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Estado de Minas ARTES CÊNICAS

Atriz leva para o palco o drama da avó, internada à força no hospício

Na peça-filme 'Em busca de Judith', Jéssica Barbosa denuncia silenciamento brutal imposto a mulheres negras e oferece novo olhar sobre a luta antimanicomial


04/05/2022 04:00 - atualizado 03/05/2022 22:33

Olhando para o lado, diante de grande janela quebrada e paredes descascadas, Jéssica Barbosa está no pavilhão da Colônia Juliano Moreira, no Rio
Na Colônia Juliano Moreira, a atriz Jéssica Barbosa vivenciou o drama de sua avó, Judith, que ali morreu aos 43 anos (foto: Fernando Dias/divulgação)

Espetáculo com mote instigante e desenvolvimento que foge do convencional, “Em busca de Judith”, idealizado pela atriz Jéssica Barbosa em parceria com Pedro Sá Moraes, estreia presencialmente nesta quinta-feira (5/5), no Instituto Itaú Cultural, em São Paulo.
 
A fruição, no entanto, não é exclusiva para quem está na capital paulista. A montagem parte da peça-filme que integra o programa Palco Virtual Ancestralidades, realizada em pavilhões da antiga Colônia Juliano Moreira, no Rio de Janeiro, e está disponível no canal do Itaú Cultural no YouTube.

DRAMA FAMILIAR

O projeto, que teve início no formato on-line e agora chega ao palco, resgata a história familiar marcante de Jéssica.

Até os 32 anos, a atriz acreditava que sua avó paterna, Judith, havia morrido em um acidente de carro, quando o pai ainda era bebê. Ela descobriu, no entanto, que a matriarca foi internada compulsoriamente pelo marido em um hospital psiquiátrico, aos 28 anos. Passou 13 anos na instituição, até morrer, aos 42.

Ao descobrir esse fato, a atriz sentiu que era necessário descortinar a história de sua família. Afinal, aponta, era injusto demais a jovem mulher preta, mãe de cinco filhos, ter a voz silenciada de maneira tão brutal.

“Meu avô nunca se casou com ela no papel. Na verdade, ele a traiu e se casou com mulher branca. Desconfiamos que ela enfrentou a depressão pós-parto, mas não havia esse diagnóstico nos anos 1940”, conta Jéssica.

"É necessário atravessar a história da luta antimanicomial pela questão racial, especialmente no caso das mulheres. É fundamental pensar sobre saúde mental nesta época em que estamos generalizadamente doentes, com insônia, bruxismo, burnout e depressão"

Jéssica Barbosa, atriz



De acordo com a atriz, “Em busca de Judith” é mais que um espetáculo teatral, pois envolve uma história pessoal e laços familiares. Ela diz que durante o desenvolvimento do projeto, a conexão espiritual e ancestral foi tão grande que ganhou o sentido de ebó, ritual de oferenda aos orixás para equilibrar diferentes aspectos da vida.

Outro ponto importante da peça-filme e da montagem presencial é a música, com trilha sonora executada (ao vivo, no caso do espetáculo que estreia amanhã em São Paulo) por Alysson Bruno (percussão e voz) e Muato (voz, baixo, guitarra e violão).

MÚSICA E AFETO

“Em busca de Judith” também é embalada pela voz de Jéssica, que interpreta canções carregadas de afeto e emoção. A direção musical é assinada por Pedro Sá Moraes, também responsável pela direção cênica.

“As canções são momentos de reflexão, de respiro. Ao mesmo tempo, a musicalidade conversa com a pesquisa de doutorado do Pedro, que investiga o quanto a música traz ritmo para a fala – e como se constrói um tipo de espetáculo em que o texto é atravessado pelas canções”, diz Jéssica.

Há também várias referências a elementos relacionados à estética negra, como a capoeira e a própria dança executada em cena.

O desenvolvimento da peça começou em 2018, quando Jéssica e Pedro ingressaram na residência artística do Museu Bispo do Rosário. Durante três anos, a dupla pesquisou o universo da saúde mental, a história de Judith e sua interface com a arte.

Nesse período, os dois acessaram materiais de pesquisa e contaram com o apoio da curadora pedagógica do Museu Bispo do Rosário, Diana Kolker, que atuou como orientadora durante a construção do trabalho.

BARBACENA 

Enquanto elaborava a dramaturgia, Jéssica Barbosa  leu “Holocausto brasileiro” (2013), livro-reportagem da jornalista mineira Daniela Arbex sobre o Hospital Colônia de Barbacena, e “Mulheres e loucura: narrativas de resistência” (2020), de Melissa de Oliveira Pereira.

“É necessário atravessar a história da luta antimanicomial pela questão racial, especialmente no caso das mulheres. É fundamental pensar sobre saúde mental nesta época em que estamos generalizadamente doentes, com insônia, bruxismo, burnout e depressão”, ressalta.

“EM BUSCA DE JUDITH”

Peça-filme com Jéssica Barbosa. Disponível em www.youtube/itaucultural


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