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Estado de Minas ARTES INTEGRADAS

Saiba como funciona a casa das seis mulheres no Mercado Novo

As artistas Carolina Botura, Chris Tigra, Fernanda Branco Polse, Julia Baumfeld, Maria Moreira e Sara Não Tem Nome realizam a residência criativa Casa Póça


20/07/2022 04:00 - atualizado 19/07/2022 19:28

As artistas Carolina Botura, Chris Tigra, Fernanda Branco Polse, Julia Baumfeld, Maria Moreira e Sara Não Tem Nome se abraçam em frente a porta metálica sanfonada e parede em tom de vermelho do Mercado Novo
A Casa Póça terá atividades abertas ao público a partir de amanhã (foto: Dolores Orange/Divulgação)

Frutas, legumes, música, verduras, artes visuais, performance – tudo isso se mistura na ocupação do Mercado Novo proposta pelas artistas Carolina Botura, Chris Tigra, Fernanda Branco Polse, Julia Baumfeld, Maria Moreira e Sara Não Tem Nome. 

Elas estão por trás da Casa Póça, espaço de experimentação e residência artística aberto temporariamente no térreo do histórico centro comercial, na lateral da feira livre, onde estão sendo desenvolvidas diversas atividades, até o próximo dia 28.

A ocupação teve início na última segunda-feira (18/7), mas com uma programação fechada entre as residentes. A abertura para o público em geral ocorre nesta quinta-feira (21/7), com uma “Manifesta” – evento festivo de apresentação do espaço, das artistas e das duas convidadas de outras regiões: as cantoras e compositoras Jadsa, da Bahia, e Sáskia, do Rio Grande do Sul.

Idealizada pelas artistas residentes do projeto, que conta com patrocínio da Natura Musical, por meio da Lei Estadual de Incentivo à Cultura, a Casa Póça é um espaço para o risco artístico. Sua origem remonta a 2019, quando elas se reuniram pela primeira vez para uma residência de uma semana na galeria de arte Mama/Cadela.

Sara Não Tem Nome conta que a residência partiu do desejo de Julia Baumfeld de promover um encontro entre essas mulheres artistas. “Ela foi conversando com cada uma de nós, todo mundo topou e a gente fez aquela primeira edição. Foi um momento a partir do qual a gente se conectou muito, porque foi um encontro muito frutífero, muito legal, e ali já começamos a conversar sobre fazer uma segunda edição”, conta.

"A proposta é de encontro, troca e diversão. Essa ocupação tem uma dimensão política, mas num lugar de fluxo, de arte; não é algo panfletário, mas sim uma proposta criativa. Queremos ter não só a palavra e a ideia, mas também o corpo e a interação. Acreditamos que seja possível fazer algo político, artístico e também divertido, porque estamos num momento de muita tensão, próximos de uma eleição importante, então esse espaço é necessário"

Sara Não Tem Nome, artista



Álbum visual 

Sara diz que a iniciativa nasceu independente, pequena, e que as artistas tiveram a vontade de fazer algo maior, mais estruturado, viabilizado por meio de edital, que pudesse alcançar um público mais amplo. Além da programação prevista, a residência Casa Póça no Mercado Novo vai gerar um álbum visual, com o registro de tudo o que for produzido por lá ao longo desses dias, segundo a artista.

Depois da “Manifesta” de abertura para o público, amanhã, a Casa Póça promove, em parceria com o Festival Sonâncias, na sexta-feira, um bate-papo com Sáskia e Jadsa, sobre o tema “Música, experimento, arte, teia e expressão”. Na sequência, o público também poderá conferir um pocket show de Jadsa. No domingo (24/7), a partir das 14h, o espaço abriga o ateliê Desenho Sônico, que convida as pessoas presentes a participarem dos processos de criação.

“Essa vai ser uma atividade aberta. A gente deu esse nome porque a ideia é fazer a captação sonora dos desenhos, que podem ser feitos com lápis, carvão, com o próprio corpo ou até com legumes e verduras do Mercado. Vamos usar microfones de contato. Além da interação com o público, essa proposta passa pela ideia do desenho que tem som, que não é só uma expressão visual”, explica Sara.

“Rolezim” no Mercado 

No início da próxima semana, a Casa Póça mantém atividades restritas entre as residentes e volta a receber o público no dia 27, quarta-feira, quando será realizado um “Rolezim” pelo Mercado Central. “O ‘Rolezim’ é essa expressão que vem da periferia, dos moleques ocupando lugares onde não costumam ir, como shopping centers. Nossa proposta é fazer isso no Mercado”, diz.

Ela observa que o prédio, atualmente, está dividido em dois universos distintos – o terceiro e quarto pisos, que ao longo dos últimos anos foram requalificados e hoje são ocupados por lojas e bares descolados, uma espécie de point da moda; e o térreo, que mantém as características históricas de comércio popular, voltado para um público distinto do que frequenta os andares superiores.

A artista aponta que essa configuração foi um dos motivos pelos quais o Mercado Novo foi o espaço escolhido para abrigar esta segunda edição da Casa Póça. “A gente queria um lugar que já tivesse uma frequência de público e, ao mesmo tempo, fosse um ponto histórico de Belo Horizonte. A gente se interessou pelo térreo, a parte que tem a feira, com uma dinâmica própria, diferente do espaço requalificado dos pisos superiores”, diz.

Interesse de ocupação 

Ela destaca que o térreo é uma espécie de subsolo que não despertou um interesse de ocupação como se viu no terceiro e quarto andares. “Quisemos chamar a atenção para esse espaço, que é onde chegam as verduras, os legumes, com uma movimentação intensa de madrugada, por conta do fluxo de entrega e distribuição desses hortifrútis, que vão para os restaurantes, bares e lanchonetes da cidade”, ressalta.

O prédio da década de 60 é feito de cobogós de cerâmica, o que proporciona ventilação e luz natural. As artistas consideram a territorialidade do espaço uma influência pulsante, por conta da profusão de estabelecimentos culturais e gastronômicos que possuem um valor afetivo para a cidade e por causa da circulação social diversa.

Sobre a presença de Jadsa e Sáskia, Sara diz que elas fazem parte dessa imersão artística, criando, além de participar do bate-papo e, no caso da primeira, apresentar o pocket show. “Quando a gente fez o projeto, uma das propostas era ter artistas convidadas participando. A Jadsa, a gente já conhecia o trabalho dela, então chamamos para criar junto, e nessa o festival Sonâncias entrou como parceiro”, diz.

Ela diz que foi também por meio dessa parceria que o coletivo chegou a Sáskia. “A ideia é que elas fiquem mais dias aqui com a gente, propondo, experimentando, conversando sobre esse trânsito entre música, artes visuais, performance. Depois vamos também nos apresentar conjuntamente.”

Quase um estúdio 

Com relação ao álbum visual que a residência vai gerar, Sara aponta que foi montada uma estrutura que é “quase um estúdio” na loja 10 do Mercado, alugada para abrir a Casa Póça. “A gente tem lá os instrumentos e o equipamento todo necessário. Vamos registrando, filmando, fotografando todas as atividades desenvolvidas ao longo desses dias para, depois que acabar, a gente entrar num processo de mixagem e masterização do material para finalizar esse álbum visual”, explica.

Ela diz que a loja em si é bem pequena, mas que o espaço externo, na lateral da feira livre, também será usado. “Do lado de fora, a gente colocou umas mesas, para criar novos espaços. É uma área aberta, ampla, que dá acesso ao estacionamento do Mercado”, explica.

Sobre as “Manifestas” de abertura, amanhã, e de encerramento, no próximo dia 28, a artista afirma que elas se propõem a ser um manifesto festivo. Trata-se, segundo Sara Não Tem Nome, de um ambiente em que se possam desenvolver ideias e expressar desejos que também sirvam de alimento para a residência artística.

“A proposta é de encontro, troca e diversão. Essa ocupação tem uma dimensão política, mas num lugar de fluxo, de arte; não é algo panfletário, mas sim uma proposta criativa. Queremos ter não só a palavra e a ideia, mas também o corpo e a interação. Acreditamos que seja possível fazer algo político, artístico e também divertido, porque estamos num momento de muita tensão, próximos de uma eleição importante, então esse espaço é necessário”, salienta.

CASA PÓÇA 

Aberta ao público no Mercado Novo (Rua Rio Grande do Sul, 499, Centro), na quinta (21/7), “Manifesta” de abertura, com as residentes da Casa Póça + convidadas Jadsa e Sáskia, às 19h, com entrada franca. Na sexta (22/7), às 19h, Casa Poça conversa com Jadsa e Sáskia Pocket show de Jadsa. No domingo (24/7), às 14h, Ateliê Aberto - Desenho Sônico. No dia 27/7, às 17h: Rolezim Póça no Mercado Novo. No dia 28/7, às 19h: “Manifesta” de encerramento exposição aberta. 


QUEM É QUEM

Conheça as moradoras da Casa Póça


Carolina Botura
Graduada em pintura e escultura pela Escola Guignard, da UEMG, é artista visual, performer, poeta e mestre em Reiki. Participou de residências e exposições individuais e coletivas no Brasil e no exterior. Publicou os livros de poemas “Parque” e “AguaPedra”, ambos pela editora Curiango. Vive e trabalha em Belo Horizonte.

Chris Triga
Chris Tigra trabalha com linguagens diversas, tratando a arte como parte de uma cultura de ativismo em busca de transformação social. Artista visual, musicista e comunicadora social, é pós-graduada em artes e contemporaneidade pela Escola Guignard. Nascida em São Paulo, vive e trabalha em Belo Horizonte.

Fernanda Branco Polse
Fernanda Branco Polse é cantora, compositora e artista visual, graduada em artes plásticas pela Escola Guignard e em jornalismo pela PUC-Minas. Como cantora, já se apresentou em diversos festivais e casas de show de BH, e como performer circulou por cidades como Los Angeles, Amsterdã, Montreal e Bogotá, entre outras. Lançado em 2016, “Bicho Branco Polse” é seu álbum de estreia. Natural de Londrina, viveu em São Paulo e há mais de 10 anos reside em BH.

Julia Baumfeld
Julia Baumfeld transita entre as linguagens das artes visuais, do cinema e da música. Natural de Belo Horizonte, é graduada em artes plásticas pela Escola Guignard. Já realizou diversos curtas-metragens, dentre eles o documentário “Marco”, lançado no ano passado, sobre o músico Marco Antônio Guimarães, fundador do Grupo Uakti. Em 2020, lançou seu primeiro livro, “Meio dilúvio meio suspiro”, (Fera Miúda). É uma das fundadoras da banda/projeto audiovisual Tarda, onde atua como compositora e baterista. Neste ano lançou seu primeiro álbum solo, “Turva”.

Maria Moreira
Maria Moreira é artista plástica, fotógrafa, performer, pesquisadora sonora e articuladora cultural. Habilitada em xilogravura pela Escola Guignard, foi contemplada por dois anos consecutivos com o Prêmio Ibema de gravura. Integrou o Coletivo Zona em 2015; idealizou em 2018 a Coletiva Casarelas, programa de residências multiartísticas entre mulheres; e também faz parte do Coletivo Póça desde 2019.

Sara Não Tem Nome
Sara Não Tem Nome nasceu em Contagem e vem trilhando sua carreira em diversas áreas, transitando pelas artes visuais, a música e o cinema desde 2014. Em 2015, gravou seu primeiro álbum, “Ômega III”. Em 2017, foi uma das criadoras do projeto audiovisual Tarda e recebeu o prêmio BDMG de curta de baixo orçamento com “Buraco de afundar”. Bacharel em artes visuais pela Escola de Belas Artes da UFMG., fez sua primeira turnê internacional, com shows em Portugal e na Finlândia, em 2019; realizou sua primeira exposição individual, “Situações”, no Memorial Minas Gerais Vale; e participou da Residência Póça. Atualmente trabalha no álbum “A situação”.


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