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Estado de Minas LUTO

Morre Tinhorão, o crítico que não poupou Tom, Chico, Caetano e a bossa nova

José Ramos Tinhorão fez desafetos ao defender as raízes culturais do Brasil. Para ele, música sertaneja era 'um nada' e jovem guarda, rock para 'otário'


03/08/2021 20:45 - atualizado 03/08/2021 23:13


José Ramos Tinhorão reuniu respeitada coleção de discos de música brasileira(foto: Marcos Fernandes/CB/D.A Press - 15/3/2013)
José Ramos Tinhorão reuniu respeitada coleção de discos de música brasileira (foto: Marcos Fernandes/CB/D.A Press - 15/3/2013)
José Ramos Tinhorão, um dos críticos de música mais temidos do Brasil, morreu nesta terça-feira (03/08), aos 93 anos, depois de ficar internado por dois meses em decorrência de problemas próprios da idade. O anúncio foi feito pela Editora 34, que publicou os livros dele.


Marxista convicto, língua afiada e defensor da integridade das raízes culturais brasileiras, Tinhorão deixa como legado a polêmica, desafetos famosos (Chico Buarque e Tom Jobim) e acervo monumental, hoje pertencente ao Instituto Moreira Salles. Guardou 13 mil discos, além de 35 mil documentos, entre partituras, jornais e fotografias. Sua biblioteca chegou a reunir 14 mil livros sobre cultura popular.

LIVROS

Historiador, ensaísta, escritor e jornalista, Tinhorão lançou cerca de 25 livros, entre eles “História social da música popular brasileira”, “As origens da canção urbana”, “Os sons que vêm da rua”, “O samba agora vai: A farsa da música popular no exterior”, “Música popular, teatro e cinema”, “Festa de negro em devoção de branco” e “Pequena história da música popular: da modinha à canção de protesto”.


Crítico ferrenho da incorporação de referências estrangeiras à música brasileira, o nacionalista Tinhorão “fuzilou”, com sua verve contundente, tanto bossa nova, tropicalismo e MPB quanto jovem guarda, axé e funk. O materialismo histórico, pilar do marxismo, fundamentou as críticas e os ensaios dele.


Enquanto João Gilberto, Tom Jobim e companhia deslumbravam o mundo nos anos 1960, Tinhorão acusava a bossa nova de ser elitista, além de uma espécie de “jazz pasteurizado”.


“O pessoal da bossa nova todo é representante de uma classe média carioca ligada ao jazz. Quando aparece o violão de João Gilberto, toda a harmonia da música norte-americana, pela qual esse povo era fanático, se encaixa perfeitamente. Ali, monta-se uma harmonia norte-americana tão disfarçada que parece música brasileira. Isso não é uma vitória da música brasileira. Os brasileiros ofereceram aos norte-americanos uma nova visão da sua própria música. É mais fácil para o norte-americano ouvir. Por que Frank Sinatra canta Tom Jobim e não Nelson Cavaquinho? Porque não casaria”, declarou ele à revista “Cult”.


“O aparecimento da bossa nova na música urbana do Rio de Janeiro marca o afastamento definitivo do samba de suas origens populares”, criticou Tinhorão, cujas ideias foram tachadas de “histéricas” por Caetano Veloso. Em 2015, durante um debate na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), o crítico afirmou ter “pena” de Jobim. “Ele tinha um equívoco fundamental: Achava que compunha música brasileira.”


Tinhorão “fuzilou” tropicalistas (“O tropicalismo é uma boa malandragem. As músicas têm várias coisas que cabem nelas. Tem aquelas coisas muito baianas que o Gil trouxe; o Gil e o Caetano, todos, são meninos da bossa nova baiana”), sertanejos (“A música sertaneja é uma média de sons que não são urbanos, mas que também não são mais das populações rurais em si. É um nada”), jovem guarda (“Simplificação do rock, um rock trocado em miúdos para otário”) e axé (“O axé não é nada. Quando se fala em samba, te dou vários exemplos de samba. Quando se fala em frevo, música sertaneja, baião, te dou vários exemplos. O que é axé? Não é nada, rapaz. É uma manifestação dentro das formas negras de você se divertir, mas não tem uma estrutura”).


Se essa defesa enfática das raízes da música popular brasileira sempre causou muita controvérsia, a importância de Tinhorão como pesquisador foi reconhecida por intelectuais respeitados, como o ensaísta, músico e professor José Miguel Wisnik.


SERPENTE

 

Aldir Blanc não o poupou quando criticou o parceiro João Bosco, incluindo o jornalista entre as serpentes venenosas da letra de “Querelas do Brasil”. Porém, reconheceu: “Tinhorão é sinônimo de polêmica enriquecedora. Sua obra crítica e histórica engrandecem nossa cultura. Eu não só respeito o Tinhorão. Também o admiro muito”.


Paulista de Santos, nascido em família humilde, José Ramos Tinhorão iniciou a carreira de jornalista na redação do jornal Diário Carioca, nos anos 1950. Logo virou personagem de Nelson Rodrigues no folhetim “Asfalto selvagem”.


Aliás, o sobrenome famoso – na verdade, apelido – logo virou piada. Quando ironizou um disco em que o produtor Hermínio Bello de Carvalho cantava, Hermínio e Tom Jobim, em entrevista, disseram que Tinhorão era uma planta da família das Aráceas, na qual costumavam urinar...

 

IMPRENSA

 

José Ramos Tinhorão fez longa carreira na imprensa, a partir dos anos 1950: Diário Carioca, Jornal do Brasil (na época da reforma), Jornal dos Sports, Correio da Manhã, TV Excelsior, TV Rio, Pasquim, revista Senhor, Veja e TV Globo.


“Eu me sinto objeto”, brincou ele em entrevista a Pedro Alexandre Sanches, ao comentar a biografia “Tinhorão – O legendário”, lançada por Elizabeth Lorenzotti em 2010.


Há seis anos, em entrevista ao jornal O Globo, afirmou que a crítica cultural acabou no país. “Primeiro, não existem críticos de música popular ou crítica sobre música popular. Existe o cara que dá notícia e louva conjuntos estrangeiros, que nunca vêm ao Brasil, mas que, quando vêm, ganham página inteira dos cadernos culturais.” (Com Estadão Conteúdo e agências)


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