“Do jeito que está, chegará o dia em que ninguém vai poder andar de carro.” O lamento da bacharel em direito Fernanda Souza, de 30 anos, se deve à disparada do preço médio dos combustíveis em Belo Horizonte, sobretudo o do etanol, cujo percentual de aumento atingiu 27,9% entre julho de 2010 e este mês. O litro de combustível, que saía a R$ 1,661, em média, passou para R$ 2,125. Este é o primeiro mês de julho em que o preço médio do litro do produto ultrapassa a casa dos R$ 2. Não seria nada de mais se não fosse época de colheita da safra de cana de açúcar, matéria-prima do combustível. Mas era para a oferta estar mais elevada e os preços, nas bombas, mais baixos, o que não ocorreu neste ano. A alta do etanol também refletiu no aumento do valor da gasolina, que leva 25% de álcool. Nos postos de BH, a cotação do litro avançou 16,1% em 12 meses. Passou de R$ 2,380 para R$ 2,764.
Os dados, divulgados pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), informam ainda que o preço médio do litro do álcool na capital fechou a semana em R$ 2,137, 0,7% a mais do que o registrado na média dos sete dias anteriores (R$ 2,121). O valor da gasolina permaneceu estável: R$ 2,764. Mais uma vez, portanto, não vale a pena abastecer com etanol em Belo Horizonte, pois o preço médio do litro do produto representa 77,3% do cobrado pela gasolina. Especialistas alertam que só é vantagem pagar pelo álcool quando esta relação for de até 70%. A disparada do preço do etanol em BH ganha maior proporção em razão de ser época da colheita da safra da cana de açúcar.
No início do ano, o governo acreditava que a retirada da matéria-prima do campo ajudaria a reduzir o valor nas bombas dos postos de combustíveis. Isso não ocorreu, segundo explica o presidente da Associação das Indústrias Sucroenergéticas de Minas Gerais (Siamig), Luiz Custódio Cotta Martins, porque a quantidade de cana a ser colhida nesta safra será 8,5% menor do que a estimativa feita pelos produtores há 12 meses. “Prevíamos, na Região Centro-Sul, cerca de 565 milhões de toneladas de cana. Porém, devido à seca (do ano passado), tivemos de rever (o volume) para 517 milhões de toneladas.”
Há outro motivo: a valorização do açúcar no mercado internacional despertou o interesse dos produtores para as exportações. Quando direcionam mais cana para produzir o açúcar, sobra menos para o álcool e o reflexo pode ser visto diretamente na queda da oferta combustível, o que pressiona os preços.
Quedas bruscas
A disparada do preço do etanol ascendeu a luz amarela no governo federal. O Ministério de Minas e Energia estuda propostas para frear as sucessivas altas do álcool. Uma delas é reduzir a quantidade do produto na gasolina, atualmente em 25%, para 18% ou 20%. Enquanto isso não ocorre, donos de postos na capital observam, inertes, a bruscas quedas nas vendas do produto. No Duas Pátrias, no Bairro Santa Inês, na Região Leste de BH, o percentual de retração chega a 70%. “Vendíamos cerca de 5 mil litros de álcool por dia (há 12 meses). Hoje não passa de 1,5 mil”, disse Fábio Caetano da Cruz, gerente do posto.

Ainda assim, é bom o motorista pesquisar bastante o preço da gasolina nas bombas, pois, apesar de o litro ser vendido, em média, a R$ 2,764, algumas empresas cobram até R$ 2,999. O menor valor encontrado pela ANP foi R$ 2,599. No caso do etanol, o preço mínimo chegou a R$ 1,897 e o máximo, R$ 2,490. “Os valores estão osso duro de roer. A saída é pesquisar”, recomenda o operador de caixa Ronaldo Silva, de 22.
Palavra de especialista
Como competir?
Adriano Pires
Diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE)
Se não houver incentivo econômico para que o produtor plante mais cana, teremos um problema com o álcool, pois, cada vez mais, pode faltar (o produto) na quantidade suficiente e o preço subirá. A partir de 2008, o governo incentivou a compra do carro novo, mas, por outro lado, a crise econômica deixou as usinas em situação financeira complicada. Então, para os próximos três anos, acredito que o país não conseguirá resolver o problema da oferta de etanol. Se não houver visão de longo prazo, com regras claras que incentivem os produtores a plantar mais cana, o álcool pode ficar comprometido. Hoje, o risco de se plantar cana é muito grande. É bom lembrar que o governo congelou o preço da gasolina (e o produtor de etanol se pergunta): ‘Como vou competir com uma estatal (Petrobras)?. A (futura) redução (da participação do álcool na gasolina) ajuda, mas é uma medida de curto prazo. Não resolve a questão estrutural. Para voltar a ter um ponto de equilíbrio (entre oferta e demanda), é preciso aumentar a produção de cana.
