
O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, lançou ontem um plano que prevê investimentos em infraestrutura e redução pela metade dos impostos para empresas que contratarem empregados e corte nos tributos cobrados sobre a previdência dos trabalhadores . No total, o programa deverá custar US$ 447 bilhões, entre renúncias fiscais e gastos em obras como reparos de estradas e pontes, a reforma de mais de 35 mil escolas em todo o país e a contratação de professores nos próximos dois anos. Apenas as reduções fiscais devem responder por US$ 240 bilhões.
Anunciado em discurso no Congresso, o pacote tem o objetivo de reduzir a taxa de desemprego, que alcança 9,1% da força de trabalho e vem minando a popularidade do presidente, ameaçando seus planos de se reeleger em 2012. Por essa razão, Obama ajustou o tom do pronunciamento para se dirigir ao eleitor norte-americano que sofre com os efeitos da crise, que ameaça jogar a economia na recessão.
“Todos aqui sabem que é nas pequenas empresas que os empregos começam. Então, para todos os que falam em criar empregos, esse plano é para vocês. As pequenas empresas terão redução de impostos para quem contratar”, disse ele. “O propósito é colocar mais pessoas de volta ao trabalho e mais dinheiro no bolso dos trabalhadores.”
Afirmando que os EUA enfrentam uma “crise nacional”, com a economia estagnada, ele exortou os parlamentares governistas e de oposição a aprovar rapidamente as propostas. Em tom incisivo, disse que os políticos de Washington precisam “parar com o circo”, numa referência à disputa travada entre republicanos e democratas em torno da elevação do teto de endividamento público, em julho, que quase forçou o país a entrar em moratória.
Batizado de Lei de empregos americanos, o plano prevê a prorrogação dos benefícios do seguro-desemprego até o fim de 2012, a redução de impostos e das contribuições dos trabalhadores para a previdência, o equipamento das escolas com computadores com acesso à banda larga e a contratação de mais professores. Haverá estímulos para a contratação de veteranos de guerra e as empresas receberão um crédito de US$ 4 mil ao empregar um trabalhador que tenha passado mais de seis meses procurando emprego.
Confiança Este é o segundo grande pacote anunciado pelo presidente norte-americano para recuperar a economia. Logo depois da posse, em 2009, ele lançou um plano de US$ 800 bilhões que não conseguiu fazer a economia retomar o crescimento de forma sustentada. De acordo com Obama, o atual projeto “dará às empresas confiança de que, se elas investirem e contratarem, haverá consumidores para seus serviços e produtos”.
Ele garantiu que, mesmo reduzindo impostos, o programa não vai aumentar o déficit nas contas públicas. O governo e a oposição estão discutindo formas de economizar US$ 1,5 trilhão, no prazo de 10 anos, para conter o crescimento da dívida pública, que já bate nos US$ 15 trilhões. Segundo analistas políticos, o tom empregado por Obama no pronunciamento, que foi transmitido ao vivo pela televisão, representou um desafio para a oposição republicana, que corre o risco de ser responsabilizada pela continuidade da crise se o plano não passar no Congresso.
Ontem, uma “supercomissão” do Congresso reuniu-se pela primeira vez para tentar identificar, até novembro, possíveis reduções orçamentárias para reduzir a dívida pública norte-americana, que já alcançou US$ 14,7 trilhões. Manifestantes interromperam por alguns momentos a reunião, gritando “empregos já”. O grupo, que tem 12 integrantes, sendo seis democratas e seis republicanos, foi criado em 2 de agosto, depois que o Congresso autorizou, na última hora, o aumento do teto da dívida federal.
Estímulos na boca do forno
Minneapolis (EUA) – O presidente do Federal Reserve, Ben Bernanke, disse ontem que o banco central norte-americano tem ferramentas para oferecer mais estímulo monetário à economia dos Estados Unidos, mas se recusou a dizer se efetivamente decidirá adotar uma dessas opções na próxima reunião de política monetária, que ocorrerá entre 20 e 21 de setembro. Num discurso preparado para um almoço no Clube Econômico de Minnesota, Bernanke disse que o Fed espera um fortalecimento lento e gradual na recuperação econômica dos EUA, mesmo depois de os membros do banco central reduzirem as projeções de crescimento para os próximos trimestres. No mês passado, o Fed anunciou que pretende manter a taxa referencial de juro próxima a zero pelo menos até meados de 2013.
Na próxima reunião de política monetária, os membros da instituição vão discutir quais são as opções disponíveis para estimular a economia e “estão preparados para empregar essas ferramentas conforme for apropriado”, disse Bernanke. Muitos investidores esperam que o Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc) anuncie uma mudança na composição do balanço do banco central, com aumento no volume de títulos de longo prazo e redução nos papéis de menor duração. A medida, apelidada de Operação Twist pelo mercado financeiro, teria como objetivo oferecer suporte à economia por meio da redução nas taxas de juro de longo prazo.
Bernanke não se comprometeu com nenhuma medida específica, apenas disse que o Fed possui “uma série de ferramentas que podem ser utilizadas para oferecer estímulo monetário adicional”. A Operação Twist seria uma das abordagens moderadas que estão na mesa do Fed. Uma opção mais agressiva e controversa seria anunciar uma terceira rodada de compras de títulos, aumentando o já inflado balanço do banco central, que atualmente soma US$ 2,325 trilhões. Outra opção seria diminuir em 0,25 ponto percentual a taxa de juro paga aos bancos para deixarem dinheiro com o Fed.
O presidente do Fed destacou diversos pontos fracos na economia, entre eles a fraqueza nos gastos dos consumidores e a maneira como os problemas com endividamento público nos EUA e na Europa afetaram a confiança das famílias e empresas norte-americanas nos últimos meses. Ele também comentou que o Fed espera que as expectativas de inflação sejam reduzidas com o tempo. “Vemos indícios pequenos de que a taxa de inflação observada até agora neste ano ficou impregnada na economia”, avaliou, sugerindo que mais estímulo monetário pode ser adotado sem o risco de uma explosão na inflação. “Das recentes revisões dos dados econômicos do governo, nós constatamos que a recessão foi ainda mais profunda e a recuperação mais fraca do que pensávamos. A produção dos Estados Unidos ainda não voltou ao nível de antes da crise”, afirmou Bernanke.
Fim do arrocho na Zona do Euro
Londres – Está realmente encerrado o controverso ciclo de aperto monetário do Banco Central Europeu. Ao manter os juros ontem em 1,5%, a autoridade sinalizou que o atual período turbulento da Zona do Euro não autoriza novas elevações. Analistas acreditam que o presidente do BCE, Jean-Claude Trichet, foi até um pouco além do esperado e abriu espaço para alívio, caso isso seja imprescindível no futuro. Trichet disse que o nível de incerteza é “enorme”, que o crescimento econômico desacelerou e que a inflação deverá cair no ano que vem.
É um discurso novo para quem já havia elevado os juros duas vezes neste ano, em abril e julho. Pela nova avaliação do BCE, os riscos à estabilidade de preços estão balanceados, e não mais em ascensão, e existem perigos para a atividade econômica.
As projeções para o PIB foram revisadas para baixo para este ano (da faixa de 1,5% a 2,3% para 1,4% a 1,8%) e para 2012 (da faixa de 0,6% a 2,8% para 0,4% a 2,2%). A maioria dos analistas não acredita que o BCE vai cortar os juros no curto prazo. Entretanto, Trichet preferiu deixar o terreno preparado para agir mais à frente, se a situação se deteriorar ainda mais.
A sinalização do BCE foi do que as bolsas europeias precisavam para se recuperar. Todos os principais índices de ações da Europa fecharam em alta em um dia de grande volatilidade. O índice pan-europeu Stoxx 600 fechou em alta de 0,71%, a 230,47 pontos, um dia depois de ter subido 3% com uma amenização dos temores com a dívida soberana europeia e uma caça a barganhas.
