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Estado de Minas CINEMA

'Lavra' retrata os caminhos e descaminhos da mineração em Minas

Longa dirigido por Lucas Bambozzi terá pré-estreia na 25ª Mostra de Tiradentes, que começa nesta sexta-feira (21/1). Filme poderá ser visto de domingo a segunda


21/01/2022 04:00 - atualizado 21/01/2022 04:16

Brumadinho após o rompimento da barragem em 2019, cena do filme 'Lavra'
Brumadinho após o rompimento da barragem em 2019, cena do filme "Lavra" (foto: TREM CHIC/DIVULGAÇÃO)

“Olhe bem as montanhas.” Tenha você vivido ou passado por Belo Horizonte entre os anos 1970 e 1980, sabe o que isso significa. Em 1974, o artista mineiro Manfredo de Souzanetto criou desenhos que denunciavam a devastação da natureza em Minas. Apresentada em sua primeira grande exposição no Rio de Janeiro, com direito a texto de Carlos Drummond de Andrade publicado no Jornal do Brasil, a série ganhou mais força quando, também por iniciativa do artista, se tornou um adesivo estampado em inúmeros carros da época.

Essa foi uma das referências do realizador Lucas Bambozzi, nascido no interior de São Paulo e criado em Minas, para o longa-metragem “Lavra”. O filme ganha pré-estreia na 25ª Mostra de Cinema de Tiradentes, que tem início nesta sexta (21/1). Com o novo surto de casos de COVID-19, o evento, que seria híbrido, com extensa programação na cidade histórica, será exclusivamente on-line. Até 29 deste mês, serão exibidas 169 produções brasileiras – a programação paralela traz debates, oficinas e performances.

“Lavra” será exibido no domingo (23/1), às 19h – o longa ficará disponível por 24 horas. O projeto partiu do encontro, em BH, de Bambozzi e a escritora e roteirista Christiane Tassis. Era final de 2015 e o impacto do rompimento da barragem de Mariana, um mês antes, rondou a conversa. A ideia de como fazer um filme sobre a questão foi ganhando corpo aos poucos.

OLHAR FEMININO 

“Como tínhamos consciência de que até conseguir os recursos levaria muito tempo, e outros filmes seriam feitos sobre o tema, propusemos uma abordagem híbrida, com uma personagem feminina, que pudesse discutir caminhos e descaminhos: questionar os modelos de mineração, consequências ecológicas, extrativismo e o próprio legado do colonialismo que acontece em Minas”, explica Bambozzi.

Por abordagem híbrida leia-se um filme que passeia entre o documentário e a ficção. A narrativa é conduzida por uma personagem ficcional, Camila (interpretada por Camila Mota, atriz do Teatro Oficina), que, depois de 30 anos nos EUA, retorna à Governador Valadares natal quando o Rio Doce foi contaminado pelos rejeitos da mineração.

A personagem segue o caminho da lama e viaja por outras cidades e distritos do interior de Minas impactados pela atividade: Bento Rodrigues, Paracatu de Baixo, Itabira, Baguari, Serro, Conceição do Mato Dentro. Quando ocorre um novo rompimento, o de Brumadinho, três anos atrás, Camila chega ao local logo após a tragédia e se envolve com movimentos de resistência. No road movie, a personagem se relaciona com pessoas que vivem nas regiões devastadas.

“Camila tem um pacto ficcional. Ela era apresentada como alguém que está conduzindo um filme, dita como atriz. Não houve intenção de omitir isso. Agora, tudo que está ali aconteceu de fato”, continua Bambozzi, que considera “Lavra” um filme-ensaio.

Na maior parte da narrativa acompanhamos a protagonista-narradora de costas. Somente na parte final Camila se revela, o que vai de encontro à jornada criada para a personagem. “Chamamos de sintaxe de câmera o que fizemos para acentuar o discurso, que tem um caráter progressivo. Isso era importante, pois ela, como mulher que volta do exterior um pouco perdida, estava sem os laços com a terra natal.”
Cena do filme Lavra mostra paisagem mineira afetada pelo extrativismo
Consequências ecológicas do extrativismo no estado também são mostradas no filme de Lucas Bambozzi (foto: TREM CHIC/DIVULGAÇÃO)

CÂMERA SUBJETIVA 

Dessa maneira, no momento inicial a câmera subjetiva é como os olhos da personagem – o que se vê é o que ela vê. À medida que sua incursão aumenta, a câmera vai se distanciando dela. Até que na parte final ela já apresenta o todo. “Durante a cena, quem dirige é a Camila, pois é ela quem toma a iniciativa de continuar ou não uma conversa. A ideia é de que ela fosse uma espécie de dispositivo para nos introduzir os personagens. O importante é com quem ela estava conversando, e não ela propriamente”, explica Bambozzi.

“Lavra” teve première em novembro, no Festival Internacional de Documentários de Amsterdã (IDFA). Em dezembro, competindo no Festival de Brasília, recebeu o prêmio de melhor fotografia para Bruno Risas.
 
25ª MOSTRA DE CINEMA DE TIRADENTES
Evento on-line será realizado desta sexta (21/1) até 29 deste mês. Toda a programação, gratuita, será transmitida pelo www.mostratiradentes.com.br. O filme “Lavra”, de Lucas Bambozzi, ficará disponível das 19h de domingo (23/1) até as 19h de segunda (24/1). Debate com diretor e equipe será transmitido domingo, às 21h 


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