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Estado de Minas

Em um mês, Brasil perde quatro baluartes do samba

Sem Nelson Sargento, Laíla, Mug da Vila Isabel e Dominguinhos do Estácio carnaval não será mais o mesmo


21/06/2021 04:00 - atualizado 21/06/2021 07:15

Mug da Vila Isabel regeu a batucada da escola de Noel Rosa e Martinho da Vila por 30 anos(foto: Instagram/Reprodução)
Mug da Vila Isabel regeu a batucada da escola de Noel Rosa e Martinho da Vila por 30 anos (foto: Instagram/Reprodução)

O samba perdeu quatro baluartes em menos de um mês. Em 27 de maio, Nelson Sargento, presidente de honra da Estação Primeira de Mangueira, compositor de sambas-enredo da agremiação e autor de músicas de meio de ano como “Agoniza, mas não morre”, morreu vítima da doença.

Na sexta-feira (18/06), em curto espaço de tempo, se foram outros dois nomes importantes das escolas cariocas. Luiz Fernando Ribeiro do Carmo, o Laíla, era histórico diretor de carnaval e arquiteto do “rolo compressor” que a Beija-Flor de Nilópolis imprimiu no carnaval do Rio de Janeiro em parte da década de 2000. Poucas horas antes, havia morrido Mestre Mug, comandante da bateria da Vila Isabel – a escola de Martinho da Vila – por três décadas.

No início deste mês, o cantor Dominguinhos do Estácio, a voz que entoou “Liberdade, liberdade, abre as asas sobre nós” na Marquês de Sapucaí e em milhares de churrascos Brasil afora, também sucumbiu. Complicações de doenças como a COVID-19 e a idade avançada abreviaram a trajetória dos quatro. É inegável, porém, que os caminhos da passarela ficam mais tortuosos sem a presença desses gurus. O carnaval não será mais o mesmo.

Laíla foi o arquiteto do
Laíla foi o arquiteto do "rolo compressor" que a Beija-Flor imprimiu no carnaval do Rio na década de 2000 (foto: ANTONIO SCORZA/AFP %u2013 2/2/10)

Grosso modo, o desfile das escolas de samba se divide entre música e visual. Laíla, como nenhum outro, conhecia os meandros dos dois quesitos. Vacinado com as duas doses, mas vítima do novo coronavírus, aos 78 anos, ele estava sempre munido de suas guias e da bênção dos orixás.

O começo foi no Acadêmicos do Salgueiro, onde chegou a puxar os sambas dos desfiles de 1974 e 1975. Passou ainda pelas escolas Unidos da Tijuca e Grande Rio, além de ter se aventurado na folia paulistana.

Na Beija-Flor, para onde foi levado pelos bicheiros da família Abrahão David, chegou ainda nos anos 1970, após o sucesso no pavilhão salgueirense. Depois de idas e vindas, retornou em 1995. Ao lado do amigo Neguinho da Beija-Flor, tinha carreira consolidada no meio do samba, mas começou a atingir a glória nos preparativos para o carnaval de 1998, quando, sem o carnavalesco Milton Cunha (hoje comentarista da TV Globo), resolveu não contratar estrela para o posto. Teve a ideia de criar uma comissão de carnaval formada por diversos artistas, chefiados por ele.

A estratégia deu certo e, a partir dali, a “Deusa da Passarela” passou a enfileirar taças. O expediente de delegar a criação a um comitê foi seguido por diversos dirigentes. Foi com um troféu, aliás, que Laíla se despediu de Nilópolis. Após vencer a disputa de 2018, mudou-se para a Tijuca, mas ficou por apenas um ano. Em 2020, esteve na União da Ilha do Governador. O rebaixamento para o segundo grupo foi seu último ato.

O diretor era famoso por “juntar” sambas que participavam dos concursos internos das escolas. Buscando a canção que embalaria o desfile, inventou o costume de fundir obras rivais, criando músicas antológicas. Foi da mistura de duas letras, por exemplo, que a Grande Rio desfilou, em 1993, com “No mundo da lua”, o samba mais importante de sua história, conhecido pelo verso “Clareia, dindinha”.

Nelson Sargento, presidente de honra da Mangueira, imortalizou o samba
Nelson Sargento, presidente de honra da Mangueira, imortalizou o samba "Agoniza, mas não morre" (foto: Cafi/Divulgação)
PUXADOR 

Também muito querido pelos fãs do carnaval, Domingos da Costa Ferreira morreu em 30 de maio, aos 79 anos, após dias internado por causa de uma hemorragia cerebral. Com porte de galã e voz marcante, virou Dominguinhos do Estácio por causa do bairro em que nasceu. E foi por aquelas bandas que começou a carreira, na Unidos de São Carlos, depois rebatizada Estácio de Sá. Ficou lá durante boa parte dos anos 1970, até se transferir para a Imperatriz Leopoldinense. Pela alviverde, em 1989, imortalizou o samba “Liberdade, liberdade”, sobre a Proclamação da República.

Assim como Laíla, passou pela Grande Rio, mas voltou à Estácio para o carnaval de 1992, dando à escola o seu único título na Primeira Divisão, com o samba sobre o movimento modernista paulistano, marcada pelos versos “Me dê, me dá, me dá, me dê/Onde você for, eu vou com você”. Pioneirismo era a marca de Dominguinhos: afinal de contas, cinco anos mais tarde, foi ele quem conduziu a Viradouro para seu primeiro campeonato entre as grandes.

Dominguinhos do Estácio foi autêntico puxador. Com gritos de guerra e chamadas de empolgação, não se limitava a conduzir o samba. Enquanto cantava, convocava o público, incentivava os desfilantes, pedia garra e distribuía “abraços” e “alôs” a personalidades. Tudo isso sem nunca se esquecer de, a todo momento, invocar a Virgem de Nazaré, de quem era devoto.

CLÁSSICOS 

Dominguinhos do Estácio foi voz que eternizou
Dominguinhos do Estácio foi voz que eternizou "Liberdade, liberdade, abre as asas sobre nós" (foto: Instagram/Reprodução)
Assim como Laíla, Nelson Sargento havia recebido duas doses da vacina contra COVID, mas não resistiu à doença. Além das canções dolentes sobre as dores de viver e amar, fez músicas de avenida para a Mangueira. Ao lado do padrasto e parceiro de caneta Alfredo Português, em 1955, por exemplo, escreveu “Primavera”, clássico carnavalesco sobre as estações do ano.

Mug da Vila Isabel, nascido Amadeu Amaral, regeu a batucada da escola de Noel Rosa e Martinho da Vila por 30 anos. À frente dos ritmistas, conduziu o histórico samba de 1988, “Kizomba, a festa das raças”, do famoso refrão “Valeu Zumbi/ O grito forte dos Palmares”. Esse desfile rendeu o primeiro campeonato à escola. Aos 70 anos, foi internado por causa de uma hérnia de disco, mas contraiu infecções no hospital e não resistiu.


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