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Estado de Minas CINEMA

Filme de Karim Aïnouz que vai a Cannes reconstitui romance de seus pais

Para rodar o longa, diretor viajou à Argélia, para onde seu pai retornou após a independência do país, separando-se de sua mãe, que estava grávida


07/06/2021 04:00 - atualizado 07/06/2021 06:56

Para rodar o longa, o cineasta viajou à Argélia, para onde seu pai retornou após a independência do país, separando-se de sua mãe, que estava grávida(foto: Globo Filmes/Divulgação)
Para rodar o longa, o cineasta viajou à Argélia, para onde seu pai retornou após a independência do país, separando-se de sua mãe, que estava grávida (foto: Globo Filmes/Divulgação)

Desde “Madame Satã” (2002), as travessias de Karim Aïnouz pelas narrativas cinematográficas se pautam por histórias sobre afirmação de territórios. Em quase 20 anos, ele demarcou chão paras identidades sexuais (“Praia do Futuro”), para maternidade (“O céu de Suely”), para zonas politicamente francas (“Aeroporto Central”), para o respeito próprio (“Abismo prateado”) ou para o amor fraterno, tema do aclamado “A vida invisível”, que lhe deu o prêmio principal da mostra Um Certo Olhar no Festival de Cannes, em 2019. 

Mas o novo gesto de reconhecimento territorial do cineasta cearense de 55 anos agora passa pela história, em especial a da Argélia, para fazer uma espécie de inventário afetivo (de cicatrizes e de suspiros) de sua própria vida: o longa-metragem “O marinheiro das montanhas”, selecionado para a faixa de Sessões Especiais do Festival de Cannes 2021, que será realizado em julho. 

"Meu coração está nisso, nessa espécie de ‘memoir’ de mim mesmo" disse o diretor em entrevista em maio passado, antes do anúncio da seleção para o festival francês, ao detalhar um filme que descreve como sendo "uma viagem de reconhecimento de dois países", ao documentar a relação de amor entre seus pais: a brasileira Iracema e Majid, um argelino.

MELODRAMA 

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Com "A vida invisível", o diretor cearense venceu a mostra Um Certo Olhar do Festival de Cannes em 2019. Longa-metragem foi o representante do Brasil no Oscar, mas não obteve uma indicação (foto: RT Features/Divulgação)
Eles se conheceram nos EUA. Lá, viveram uma história de amor parecida com as paixões de melodrama filmadas por Karim. Foram felizes até que Majid voltou para o seu país, em 1965. Karim cresceu sem ele e só foi conhecê-lo quando já tinha 20 anos. Iracema nunca mais se casou.

Mas, da memória do que foi vivido, ficou uma caixa de slides. E, agora, um longa-metragem nasceu dessa caixa. E de uma jornada que, segundo Karim, vem deixando-o "mais educado sobre o que se passa no mundo, lá fora".

"Peguei um barco em Marselha e fui parar na Argélia, no vilarejo de onde meu pai vem, que é uma região montanhosa, onde neva. Minha mãe morreu em 2015, mas ela está comigo nessa jornada como uma espécie de companheira imaginária”, afirma. 

“E fui filmando no trajeto, construindo um filme de forma artesanal. É uma espécie de ‘Viajo porque preciso, volto porque te amo’ na Argélia", diz o cineasta, referindo-se ao longa feito em codireção com Marcelo Gomes que deu a eles o troféu Redentor de melhor direção no Festival do Rio 2009, narrando o périplo pelo Nordeste de um geólogo de quem só se ouve a voz.

"Tenho a sensação de que meus filmes são muito coloridos porque as fotos que tenho dos meus pais são retratos em cor. Há uma ausência ali que é cheia de cores. Não apareço nessas fotos porque eu ainda não existia. Minha mãe voltou para o Brasil grávida, e eu cresci sendo criado pela minha avó e por ela, que foi uma mulher incrível, com uma história parecida com a da Guida de ‘A vida invisível’. Guida também volta grávida."
O documentário
O documentário "Nardjes A.", sobre uma ativista argelina, foi exibido no Festival de Berlim do ano passado (foto: MPM Film/Divulgação)

Nas recordações de Iracema e Majid, Karim encontrou slides deles no Colorado, antes de o pai partir. O título do filme, outrora chamado “Argelino por acaso”, virou “O marinheiro das montanhas” por unir os extremos do casal: mar e rocha. 

"Minha mãe estudava algas. E meu pai vem das montanhas. Ele voltou para a Argélia quando o país dele alcançou a independência. Eles passaram por uma luta árdua para se libertarem da França. Milhares de pessoas morreram, mas eles conseguiram autonomia política. Entre 1962 e 1974, aquela nação foi uma espécie de Cuba da África. Até os Black Panthers foram morar lá", diz Karim, que também retratou a realidade argelina em “Nardjes A.”, exibido no Festival de Berlim de 2020.

Nesse longa, ao cruzar seu olhar com uma jovem ativista inflamada, em meio à Revolução dos Sorrisos, na Argélia, em 2019, o diretor aplica um de seus filtros autorais: a atenção ao transbordamento de quem é visto como desviante em relação às regras e à moral de sua sociedade. Nardjes é uma ferida viva a céu aberto no moralismo da tradição de sua pátria.

"Ela é uma mulher sábia. Só pelos cabelos enormes que tinha, você vê um contraste com aquele mundo conservador, de onde meu pai vem. Depois que saí de ‘A vida invisível', um filme bonito, mas centrado no sufocamento de um ambiente tóxico, eu precisava falar de alegria. E foi aí que essa mulher, a Nardjes, com um projeto utópico forte, apareceu para mim", disse o cineasta, no Festival de Berlim.

Com a cabeça imersa em seu histórico familiar, Karim passou em revista as vivências (de absoluto sucesso) contabilizadas na década passada, ao ser convidado para a mostra Cinema Brasileiro: Anos 2010, 10 Olhares. A retrospectiva, que esteve em cartaz na plataforma digital Belas Artes à La Carte, foi arquitetada pelo diretor e curador Eduardo Valente, num bate-bola com 10 profissionais da crítica e da teoria cinematográfica, para exibir “Praia do Futuro”.
(foto: Denny Sachtleben/Divulgação)
(foto: Denny Sachtleben/Divulgação)

"Minha mãe estudava algas. E meu pai vem das montanhas. Ele voltou para a Argélia quando o país dele alcançou a independência. Eles passaram por uma luta árdua para se libertarem da França. Milhares de pessoas morreram, mas eles conseguiram autonomia política. Entre 1962 e 1974, aquela nação foi uma espécie de Cuba da África. Até os Black Panthers foram morar lá"

Karim Aïnouz, cineasta


A história de amor entre um guarda-vidas brasileiro (Wagner Moura) e um turista alemão (Clemens Schick) rendeu ao diretor uma indicação para o Urso de Ouro. Foi uma de suas consagrações numa década em que foi jurado em Cannes (em 2012); dividiu a direção de um longa em episódios (o documentário “Catedrais da cultura”) com Wim Wenders e Robert Redford; e ainda dirigiu Fernanda Montenegro em “A vida invisível”.

"Os anos 2010 foram especiais não só para mim como para o cinema brasileiro como um todo, porque foi quando a gente pôde exercer o nosso trabalho como um ofício e não como uma aventura, pois existiam leis, havia fomento. A gente sabia que poderia filmar, porque existiam políticas públicas. Nos anos 2000, a gente nunca sabia se haveria dinheiro. Nos anos 2010, havia uma estrutura que, infelizmente, vem sendo desmontada", diz.

Aïnouz tem pela frente um compromisso com a ficção, num projeto ligado aos irmãos Gullane chamado “Neon River”, que compara a saga do casal fora da lei Bonnie & Clyde, ao narrar a fuga de uma jovem nipo-brasileira e de um rapaz franco-argelino, enamorados e em perigo. 

"Vejo hoje que ‘A vida invisível’ conquistou muita coisa não apenas por suas qualidades, mas pelo resultado de um trabalho de todo um país, feito ao longo da década passada, para poder construir um projeto de cinema. Daí uma década tão diversa." 


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