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Estado de Minas FALTA POSICIONAMENTO

Leroy Merlin ignora racismo em perseguição de cliente negra em BH

Pronunciamentos da empresa focam em problemas técnicos e ignoram que tenha havido discriminação por raça; ato em protesto à empresa está sendo organizado


16/03/2023 17:34 - atualizado 16/03/2023 18:54

Produtos comprados por Marcela ao lado de uma sacola da Leroy Merlin
Marcela cobra um posicionamento da Leroy Merlin sobre o caso de racismo por que passou (foto: Reprodução)

Na manhã da última terça-feira (14/3), as pedagogas Marcela Cristina Alexandre e Danielle Fernandes da Silva denunciaram práticas racistas de funcionários da Leroy Merlin em uma unidade de Belo Horizonte (MG) e a empresa ignora o fato de ter havido discriminação por raça em todos os seus pronunciamentos. As duas mulheres, que são negras, foram perseguidas após um erro no sistema da loja, que não registrou o pagamento que uma delas havia feito via pix.

O advogado de defesa das vítimas, Gregório Andrade, afirma que representantes da loja entraram em contato com suas clientes e disseram que telefonariam para marcar uma reunião, mas que, até ontem (15/3), não haviam tido retorno. Em todas as conversas que tiveram, ele afirma que a empresa desconversou e minimizou o fato de que houve racismo na ação dos funcionários. A informação é da CNN.

Em nota, a Leroy Merlin afirmou que, na terça-feira, entrou em contato com uma das vítimas “para ressaltar as práticas de estorno da companhia” e que “combinou uma nova ligação para reforçar as informações e prestar demais esclarecimentos, contudo não obteve sucesso nas tentativas” e que seguiria tentando falar com ela ainda nesta quinta-feira.

A reportagem do Estado de Minas esteve presente durante uma ligação recebida por Marcela, e não houve comentário sobre racismo no caso em questão, apesar de questionado. A empresa insiste em reforçar que o pagamento foi estornado e que os produtos poderiam ficar com a compradora, mas ignora o descaso e o assédio que a vítima passou nas dependências da loja. Quando a repórter do EM se manifestou, a ligação foi encerrada.

A empresa alega que não desligou o telefone, que não chegou a escutar a fala da repórter e que tentou contato novamente, mas não conseguiu falar com Marcela.

O caso

Uma jovem de 34 anos denunciou ter sido vítima de racismo em uma unidade da Leroy Merlin no bairro Dom Joaquim, em Belo Horizonte (MG), na tarde desta segunda-feira (13/3). Na ocasião, ela decidiu pagar sua compra via Pix, mas uma inconsistência sistêmica não reconheceu o pagamento, o que a levou a ser perseguida pelos funcionários do estabelecimento.

De acordo com a vítima, que registrou um boletim de ocorrência na manhã desta terça-feira (14/3), ela foi até a loja por volta das 17h30 para comprar alguns insumos para decorar seu quarto, mas por conta do problema no pagamento, precisou ser direcionada ao balcão de atendimento da loja, onde esperou por mais de meia hora na companhia de uma amiga e foi tratada com descaso pela funcionária responsável.

“Pedi para chamar o gerente, porque queria resolver logo a situação, mas só recebi descaso da funcionária que estava nos atendendo. Ela ignorou que estávamos lá, não prestou atendimento algum, não perguntou meu nome. Ela não teve interesse em nos atender, de pegar meu celular, de tirar cópia dos meus documentos, e quando finalmente perguntei se poderia ir embora, até porque já tinha pago pela minha compra, ela continuou me ignorando, então só pegamos a sacola e saímos”, explicou a jovem.

Assim que desceram as escadas em direção ao estacionamento da loja, um segurança chamou por elas, que esperaram que ele chegasse onde estavam, explicaram a situação, e ainda assim, foram coagidas.

“Uma das funcionárias tentou pegar a sacola com a minha compra da mão da minha amiga. Ela [funcionária] e o segurança ficaram atrás da gente enquanto íamos para o carro ameaçando a gente de chamar a polícia, filmando o meu carro, a mim e a minha amiga”, contou ela.

A vítima pediu, mais uma vez, que chamassem o gerente, o que não foi feito. Incomodada e constrangida, apenas entrou em seu carro e foi embora, pois tinha uma reunião de trabalho, mas retornou à loja poucas horas depois para tentar resolver a situação.

Quando o gerente apareceu, pediu desculpas e afirmou que o problema era culpa do sistema nacional do pix, o que é negado pela jovem. “Se fosse realmente isso, o dinheiro não teria saído da minha conta, ou eu já teria tido um estorno, o que não aconteceu. O problema era do sistema deles”, diz.

De acordo com a jovem, na noite de ontem, ela chegou a receber um reembolso – e não um estorno – do valor da compra, mas que sua indignação pela situação não era pelo dinheiro, e sim pela falta de dignidade com que foram tratadas. De acordo com a defesa de Marcela e Danielle, o caso se trata de racismo estrutural e institucionalizado, e Marcela devolverá os produtos que comprou.

“Que ela [empresa] faça ações que visem o combate ao racismo, não mandando os seguranças embora. A gente não quer isso. A gente não quer mais um preto desempregado. A luta é para além. A luta é para que um pai de família possa sair para comprar as coisas e não ser molestado. Há necessidade de uma política interna de reestruturação para o combate ao racismo. A pergunta que se faz é a seguinte: ‘eu, branco, de terno, teria esse tipo de tratamento?’”, disse Gregório Andrade.

Marcela também questiona: “Por que a abordagem de uma pessoa preta tem que ser dessa forma? Por que temos que ser tratados dessa maneira? Por que um erro de sistema de loja se tornou uma situação em que humilhar, constranger e ameaçar era a solução? Por que não nos tratam bem? Eu não queria me expor, estou fazendo isso para que outras pessoas não precisem passar por isso”.

A vítima entrou com um processo contra a empresa, que foi notificada na tarde desta quinta-feira (16/3).

A Polícia Civil de Minas Gerais (PCMG) disse que a vítima registrou um boletim de ocorrência e que o fato segue sob análise da Delegacia Especializada de Investigação de Crimes de Racismo, Xenofobia e Intolerâncias Correlatas.

Ato no sábado

 

Marcela e Danielle estão organizando um ato em frente à unidade da Leroy Merlin em que o caso ocorreu. A previsão é de que a manifestação ocorra às 10h de sábado (18/3). Dentre as reivindicações, estão:
  • Educação antirracista na empresa com mudança no modo de agir em relação ao tema;
  • Garantia de emprego dos seguranças que agiram segundo o modo de operar da empresa e reeducação para os funcionários;
  • Nota Pública da empresa assumindo nova postura sobre o racismo;
  • Fim do racismo institucional;
  • Reparação para Marcela e Dani que sofreram a violência na unidade da Leroy Merlin do Minas Shopping.

O que diz a Leroy Merlin

Em nota, a Leroy Merlin afirma que já entrou em contato com Marcela para dar continuidade ao atendimento e que o problema com o sistema de pix aconteceu em várias unidades da empresa. Leia na íntegra:

“A LEROY MERLIN informa que realizou novo contato com a cliente na data de hoje (16) para dar continuidade ao atendimento referente ao erro com o processo de pagamento e sua experiência na loja de BH. Contudo, a ligação foi finalizada pela cliente, conforme registro efetuado pelo sistema, por isso a empresa não teve sucesso em concluir a conversa, deixando uma mensagem em caixa postal. A empresa esclarece ainda que, diante da judicialização do caso por iniciativa da consumidora, dará continuidade ao tema pelas vias legais.”
 

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