UAI
Publicidade

Estado de Minas MÚSICA

César Lacerda aborda lado sombrio da sociedade em 'Nações, homens ou leões'

Em seu novo disco, o cantor e compositor mineiro faz reflexões sobre a ameaça humana à sustentabilidade do planeta


19/12/2021 04:00 - atualizado 19/12/2021 09:41

César Lacerda, de costas, olha para trás e para cima, com capa vermelha volumosa, em ambiente de fundo azul
Produzido durante a pandemia, o novo disco de César Lacerda foi feito com o aplicativo GarageBand, o que se tornou sua marca estética, segundo o músico mineiro (foto: Julia Rodrigues/Divulgação )
Mineiro radicado em São Paulo, o cantor e compositor César Lacerda chega na reta final de 2021 comemorando o lançamento de um trabalho que demorou dois anos para ficar pronto. O disco "Nações, homens ou leões", recém-lançado pelos selos YB Music e Circus, começou a nascer no final de 2019, quando o músico foi convidado para fazer uma turnê em Portugal e na Espanha e aproveitou para passar três meses na Europa.

Debaixo do braço, ele levou os livros  "Memórias da plantação: Episódios de racismo cotidiano", de Grada Kilomba, e "Ideias para adiar o fim do mundo", de Ailton Krenak. De longe, César Lacerda assistiu bastante perplexo às queimadas na Amazônia e no Pantanal.

De volta ao Brasil, ele se preparava para gravar o que viria a ser seu quarto disco de estúdio, quando a pandemia começou. Impossibilitado de sair de casa e se reunir com outros músicos em estúdio, Lacerda encontrou uma solução na palma de sua mão.

"Naquele início de pandemia, era impossível imaginar qualquer possibilidade de encontro. Como eu queria ouvir os arranjos, comecei a gravar os instrumentos pelo celular, no GarageBand. A partir daí, pude imaginar o disco e o próprio uso desse tipo de tecnologia virou uma questão meta simbólica do conceito do álbum", diz.

O GarageBand é um aplicativo gratuito da Apple que funciona como uma espécie de estúdio, permitindo gravar instrumentos como piano, guitarra e bateria. A relação entre o uso dele e o conceito do álbum está ligada ao fato de as músicas tratarem de questões contemporâneas, como a crise climática e o uso de tecnologias.

"Programei tudo. Fiz esse disco como se estivesse escrevendo mensagens de texto. Era tudo no dedo. Depois, exportei essas sessões para o Fabio Pinczowski, e aí a gente passou a trabalhar em cima disso", ele conta.

ESTÉTICA 

Apesar de ter usado o aplicativo em grande parte do processo, a gravação do disco foi encorpada por instrumentistas reais, como Jota Erre, responsável pela bateria e pelas percussões do registro; Frederico Heliodoro, que toca baixo elétrico na faixa "O som que tudo sente", na qual Breno Mendonça toca saxofone; e o guitarrista Elísio Freitas, que participa de "Parece pouco".

"(O uso do GarageBand) Começou como uma brincadeira e passou a ser uma reflexão estética. Isso fortaleceu o trabalho. Deu a certeza de que ele não poderia ser feito de outra forma. Se fosse, certamente a música perderia força estética", avalia o músico.

Composto por 11 faixas distribuídas ao longo de pouco mais de 36 minutos, "Nações homens ou leões" é um álbum que não soa tão sintético quanto seu processo de construção deixa a entender. Pelo contrário, a sonoridade engana e, apesar de ser moderna, também aparenta ser orgânica.

O disco também é marcado por uma série de participações especiais de artistas como a cantora baiana Xênia França (em "Parece pouco"), o cantor e compositor paulistano Marcelo Jeneci (em "Desejos de um leão"), a cantora angolana Aline Frazão (em "Parque das nações"), o cantor, compositor e instrumentista norte-americano Ben LaMar Gay (em "Amanhã"), a cantora paulistana Dandara e a cantora gaúcha Filipe Catto (ambas em "O que eu não fiz") e a cantora mineira Malvina Lacerda, irmã de César (em "O sol que tudo sente").

Embora não esteja explícito nas plataformas digitais, o disco é dividido em três atos que revelam o significado do título. "Nações" vai da primeira à quarta faixa. "Homens" diz respeito às faixas cinco, seis, sete e oito. E "Leões" é o que compreende o restante do disco.

"O primeiro ato trata de temas que são formadores da estrutura das sociedades, identificando um esfarelamento dessas estruturas. No segundo, as canções lidam com as consequências da crise climática e da iminência de um colapso ambiental. E no terceiro, o disco chega à natureza, ao processo de desligamento dos seres humanos da natureza", César Lacerda detalha.

O cantor e compositor refuta a ideia de um disco premonitório, ainda que muitas das canções tenham sido criadas antes da pandemia. "Diversos cientistas já falavam da iminência de uma pandemia. Até mesmo na literatura em que eu estava interessado isso aparecia. Pensar nisso como possibilidade é uma coisa, vivê-la é algo muito diferente."

Para César Lacerda, a pandemia "acelera uma série de processos, de compreensão e de negações". "Na música, eu vejo que aconteceu uma coisa muito parecida com o que aconteceu na gastronomia. Se não fosse a aptidão do Brasil em abordar a canção trazendo algo de transformador, talvez ela tivesse retroagido nesse período."

PODCAST 

Complexo na medida, o novo trabalho do artista e os temas que ele aborda também foram transformados no podcast "Uma conversa sobre 'Nações, homens ou leões'", disponível exclusivamente no Spotify. Dividido em quatro episódios, o programa consiste em um bate-papo entre César Lacerda e o jornalista e crítico musical Leonardo Lichote, que discutem o disco como um todo e os três atos que o compõem.

"Nações, homens ou leões" marca a estreia da parceria entre César Lacerda e Ronaldo Bastos. Eles assinam a composição de "O sol que tudo sente" e "Mudar a vida". "Até hoje é muito difícil para mim assimilar a ideia de que eu estou trabalhando com um cara que ouvi muito durante a minha vida. Na pandemia, a gente se aproximou e fizemos diversas canções", conta o músico.

O compositor e produtor musical carioca, junto com Leo Pereda, é quem escreveu "Desprotegidos pela sorte", single lançado recentemente por Zezé Motta, em parceria com César Lacerda. Na música, os dois cantam sobre as mazelas do Brasil contemporâneo. Encantado com o trabalho, o músico mineiro celebra a parceria com a atriz e cantora.

"Ao longo de sua história, ela [Zezé Motta] esteve à frente de todos os debates. Ela se põe abertamente na frente e é muito enriquecedor poder trabalhar ao lado de uma artista que está em plena atividade criativa aos 77 anos."

Em breve, o mineiro voltará a trabalhar com Ronaldo Bastos muito assinará a direção artística de um álbum inédito. Essa é uma função que ele exerce desde 2016, quando trabalhou, ao lado do também cantor e compositor mineiro Luiz Gabriel Lopes, no álbum "Sol velho lua nova", do cantor e compositor Flavio Tris. Desde então, ele já assinou projetos de Matheus Brant, Luiza Brina e Ceumar.

"Para o próximo ano, espero que a gente consiga recuperar um espaço de calma e aprofundamento. Saindo da pandemia, a gente precisa tirar o artista desse lugar de uma produção incessante", ele afirma.

NAÇÕES, HOMENS OU LEÕES
(foto: Reprodução)

“NAÇÕES, HOMENS OU LEÕES”
.De César Lacerda
.11 faixas
.YB Music e Circus
.Disponível nas plataformas digitais 







receba nossa newsletter

Comece o dia com as notícias selecionadas pelo nosso editor

Cadastro realizado com sucesso!

*Para comentar, faça seu login ou assine

Publicidade