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Estado de Minas ARTES CÊNICAS

Oito atores do Galpão vivem a mesma personagem em peça que estreia hoje

'Partida de vôlei à sombra do vulcão' conta a história de uma mulher que atravessa o planeta para testemunhar uma erupção vulcânica


04/12/2021 04:00 - atualizado 03/12/2021 23:56

de pé, vistos de perfil e na penumbra, os atores Antonio Edson, Eduardo Moreira, Inês Peixoto, Julio Maciel, Lydia Del Picchia, Paulo André, Simone Ordones e Teuda Bara
"Partida de vôlei à sombra do vulcão" tem texto de Silvia Gomez e direção dividida entre a atriz Fernanda Vianna e a cineasta Clarissa Campolina (foto: Grupo Galpão/Divulgação )

Com quase 40 anos de história e tradição no teatro, o Grupo Galpão passou por uma série de reinvenções nos últimos dois anos para superar a impossibilidade de realizar seus espetáculos presencialmente. A companhia de teatro mineira experimentou as transmissões ao vivo, ensaiou peças com os atores em casa, lançou um filme e uma radionovela e idealizou o projeto Dramaturgias – Cinco passagens para agora, que desde o início deste segundo semestre de 2021 promove espetáculos de diferentes formatos desenvolvidos por artistas convidados.

A peça-filme "Partida de vôlei à sombra do vulcão" é a quarta montagem dentro do universo desse projeto e estreia neste sábado (4/12), às 20h, no canal do Grupo Galpão no YouTube. Num misto de teatro e cinema inspirado no realismo fantástico, ela narra a jornada que uma mulher trava para ver de perto um vulcão ativo localizado do outro lado do mundo. No caminho, ela descobre que está grávida e, sem conseguir voltar para casa, segue em frente com sua busca.

Gravada em Belo Horizonte, a peça-filme nasceu do roteiro escrito pela jornalista, dramaturga e roteirista Silvia Gomez, que se inspirou na erupção do vulcão Fagradalsfjall, ocorrida em março deste ano, na Islândia, para criar a história. Nessa mesma época, ela estava "obcecada" por relatos de viagens, então decidiu unir os dois temas em um só.

"O que me impressionou na erupção do vulcão na Islândia é que as pessoas que moram lá celebram isso, de alguma maneira. Quando comecei a ‘stalkear’ esses islandeses nas redes sociais, percebi que eles a enxergam como uma oportunidade de construção de novas paisagens. Achei muito bonito tudo isso. E uma das imagens que mais me chamaram a atenção foi justamente a de um grupo de pessoas que estava jogando uma partida de vôlei enquanto o vulcão estava em plena atividade, ao fundo", conta Silvia Gomez.

Dramaturga Silvia Gomez
(foto: Acervo pessoal)

"A viagem a que a gente se refere na história não é necessariamente real. Ela pode ser alucinatória ou interna, por exemplo. A ideia é que ela seja compreendida como uma busca pessoal por autoconhecimento"

Silvia Gomez, dramaturga

Ela conta que se inspirou no livro "Um bom par de sapatos e um caderno de anotações", do escritor russo Anton Tchekhov (1860-1904), para inserir nesse cenário o relato de viagem, que acaba costurando as cenas avulsas que compõem a narrativa. "A viagem a que a gente se refere na história não é necessariamente real. Ela pode ser alucinatória ou interna, por exemplo. A ideia é que ela seja compreendida como uma busca pessoal por autoconhecimento", explica.

Apesar de ter sido escrita como um monólogo e ter somente uma personagem, "Partida de vôlei à sombra do vulcão" conta com um elenco composto pelos atores Antonio Edson, Eduardo Moreira, Inês Peixoto, Julio Maciel, Lydia Del Picchia, Paulo André, Simone Ordones e Teuda Bara. Cada um deles vive a personagem em um determinado momento da história, um recurso projetado para assinalar a natureza fragmentada do texto.

"A personagem por si só já tem os limites borrados. Quando eu apresentei a proposta para o Galpão, o nosso desafio foi pensar de que maneira a gente poderia incluir vários atores na mesma história, já que o audiovisual permite isso. Isso também destaca a polifonia dessa narrativa. Essa é uma personagem em crise, que não necessariamente é uma personagem convencional", explica a dramaturga.

A atriz Fernanda Vianna, integrante do Grupo Galpão, é quem assina a direção da peça-filme junto com Clarissa Campolina. "Em junho, ela [Silvia] ainda desenvolvia o roteiro e começamos a pensar juntas. Gostaria muito que o trabalho tivesse algo forte, ligado às imagens, ao audiovisual, pois a imagem fala. Foi aí que pensamos na Clarissa Campolina, tamanha a admiração pelo trabalho dela", conta a atriz.

DESAFIO 

Na prática, Fernanda Vianna cuidou da parte teatral, enquanto Clarissa deu o tom da parte audiovisual. O grande desafio para as duas foi dar vida a uma narrativa que seria encenada por vários atores, entre homens e mulheres.

"Clarissa começou a trabalhar a questão audiovisual e passamos a pensar o roteiro juntas, já que a personagem principal seria dividida entre os atores, algo que Silvia queria muito, por serem corpos de homens e mulheres. Comecei, também, a puxar o bonde, ao trabalhar com os atores e as atrizes. No Galpão, a gente joga muito bem juntos e, quando veio a câmera, Clarissa passou a nos puxar, sempre com uma imagem muito clara na cabeça", diz.

Ela define a obra de Silvia Gomez como "muito aberta", o que também colaborou para que o trabalho saísse do papel a partir de diferentes visões. "O texto tem um humor muito refinado. Ele fala de coisas cotidianas com uma profundidade muito grande. É um texto divertido e profundo, que permite uma série de camadas de interpretação", comenta.

LINGUAGENS 

Segundo Fernanda, "Partida de vôlei à sombra do vulcão" "não é cinema, mas também não é teatro". "E é isso que eu queria. O resultado final tem um cuidado todo especial com a imagem, isso é muito visível. Mas também tem uma coisa artesanal, que é do teatro."

Clarissa Campolina, que também dirigiu a websérie "Farol de neblina", adaptada do espetáculo "Neblina", concorda com a parceira de direção. Para ela, a peça-filme representa não só o encontro de duas linguagens, mas também a troca de dois modos de produção bastante distintos.

"O teatro é mais horizontalizado. Ainda mais no caso do Galpão, grupo em que o coletivo chama muito mais a atenção. Produzir 'Partida de vôlei à sombra do vulcão' foi uma oportunidade única de ver algo sendo feito com um sentido coletivo muito grande. O coletivo foi um dos nossos pilares da criação", conta Clarissa.

No entanto, ela reconhece que não é sem motivo que a montagem é definida como peça-filme, com 'peça' em primeiro lugar. Ao longo de todo o processo de produção e gravação, Clarissa, Fernanda e Silvia por diversas vezes se viram na encruzilhada se o trabalho seria mais teatral ou mais cinematográfico. Mas o teatro predominou.

"O tempo todo a gente ficou nesse impasse entre lançar mão das convenções do teatro ou apostar mais nas do cinema. Mas isso foi um desafio por si só. A força do texto e a força da história do Galpão sempre fizeram com que o teatro falasse muito mais alto. A câmera só potencializou a narrativa", avalia Clarissa Campolina.

Antes pensado como um projeto que duraria até 31 de dezembro de 2021, Dramaturgias – Cinco passagens para agora ainda deve produzir um último espetáculo para o público do Grupo Galpão para estrear em 2022, com dramaturgia assinada por Paulo André, em parceria com Marcio Abreu.

Ainda que o projeto esteja em andamento, Fernanda Vianna já o avalia com bons olhos. "Acho que a gente teve uma coisa muito positiva com ele. No ano passado, ainda estávamos tateando todo esse negócio de teatro on-line, sem saber muito o que fazer. Com o Dramaturgias a gente aprofundou e conseguiu dar vazão para projetos muito distintos", ela comenta.

Além de "Partida de vôlei à sombra do vulcão", também fizeram parte do projeto o curta-metragem "A primeira perda da minha vida", o espetáculo on-line "Como os ciganos fazem as malas", encenado por meio do aplicativo de mensagens Telegram, e o espetáculo "Sonhos de uma noite com o Galpão".

"Nós assumimos riscos e experimentamos novas possibilidades. Até aqui, penso que esse projeto foi uma verdadeira forma que encontramos de experimentar com a linguagem teatral sem impor nenhum limite. E isso foi feito de modo muito profundo e proveitoso", avalia Fernanda. 

“PARTIDA DE VÔLEI À SOMBRA DE UM VULCÃO”

Estreia neste sábado (4/12), às 20h, no canal do Grupo Galpão no YouTube. A temporada segue até o próximo dia 19, sempre de quinta a domingo, às 20h. Gratuito. Classificação: 12 anos. Mais informações: grupogalpao.com.br


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