inflação do salão de beleza, contudo, à exceção dos serviços de cabeleireiro (1,03%), ficaram abaixo do índice geral em setembro (0,53%), de acordo com o IBGE.
Metropolitana de Belo Horizonte, o dragão da beleza ruge mais alto no mês e também no acumulado do ano. Os serviços que dependem da habilidade dos cabeleireiros com as tesouras, escovas e secadores de cabelo na Grande BH ficaram, em setembro, 2,34% mais caros, e no ano já acumuam alta de 9,54%. “O preço do salário mínimo é o que empurra isso para cima, fazendo pressão no geral sobre os serviços”, explica Antonio Braz, analista do IBGE em Minas, indicando que a política do governo de reajustar o mínimo acima da inflação para impulsionar o consumo tem esses efeitos. No ano que vem, o mínimo deve saltar dos atuais R$ 545 para R$ 619.
Aumento geral
Márcia Batista, proprietária de salão de beleza na Zona Sul de BH, conta que se viu forçada a reajustar o preço do combo manicure mais pedicure de R$ 28 para R$ 32. Enquanto os produtos usados nos serviços não param de subir de preço, vamos reduzindo a margem de lucro ao longo do ano. Se esmaltes de uma linha anterior custavam R$ 2,30 cada, os novos saem por R$ 3”, diz.
Na outra ponta, os consumidores reclamam da pressão inflacionária. A consultora jurídica Fernanda Guimarães Pessoa conta que o aumento de preços é generalizado. “Tenho família em Pará de Minas e, às vezes, faço as unhas por lá e pago R$ 14 pé e mão. Aqui, esse é o preço apenas para as mãos. Mas mesmo no interior, há pouco tempo, o valor era quase a metade do que pago hoje”.
Príscila Souza, também proprietária de salão na Zona Sul, conta que das sete linhas de tratamento com que trabalha apenas uma é nacional. “Qualquer aumento do dólar, como esse último, reflete imediatamente no preço de produtos que as clientes usam no salão. O shampoo, por exemplo, custava R$ 60 e agora pago R$ 66”, justifica.
Enquanto isso... Bem na foto
A era das amizades convertidas em bytes em sites de relacionamento não deve seu fenômeno unicamente ao Facebook. Se o site de relacionamentos é vitrine para a vaidade virtual de tantos, os preços das máquinas fotográficas registram deflação absurda. Seguindo a lógica de popularização de eletrônicos, são dos que mais chamam atenção pela variação negativa na tabela do IBGE. No ano, esses produtos acumulam queda de 5,35%.
Joias e óculos não escapam
Não é só no salão de beleza que o dragão da vaidade mostra as garras. Quem gosta de joias já percebeu que o aumento do ouro na cotação internacional, devido à turbulência internacional, já chegou aos balcões das joalherias. Na média nacional, as joias acumulam este ano alta de 12,92%. Na Grande BH, a variação é ainda mais reluzente: 14,03%. De acordo com Antonio Braz, analista do IBGE, o preço do ouro financeiro e o metálico são bastante correlatos e aí está a resposta da variação: “O preço internacional do ouro disparou porque é ativo de segurança em situação de crise”.
Os produtos óticos, com pezinho no mercado da moda, também experimentam variações que gritam nas planilhas. Especialmente na comparação entre os dados da Grande BH e a média nacional: por aqui, as armações ficaram, este ano, 11,43% mais caras, ante a variação de 5,99% da média nacional.
Proprietário de uma ótica na capital, Diogo Munhoz afirma que os produtos de grife importados estão mais caros. “Os óculos de uma linha nova da Prada ou da Ray Ban, por exemplo, custam em média R$ 2 mil. Os antigos modelos saíam por R$ 1,2 mil”, compara ele, que está no mercado há 40 anos e se lembra bem quando, há 15 anos, os Ray Ban eram menos cobiçados e valiam, proporcionalmente, a metade do preço.
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Custos de serviços nos salões de beleza superam inflação nacional
Pressão em BH é ainda maior
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