
A sedução fica na superfície, por conta da tela sensível ao toque, mas o maior desafio do tablet verde-amarelo vem de dentro. Como a microeletrônica tradicionalmente se destaca no déficit da balança comercial brasileira, os fabricantes dizem que terão dificuldades em cumprir a portaria e a medida provisória que incluem os tablets na Lei do Bem. Para garantir a permanência das isenções fiscais que podem baratear os equipamentos em até 40%, as indústrias que produzem as pranchetas eletrônicas no país têm até 2013 para aumentar em até 95% a quantidade de componentes nacionais. O problema é que esses fornecedores praticamente não existem no Brasil. E hoje cerca de 95% das peças dos aparelhos são importadas.
“Hoje importamos todos os componentes, simplesmente porque não há produção nacional. E, se houvesse, compensaria mais comprar lá fora, pelo menos neste momento”, explica Etiene Guerra, diretor-executivo da MXT. A empresa, que fica em Betim, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, produz o tablet I-MXT, com foco corporativo. O equipamento custa R$ 1,6 mil, mas ele não concorre diretamente com os tablets que chegam ao consumidor. Independentemente do perfil do seu produto, a MXT está entre as fabricantes que começam, desde já, a usufruir dos benefícios fiscais oferecidos pelo governo para produção do tablet no país. As outras são Positivo, Samsung, Motorola, Envision e Aiox. Ao todo, 15 companhias se candidataram, nos ministérios de Ciência e Tecnologia (MCT), Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC) e da Fazenda.
A falta de incentivos efetivos para a microeletrônica é apontada como problema que pode estragar a festa do tablet barato no Brasil, na opinião do diretor regional da Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee-MG), Aílton Ricaldone Lobo: “O que os fabricantes procuram, de fato, é já começar a gozar dos incentivos para os negócios. O governo tem que criar mecanismos para que, depois de explorar o mercado, o pessoal consiga cumprir o prometido”. Caso não respeitem os prazos determinados, os fabricantes podem perder os benefícios. A conta final certamente provocaria aumento no preço dos tablets.
Esperança na demanda
Para o secretário de Políticas de Informática do MCT, Virgílio Almeida, o aumento da demanda por componentes deve fazer a indústria de microeletrônica surgir no país, mesmo sem incentivos diretos do governo. Ele diz que a produção do display sensível ao toque, elemento considerado crucial para a montagem dos tablets, é componente que está nos planos da Foxconn, a gigante taiwanesa que deve começar a produzir o iPad da Apple no Brasil, em setembro. Nem Apple nem Foxconn comentam o assunto. Outra asiática de olho nesse mercado, a chinesa ZTE anunciou para agosto a produção de seu tablet em fábrica no interior de São Paulo.
“Também pretendemos voltar as atenções para o Programa de Apoio ao Desenvolvimento de Semicondutores e Displays, lei federal que reduz impostos de venda e dá incentivos para a formação de pessoal no setor”, diz Virgílio Almeida. A carência de insumos nacionais deve ser principalmente sentida por empresas menores, como a MXT, em comparação a nomes de peso como Motorola e Samsung, que produzem os próprios componentes. “A gente não sabe quanto tempo vai levar para uma fábrica dessa ser montada no Brasil, a que preço o produto vai ser entregue. Em alguma medida, se essa indústria não se desenvolve com propriedade no país, corremos o risco de ficar nas mãos dos outros”, observa Fábio Bedran, diretor-administrativo da MXT.
Para o secretário de Ciência, Tecnologia e Ensino Superior de Minas, Nárcio Rodrigues, o Vale do Silício Mineiro, em Santa Rita do Sapucaí, no Sul do estado, teria condições de receber instalações de indústrias aptas a atender a demanda por componentes de tablets. O Sindicato do Vale da Eletrônica informa que não tem empresas do ramo. De acordo com o coordenador do curso de engenharia da computação do Instituto Nacional de Telecomunicações (Inatel), de Santa Rita, Guilherme Marcondes, no entanto, só o aumento da demanda não será suficiente: “A indústria de componentes precisa de apoio do governo e ações de pesquisa e desenvolvimento específicos, por se tratar de tecnologia em constante avanço”.
Pé atrás
Do lado de cá da prateleira, o administrador Bruno Viana, consumidor ávido de novidades tecnológicas, diz que não acredita na queda de 40% nos preços dos tablets por causa dos benefícios oferecidos no país: “Acho que vai haver no máximo 10% de redução”. Ele sempre garante os gadgets novos diretamente no exterior, quando os lançamentos coincidem com viagens para fora. Viana diz que, por isso, mesmo com a produção nacional, provavelmente vai manter o hábito de comprar os aparelhos em outros países. “Mas para os brasileiros, que, no geral, gostam de compras a prazo, a vantagem de poder dividir os preços no cartão vai fazer diferença.”
O barateamento do preço dos tablets, a partir da desoneração, seria maior mesmo caso houvesse de fato investimento na indústria de insumos de microeletrônica, segundo José Martim Juacida, analista da consultoria International Data Corporation (IDC). “Não vemos hoje no Brasil essa meta concreta de desenvolvimento, mas o que poderia gerar um boom de consumo, com queda de preço, seria justamente a produção em escala, a partir dos insumos negociados a preços competitivos por conta da demanda aquecida.” A consultoria estima que até o fim do ano sejam vendidos 400 mil tablets no Brasil.
