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Estado de Minas

Para ajudar restaurantes, clientes pagam por pratos que só vão comer depois

Plataformas disponibilizam venda de vouchers, que serão revertidos em consumo quando os restaurantes voltarem a funcionar, com valores a partir de R$ 50 e validade de até um ano


postado em 12/04/2020 04:00

Secreto de porco com purê de batata defumada (Caravela) (foto: Nereu Jr/Divulgação)
Secreto de porco com purê de batata defumada (Caravela) (foto: Nereu Jr/Divulgação)


Não está fácil fechar a conta. Até quem continua de portas abertas, com cardápio de delivery, não consegue receita suficiente para pagar as despesas fixas. Nesse cenário, a venda de vouchers surge com uma luz no fim do túnel para atravessar o período de quarentena. Os consumidores pagam um determinado valor para ter direito a gastar depois no restaurante escolhido, enquanto os estabelecimentos, que sofrem com queda expressiva de faturamento, recebem  imediatamente o dinheiro.
 
Criado há 18 dias, o movimento “Apoie um restaurante” já chegou a mais de 300 cidades brasileiras. Em Belo Horizonte, 227 restaurantes participam do programa de venda de vouchers, que entrou no ar logo na primeira semana de isolamento. “Nesse período de quarentena, o hábito de consumo mudou, principalmente quando falamos de restaurantes, e sabemos que todos os negócios vão sofrer com a falta de fluxo de caixa, considerando que todos os custos fixos permanecem e eles não estão faturando para isso”, aponta a diretora de marketing da Stella Artois, Bruna Buás.
 
Leitão à bairrada (Capitão Leitão) (foto: Nereu Jr/Divulgação)
Leitão à bairrada (Capitão Leitão) (foto: Nereu Jr/Divulgação)
 
 
O consumidor compra um voucher no valor de R$ 50 e ganha crédito de R$ 100 para gastar até o último dia do ano. “A pessoa ganha o benefício e ainda ajuda o restaurante da sua preferência”, ressalta Bruna. No dia seguinte, o valor integral (sem descontar a taxa de transação) está na conta do estabelecimento escolhido. A previsão da cervejaria é injetar pelo menos R$ 6 milhões no setor de restaurantes com os 60 mil vouchers disponibilizados.
 
O chef Cristóvão Laruça oferece, além de consumo, vouchers para cursos e jantares harmonizados(foto: Leandro Couri/EM/D.A Press)
O chef Cristóvão Laruça oferece, além de consumo, vouchers para cursos e jantares harmonizados (foto: Leandro Couri/EM/D.A Press)
 
Antes de o isolamento começar no Brasil, o chef Cristóvão Laruça (Caravela e Capitão Leitão) soube de uma iniciativa de venda de vouchers em Portugal e não teve dúvida ao aceitar o convite para participar do movimento “Apoie um restaurante”. Em 24 horas, foram vendidos todos os 100 vouchers de cada um dos seus restaurantes, o que resultou em uma receita antecipada de R$ 20 mil. “BH merece ter sido eleita cidade da gastronomia. Achei impressionante a resposta do público mineiro.”
 
O chef também lançou um programa próprio de recompensas que vão além de valores para consumo nos restaurantes. O cliente do Caravela pode escolher entre uma garrafa de vinho exclusivo (produzido por uma vinícola do Alentejo) por R$ 200, um jantar harmonizado por R$ 450 ou um workshop de cozinha portuguesa com duração de quatro horas por R$ 500. Quem quiser apoiar o Capitão Leitão pode comprar um menu degustação harmonizado com drinques por R$ 170. A expectativa é arrecadar mais R$ 40 mil com a venda desses vouchers, válidos até o fim do ano.
 
Bife ancho com risoto (Baixo Lourdes)(foto: Ana Sandim/Divulgação)
Bife ancho com risoto (Baixo Lourdes) (foto: Ana Sandim/Divulgação)
 
 
Mantendo todos os funcionários em casa, o chef atende sozinho o serviço de delivery. O público pode pedir qualquer prato do Caravela, entre clássicos como o bacalhau com broa e novidades, entre elas o secreto de porco (corte extraído da região entre a barriga e a costela) com purê de batata defumado e batata frita. Além do leitão à Barraida, você pode comer em casa o torresmo de porchetta com abacaxi do Capitão Leitão. “Os pedidos não representam nem 3% do movimento, mas, enquanto tivermos estoque, ânimo e pessoas querendo, vamos continuar cozinhando”, avisa Cristóvão.
 
O administrador Gabriel Gasparini uniu forças com a Suflex (startup que oferece soluções de gestão em gastronomia) para colocar a plataforma “Menu do amanhã” no ar em oito dias. “A principal preocupação dos donos de restaurantes é manter o emprego das pessoas. Todos trabalham com uma margem muito pequena e o delivery, principalmente em lugares que não faziam, chegam no máximo a 20% do que precisariam no mês para sustentar o negócio”, contabiliza.
 
Segundo o chef Gael Paim, o dinheiro arrecadado antecipadamente ajuda a organizar o fluxo de caixa(foto: Marcos Vieira/EM/D.A Press)
Segundo o chef Gael Paim, o dinheiro arrecadado antecipadamente ajuda a organizar o fluxo de caixa (foto: Marcos Vieira/EM/D.A Press)
 

UM ANO DE VALIDADE O “Menu do amanhã” começou em São Paulo e Rio de Janeiro e já chegou em Belo Horizonte. Ao todo, são quase 200 estabelecimentos e a ideia de Gabriel é abranger o máximo possível de cidades. Cada participante pode oferecer vouchers com dois valores dife- rentes. “Os restaurantes são livres para definir quais valores querem ofertar. Como são negócios muito variados, cada um sabe o que funciona melhor”, destaca. Os vouchers são válidos até um ano depois da data da compra.
 
O Baixo Lourdes faz parte de três plataformas de venda de vouchers. Os valores variam de R$ 50 a R$ 100, mas em todos os casos a casa oferece vantagens. Quem comprar R$ 100, por exemplo, terá direito a consumir R$ 140 em comida e bebida quando a casa reabrir. A data de validade também varia (alguns vouchers podem ser usados até um ano depois da compra). “Até quem não é cliente está nos apoiando, e esta é uma ajuda e tanto, porque facilita o nosso fluxo de caixa”, comenta o chef Gael Paim.
 
Ravióli de espinafre recheado de muçarela de búfala e manjericão ao molho de tomate pelati (Un'Altra Volta)(foto: Thiago Mamede/Divulgação)
Ravióli de espinafre recheado de muçarela de búfala e manjericão ao molho de tomate pelati (Un'Altra Volta) (foto: Thiago Mamede/Divulgação)
 
 
A cozinha continua aberta, mas agora trabalha com um cardápio reduzido de delivery, priorizando os ingredientes que estão no estoque e receitas des- complicadas. Entre as opções, steak de chorizo com risoto de tomate e estrogonofe de frango. Gael comemora que saiu do zero, já que o restaurante não tinha este serviço, para mais de 100 entregas no fim de semana. “Escrevo um bilhetinho a mão em toda entrega, desde 'Muito obrigado por nos ajudar' até 'Escolha sua melhor louça e monte seu prato como um chef de cozinha'. É uma forma de criar um elo entre a casa e o cliente”, diz.
 
Espaguete com molho cremoso de requeijão e camarões
(Un'Altra Volta)

Ingredientes

120g de espaguete grano duro; 1 colher de sopa de sal grosso; 150g de camarão; 40ml de azeite extravirgem; 80g de requeijão cremoso; 40ml de creme de leite fresco; sal a gosto; pimenta-do-reino a gosto; 
páprica a gosto.

Modo de fazer

Em uma panela, coloque 1 litro de água e espere levantar fervura. Em seguida, adicione uma colher de sopa de sal grosso. Coloque a massa e deixe cozinhar por 8 minutos para ficar al dente. Caso queira a massa mais cozida, deixe mais tempo cozinhando e vá experimentando a consistência. Tempere os camarões com sal, páprica e pimenta-do-reino. Aqueça bem uma panela. Coloque o azeite e em seguida os camarões. É importante que seja rápido para manter o ponto dos camarões. Reserve a metade dos camarões para finalização. Na mesma panela, adicione o creme de leite fresco e o requeijão. Aqueça bem até que fique cremoso. Adicione a massa, misture bem e monte o seu prato. Coloque os camarões que foram reservados por cima da massa e sirva imediatamente. 
 
Lado humano

O movimento “Gentileza gera gentileza” é inspirado em uma iniciativa parecida de Montreal, no Canadá. Quando soube da ideia de lá, a jornalista brasileira Alexandra Forbes, que mora na França, percebeu que poderia ajudar chefs e donos de restaurantes, que começavam a demonstrar desespero com a situação, antes mesmo de o isolamento ser de- cretado. “O lado humano me motivou acima de tudo. Quando você ajuda um restaurante, não está ajudando só o chef, mas o lavador de prato, o garçom, o vigia. Essas pessoas não podem ficar sem salário”, comenta.
 
Em parceria com a plataforma de pagamentos StarPay, o movimento GGG disponibiliza vouchers de R$ 150 para consumo em quase 100 estabelecimentos. Por enquanto, todos são de São Paulo. Quem compra três ou mais vouchers recebe uma garrafa de uísque em casa. “Você não pode imaginar a emoção dos chefs que estão participando, é algo que me aquece o coração, que me faz seguir com esta missão de fazer diferença na vida de pessoas”, destaca Alexandra.
 
O italiano Un'Altra Volta não deve usar de imediato o dinheiro arrecadado com os vouchers. O plano dos sócios Pedro Guimarães e Júlia Duarte é fazer uma reserva com esta receita antecipada para as despesas de quando o restaurante voltar a funcionar normalmente. Para isso, eles contam com a ajuda de clientes fiéis. “A maioria das pessoas que compram os vouchers são clientes que frequentam a casa, gostam da comida e querem nos apoiar mesmo”, observa Júlia.
 
Para enfrentar a quarentena, os sócios ampliaram o serviço de entrega, que existe desde o início da casa. “O delivery representava de 10% a 15% do faturamento total e agora queremos chegar a pelo menos 30% para manter as despesas básicas”, calcula Pedro. Além do extenso cardápio de massas, risotos e carnes, com pratos para uma, duas ou cinco pessoas, o Un'Altra Volta criou kits para preparar em casa, entregues com as instruções de preparo. No kit básico estão incluídos fettuccine, molho funghi, lasanha à bolonhesa congelada e dois refrigerantes. 

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