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Estado de Minas LITERATURA

Bernardo Carvalho lança 'O último gozo do mundo', novela sobre a pandemia

Trama ambientada na sociedade pós-crise sanitária mostra o futuro marcado pela perda da memória e a euforia ilusória que cerca o fim da peste


22/06/2021 04:00 - atualizado 22/06/2021 06:51

Em ''O último gozo do mundo'', Bernardo Carvalho fala da sociedade infantilizada diante da pandemia (foto: Penguin Random House/divulgação)
Em ''O último gozo do mundo'', Bernardo Carvalho fala da sociedade infantilizada diante da pandemia (foto: Penguin Random House/divulgação)

Milhares de vidas perdidas para um vírus que obriga a população a se isolar à espera da vacina que demora a chegar. Quando tudo parece terminar, dois anos passados, nada é mais o mesmo e as pessoas saem à procura de respostas. É sobre o Brasil da COVID-19 o novo livro do escritor Bernardo Carvalho. Mas nada é óbvio e realista na novela “O último gozo do mundo” (Companhia das Letras), um dos primeiros títulos ficcionais brasileiros a tratar da pandemia.

Não há nomes nem menção a fatos concretos na narrativa. A figura central é uma escritora de ficção e acadêmica que se vê destroçada logo no início da peste. O casamento, que julgava satisfatório, acabou. Os pais foram levados pelo vírus. Mas há esperança de futuro: a gravidez resultante de um encontro casual ocorrido dias antes de a crise sanitária ser decretada.

Quando o mundo é reaberto e a população vai para as ruas em clima de euforia desmedida, ela pega o filho, que ainda não proferiu sequer uma palavra, e sai numa viagem desconcertante em busca de uma espécie de profeta. Esse homem é fruto da pandemia – como perdeu toda a memória, tornou-se capaz de ver o futuro. Ou pelo menos o futuro que as pessoas, em busca de uma saída para o tempo em suspensão, querem acreditar que possa existir.

É muito difícil imaginar um futuro próximo quando não se dá para imaginar um futuro

Bernardo Carvalho, escritor


“O último gozo do mundo” nasceu da encomenda de um produtor de cinema que pretendia filmar uma história ocorrida imediatamente após a pandemia. Carvalho havia passado o ano anterior à crise sanitária dando aulas em Berlim. Seus planos, na volta ao Brasil, eram de retomar um romance deixado pela metade. No decorrer de 2020, o projeto da encomenda foi implodido com a saída do produtor. Carvalho, que já havia escrito boa parte da novela, encaminhou o livro à Companhia das Letras, seu 13º título pela editora.

“É muito difícil imaginar um futuro próximo quando não se dá para imaginar um futuro. Então, naturalmente, este se tornou o tema do livro. O fio condutor, essa mãe com o garoto, tem uma coisa de romanesca. Também me interessava muito a ausência da possibilidade de futuro, e o livro se tornou uma alegoria da conquista da fala”, explica Bernardo Carvalho.

Escrever ficção sobre uma tragédia quando ainda se está no meio dela foi um desafio, diz o autor. “Embora tivesse o privilégio de poder ficar confinado em casa, começaram a acontecer coisas muito intensas próximas a mim, como a demência senil. Então, fiz a conexão entre a dificuldade de imaginar o futuro e a perda de memória, questões associadas ao momento social e político em que estamos. Quando se ataca a possibilidade de memória, do passado, fazendo com que as pessoas esqueçam o que aconteceu, você também impede a possibilidade de futuro. Tudo vira pesadelo, delírio.”

Para Carvalho, mais do que fábula, seu livro tem um ar quase de parábola. Ao colocar uma criança que ainda não tem condições de compreender a realidade à sua volta, o autor buscou como referência o “mundo infantilizado” em que nos encontramos. Para ele, “a negação da morte, do real” tem relação direta com isso. E a literatura está num impasse.

''Fiz a conexão entre a dificuldade de imaginar o futuro e a perda de memória, questões associadas ao momento social e político em que estamos''

Bernardo Carvalho, escritor


“Existe a redução do realismo à confirmação do que a gente quer ser. A ideia de que a literatura tem que ser a confirmação da identidade é um pouco mercadológica. O leitor que precisa ser agradado, não pode ser contrariado e quando faz parte de um grupo não lê o que o contradiz, como um espelho do que se acredita, é uma redução da ideia de realismo.”

Na opinião do escritor, a experiência literária não pode se limitar a ideias com as quais se concorda. “Minhas personagens falam por si, se contradizem. Um romance não é uma ilustração das minhas ideias e experiências. Ele é o campo de batalha das ideias pelas quais sou atravessado.”

Carvalho critica a redução do debate que se vê atualmente. “Hoje, com as lutas identitárias, lugar de fala, a literatura foi reduzida a uma simples representação. Não há contradição, é só confirmação e espelho. A literatura mundial já vem caminhando para esse lugar há algum tempo e a pandemia não interrompeu esse movimento”, acrescenta Carvalho.

De acordo com ele, “O último gozo do mundo” é um “intervalo” em relação ao seu romance iniciado antes da crise sanitária. Agora, com a novela lançada, Bernardo Carvalho retoma o projeto inacabado.
(foto: Companhia das Letras/reprodução)
(foto: Companhia das Letras/reprodução)

“O ÚLTIMO GOZO DO MUNDO”
• De Bernardo Carvalho
• Companhia das Letras
• 144 páginas
• R$ 49,90 (livro)
• R$ 29,90 (e-book)

TRECHO

“A espera estendida por uma cura ou vacina fez com que se adaptassem à nova vida como provisória. Com o tempo em suspensão, o provisório se tornou natural, perene, não o resultado da ameaça mortal que os encurralava. A falta de perspectiva excita o medo, e ninguém sobrevive com medo. Assim passaram a viver no paradoxo da negação. Foram mais de dois anos, entre períodos de flexibilização, às vezes espontânea e inconsequente (por duvidar do que não viam, por negar o que não correspondesse ao espelho das redes sociais, muitos logo se sentiam imunes e cansavam de esperar), e eventuais retomadas compulsórias de confinamento, para tentar remediar os estragos da inconsequência, até a descoberta de uma vacina aparentemente segura trazer de volta não a ilusão de normalidade em que muitos já viviam, mas uma possibilidade mais concreta e confiável de futuro. É claro que nada disso traria de volta a vida nos termos do passado. De repente, tudo era exagero. As ruas se encheram de gente que se reunia, se abraçava e se beijava em desafio ao perigo invisível, supostamente vencido. Tudo o que não puderam fazer durante o confinamento, faziam em dobro fora dele. Queriam se reencontrar, tocar-se?, mas nada era suficiente. Uma onda de euforia tomou conta do mundo, uma histeria coletiva compensatória, como a ‘febre da dança’ à saída da Idade Média.”


NA JANELA

No próximo domingo (27/06), às 19h, Bernardo Carvalho participa da segunda edição do evento on-line “Na Janela: Reflexos – Diálogos literários”, promovido pela Companhia das Letras. No encontro, ele vai conversar com o escritor e professor Jeferson Tenório. O bate-papo será transmitido nas redes sociais (YouTube, Instagram, Facebook e Twitter) da editora.


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