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Estado de Minas

Nova geração de destilados mineiros se destaca por qualidade e variedade

Produção ultrapassa as fronteiras da cachaça e explora bebidas (rum, uísque e gim) que até então eram só importadas


21/03/2021 04:00 - atualizado 21/03/2021 15:28

Cumaru leva um sabor brasileiro para a receita do rum com especiarias Don Bene, da Benerick's(foto: Bárbara Dutra/Divulgação)
Cumaru leva um sabor brasileiro para a receita do rum com especiarias Don Bene, da Benerick's (foto: Bárbara Dutra/Divulgação)

A produção de cachaça faz parte da nossa história. Mas não pense que os mineiros pararam no tempo quando se fala em destilados. Uma nova geração chega ao mercado com vontade de mostrar a diversidade e a qualidade de bebidas que só conhecíamos importadas, como uísque, rum e gim. O uso de ingredientes brasileiros é um ponto em comum. A própria cachaça vem repaginada – um dos rótulos que representam esse novo momento das destilarias mineiras tem o “treme” do jambu.
 
Os irmãos Lamas herdaram do pai, dono de um pequeno alambique, o interesse por bebidas. Por mais de 30 anos, continuaram com a produção artesanal de cachaça, sem fins comerciais, mas nunca esconderam uma paixão em comum: o uísque. “De 2000 para cá, eles decidiram ter esse foco. Testaram receitas, técnicas, equipamentos e, ao longo do tempo, viram que conseguiam alcançar uma bebida de qualidade”, conta a diretora de marketing Luciana Lamas, já da terceira geração da família.
 
A destilaria Lamas, que fica em Matozinhos, tem quatro uísques. Os rótulos seguem a tradição escocesa, mas carregam um toque de brasilidade. Isso fica evidente no Nimbus, que é o carro-chefe, envelhecido em carvalho americano e defumado (na Escócia, utiliza-se a turfa, material vegetal em decomposição antes de virar carvão). “O que decidimos fazer? Não vamos usar turfa, vamos fazer a nossa versão, defumar os grãos de malte com madeira de eucalipto de reflorestamento”, explica.
 
O Nimbus fica com sabor de fumaça – tem quem ache que é de bacon líquido. No ano passado, quando foi lançado, ganhou medalha de prata em um concurso nos Estados Unidos e bronze na Inglaterra. Além disso, foi classificado pelo jornalista britânico Jim Murray, um especialista na bebida (já provou mais de 20 mil rótulos), na “Bíblia do uísque 2021”, como uma bebida genial.
 
O uísque Nimbus, da Lamas Destilaria, é defumado com madeira de eucalipto(foto: Victor Schwaner/Divulgação)
O uísque Nimbus, da Lamas Destilaria, é defumado com madeira de eucalipto (foto: Victor Schwaner/Divulgação)
 
Para os mais tradicionalistas, a sugestão é consumir o uísque puro ou com gotas de água para realçar suas notas sensoriais. Mas por que não incluí-lo na coquetelaria? A Lamas vai iniciar uma parceria com Pedro Lelis, da Drink S/A, de Goiânia, para quebrar o tabu de que não se usa uísque bom para fazer coquetéis. Como exemplo, o mixologista criou o Alexia, com uísque, limão siciliano, xarope de açúcar demerara e água de coco, refrescante como pede o clima do Brasil.
 
Sempre em busca de inovação, a destilaria, uma das poucas fabricantes de uísque no Brasil, trabalha para provar que o produto brasileiro pode ser exclusivo e de qualidade. A edição especial do Nimbus envelhecido em barril de amburana, madeira local muito usada para fazer cachaça, se esgotou em menos de três se- manas. “Isso abriu nossos olhos para um mercado ansioso por experimentar novidades. Estamos tentando usar outras madeiras brasileiras e fazer algo diferente no universo do uísque.”
 

Plano era ser diferente

 
A história do gim Yellow Bird começa em 2015, quando Gustavo Sanches conheceu o destilado em visita ao restaurante do tio, na Espanha. Provou e amou. Três anos depois, ele e o sócio Felipe Resende, seu amigo de infância, resolveram entrar neste mercado, que explodiu no Brasil, enxergando muito potencial na produção nacional. “A nossa ideia era fazer um produto diferente, que se destacasse. Não dava para ser mais um no mercado”, diz Gustavo.
 
Criado pelo bartender Albert Coelho, da Lamparina Cachaçaria, o Calma nervo combina cachaça de jambu, limão capeta, licor de pequi, água tônica e manjericão(foto: Bruna Brandão/Divulgação)
Criado pelo bartender Albert Coelho, da Lamparina Cachaçaria, o Calma nervo combina cachaça de jambu, limão capeta, licor de pequi, água tônica e manjericão (foto: Bruna Brandão/Divulgação)
 
Por isso, eles fizeram tudo sem pressa. O desenvolvimento do produto levou três anos. Gustavo (engenheiro de produção) e Felipe (engenheiro mecânico) testaram mais de 70 receitas até chegar à última versão, 100% autoral e com álcool de qualidade superior. A proposta é oferecer um gim equilibrado e fácil de fazer combinações. “Como não queríamos deixar o gim muito azedo, trouxemos elementos doces, como cascas de laranja serra d’água e limão siciliano”, destaca.

Entre as especiarias, cardamomo, gengibre, pimenta-da-jamaica e o zimbro, que, por lei, é ingrediente obrigatório e deve ser predominante. Aliás, o nome Yellow Bird é uma alusão a uma família de pássaros que reside na América do Norte e se alimenta de frutos carnosos, como o zimbro.
 
A garrafa tem design exclusivo e se tornou um diferencial da marca. Os sócios demoraram um ano para encontrar o fabricante, único que trabalha com vidro reciclado na América Latina. “O mais comum é importar garrafas da China e fazer adaptações. No nosso caso, desenvolvemos um design próprio para fugir das garrafas cilíndricas.” A do Yellow Bird é quadrada, tem o rótulo amarelo e tampa também criada pela destilaria, que fica no bairro Olhos D'Água.
 
 
A garrafa de vidro reciclado com design exclusivo, se tornou um dos diferenciais do gim Yellow Bird (foto: Joana Costa/Divulgação)
A garrafa de vidro reciclado com design exclusivo, se tornou um dos diferenciais do gim Yellow Bird (foto: Joana Costa/Divulgação)
Gim vai muito além de gim tônica, avisa Gustavo. Não que ele seja contra o coquetel, que se popularizou rapidamente, mas diz que existem diversas outras formas de consumo. Desde clássicos (negroni e dry martini) até exóticos (a destilaria criou, por exemplo, o red berry, com gim, campari, morango, chá de frutas vermelhas, pimenta rosa e água tônica).
 

De consumidores a produtores 

 
A fotógrafa Bruna Brandão sempre gostou de beber cachaça. Daí para produzir foi um pulo. Nas idas para Belém, onde, há sete anos, desenvolve uma pesquisa sobre o estilo musical tecnobrega, ela teve a ideia de unir o melhor de Minas e do Pará. “Lá tem cachaça com jambu fresco, mas a cachaça não é boa como a daqui, deixa a desejar. Aí comecei a trazer a planta e fazer com a nossa bebida”, conta. O primeiro lote da Jambruna fez sucesso no carnaval de 2018 em BH.
 
Com a cachaça Jambruna, a fotógrafa Bruna Brandão aproxima Minas e Pará(foto: Debora Brandão/Divulgação)
Com a cachaça Jambruna, a fotógrafa Bruna Brandão aproxima Minas e Pará (foto: Debora Brandão/Divulgação)
 
Para ter sempre jambu fresco, que dá um sabor especial à bebida, Bruna mantém parceria com uma associação agroecológica na Região Metropolitana de Belém. “Plantar aqui seria difícil, porque a planta não sobrevive fácil fora do clima amazônico, mas, além disso, acho importante trazer de lá para exaltar a cultura deles. A minha cachaça é uma combinação de Minas e Pará.”
 
Por aqui, ela fez uma rigorosa seleção da cachaça. Decidiu por uma envelhecida em barril de amburana e jequitibá, produzida em um alambique com tradição centenária em Itaverava, na Zona da Mata. O sabor de baunilha, que vem da madeira, se mistura ao jambu em um processo de infusão, acompanhado de perto por Bruna. Utiliza-se apenas a flor, onde está concentrado seu poder de adormecer a língua. “Para mim, o jambu não pode cobrir tanto a cachaça, porque ela tem um paladar bom para oferecer. Busco o equilíbrio para você sentir o jambu e as especiarias das madeiras.”
 
A Jambruna pode ser consumida pura, para curtir a sensação do tremor, que dura alguns minutos na boca, ou em coquetéis. “O jambu é um aliado para fazer a experiência memorável, já que provoca o paladar e chama a atenção para outros ingredientes. Gosto de usar a cachaça na coquetelaria para realçar algum sabor.” O Calma nervo, invenção do bartender Albert Coelho, da Lamparina Cachaçaria, com cachaça com jambu, limão capeta, licor de pequi, água tônica e manjericão, virou patrimônio da marca.
 

Rum com especiarias

 
Henrique Chaves cresceu vendo o pai bebendo rum e, quando se lançou no mercado de bebidas com a Benerick’s, decidiu resgatar o destilado em sua versão com especiarias. Inspirado na própria história do spiced rum, fruto de uma pesquisa de um norte-americano no Caribe em busca de novos sabores, ele criou uma receita mineira, o Don Bene. “Acho que o rum ficou esquecido porque faltava um produto artesanal brasileiro de qualidade, só se encontravam industrializados”, aponta.
 
Rum Don Bene (Benerick's)(foto: Bárbara Dutra/Divulgação)
Rum Don Bene (Benerick's) (foto: Bárbara Dutra/Divulgação)
 
Mais raro, o spiced rum é muito difundido na coquetelaria, mas tem pouca visibilidade na ponta. Henrique quer facilitar o acesso do consumidor final a uma bebida que tem a complexidade do rum e notas de especiarias. “O que seria do Brasil se só pudéssemos consumir rum importado? A produção local e artesanal é necessária, até para o consumidor se sentir parte do produto.” Sugere-se usar o rum com especiarias no lugar do tradicional em coquetéis como cuba libre e mojito. A experiência se transforma.
 
Como a Benerick’s tem a filosofia de valorizar sabores brasileiros, incluiu na receita do rum o cumaru, conhecido como baunilha-da-amazônia. As especiarias que dão sabor à bebida estão representadas no rótulo, com ilustração do artista mineiro João Gabriel. 
 

Calma nervo - Albert Coelho (Lamparina Cachaçaria)

Ingredientes
40ml de cachaça de jambu; 10ml de licor de pequi; 10ml de suco de limão capeta; água tônica; manjericão

Modo de fazer
Encha um copo de 300ml (long drink) com gelo. Adicione a cachaça de jambu e o licor de pequi. Corte o limão capeta ao meio e extraia o suco de uma metade (mais ou menos 10ml). Use um coador para ajudar a filtrar as sementes. Misture com uma colher. Complete com água tônica, deixando um espaço para a decoração, e mexa levemente. Decore com uma rodela de limão capeta e um ramo de manjericão.
 

Red berry (Yellow Bird)

Ingredientes
50ml de gim; 15ml de Campari; 1 morango; 1 sachê de chá de frutas vermelhas; 5 unidades de pimenta-rosa; água tônica para completar

Modo de fazer
Coloque o sachê de chá de frutas vermelhas junto com o gim para fazer a infusão. Adicione gelo até a borda da taça. Complete com água tônica, fatias finas de morango e campari. Para finalizar, pimenta-rosa.
 
 

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