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Estado de Minas ARTES CÊNICAS

Guerras cotidianas da mulher inspiraram a peça ''Às que aqui ficaram''

Peça da Tríade Cia. de Teatro fala da resistência feminina tanto durante a guerra quanto nas periferias do Brasil. Temporada on-line vai até janeiro


05/12/2021 04:00 - atualizado 05/12/2021 07:20

Com rede ao fundo, a atriz Dani Guimarães segura balde, Glenda Bastos está ajoelhada ao lado de carretel de linha vermelha e Wes Gomes tem folha de papel nas mãos
Pela primeira vez, Dani Guimarães, Glenda Bastos e Wes Gomes estão juntas no palco (foto: Rodolfo Ataíde/divulgação)

Um espetáculo sobre narrativas femininas que partem das mulheres de ontem e de hoje, sempre às voltas com suas batalhas cotidianas. Essa é a premissa de “Às que aqui ficaram”, que a Tríade Cia. de Teatro estreia neste domingo (5/12), com exibição on-line e ao vivo, diretamente do Teatro Espanca!, em Belo Horizonte. Trata-se da primeira montagem que reúne em cena as três atrizes do grupo: Dani Guimarães, Glenda Bastos e Wes Gomes.

“Às que aqui ficaram” foi inspirado no livro “A guerra não tem rosto de mulher”, de Svetlana Aleksiévitch, sobre a vida de diferentes mulheres combatentes e sobreviventes da 2ª Guerra Mundial. A autora bielorrussa ganhou o Nobel de literatura em 2015.

Com a adesão de Gláucia Vandeveld, que assumiu a direção, e de Luciana Campos, que assina a dramaturgia, o enredo se concentra nas batalhas diárias que mulheres comuns enfrentaram e enfrentam em busca de uma sobrevivência digna.

MEMÓRIAS

Ao longo da encenação, as atrizes surgem como testemunhas de histórias reais e poéticas, cuja força motriz é a palavra. “Nosso ponto de partida foi o texto da Svetlana Aleksiévitch, que conta a história de mulheres que combateram na 2ª Guerra Mundial. A partir daí, nos aproximamos das guerras cotidianas que nós, mulheres, vivenciamos, sobretudo nas periferias. Em cena, a gente traz memórias de dores, tragédias, ausências e guerras em histórias que se cruzam com fatos atuais, notícias de jornais, relatos próximos da gente”, diz Glenda Bastos.

As histórias são narradas de forma fragmentada, sem se prenderem a roteiro com início, meio e fim. “Falamos também de mulheres que viveram o período da ditadura militar, que combateram na guerrilha, e de mulheres que ainda hoje perdem entes para a violência policial”, acrescenta.

O viés social e o olhar para questões de gênero e identidade estão na própria formação da Tríade Cia. de Teatro. O grupo foi formado em 2016, quando as três se reuniram para coordenar e dirigir um espetáculo de rua, de caráter pedagógico, com alunos de teatro em Ribeirão das Neves, onde Glenda mora.

Aprovado em edital de incentivo à cultura do município, o projeto resultou na peça “A história da cidade onde a mata virou rio e a névoa virou santa”.

“A gente contava um pouco a história de Ribeirão das Neves, tentando tirar o olhar estigmatizado e preconceituoso que há sobre a cidade, por ficar numa região pobre e com altos índices de violência. Foi um trabalho de identidade patrimonial mesmo”, relembra a atriz. Esse foi o embrião da Tríade Cia. de Teatro.
“Ali, nós atuamos apenas nos bastidores. Por isso ‘Às que aqui ficaram’ marca a estreia de nós três criando, produzindo e atuando juntas”, explica Glenda.

UFMG

As três estudaram no Teatro Universitário (TU) da Universidade Federal de Minas Gerais e vinham de experiências em outros grupos. A partir do trabalho em Ribeirão das Neves, começaram a pensar num projeto em que pudessem exercitar suas vivências.

“Começamos a fazer pequenas leituras dramáticas, experimentações cênicas. Com a adesão da Gláucia e da Luciana, chegamos finalmente ao espetáculo. Paralelamente, seguimos com o trabalho pedagógico e as produções culturais, transitando entre Neves e Belo Horizonte”, afirma a atriz.

A aproximação do trio com Gláucia Vandeveld se deu por meio do curso de teatro para educadores oferecido pelo Núcleo de Pesquisa do Galpão Cine Horto, coordenado pela artista veterana.

“Eu e Dani fizemos parte do núcleo. A gente já conhecia os trabalhos da Gláucia com o Espanca! e também no cinema, sempre a admiramos muito. Com o curso, tivemos aproximação maior com ela. Quando aprovamos o projeto de montagem da peça no Fundo Municipal de Cultura de Belo Horizonte, em 2018, começamos a pensar em nomes de mulheres para dirigi-lo. Fizemos o convite e a Gláucia topou”, diz.

Por meio da diretora, a Tríade chegou à dramaturga. “A Gláucia conhecia a Luciana devido ao projeto 'Janelas dramatúrgicas', tinha ouvido a leitura de um texto dela e fez o convite. Ela veio e foi amor à primeira vista. Fez toda a construção do texto, direcionando os relatos das mulheres combatentes na 2ª Guerra para esse lugar das nossas batalhas cotidianas”, diz Glenda.

''É um espetáculo feito com tanto esforço, nosso desejo é que ele vá para o mundo''

Glenda Bastos, atriz


PRESENCIAL

O espetáculo estreia em formato on-line, para o qual foi readequado a partir da chegada da COVID-19, mas a intenção é apresentá-lo presencialmente a partir de 2022.

“A gente estrearia nos primeiros meses do ano passado, mas com a pandemia, pausamos tudo antes de fazer alguns ajustes para transmissão on-line ao vivo. Da forma como o espetáculo está agora, temos a possibilidade de transpô-lo novamente para o presencial sem grandes dificuldades. Queremos circular, fazer temporadas em BH e outras cidades. É um espetáculo feito com tanto esforço, nosso desejo é que ele vá para o mundo”, diz Glenda Bastos.

“ÀS QUE AQUI FICARAM”

Peça on-line da Tríade Cia. de Teatro. Estreia neste domingo (5/12), às 19h, no YouTube e Facebook da companhia. Gratuito. Disponível até 5 de janeiro no canal da Tríade Cia. de Teatro no YouTube.


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