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Estado de Minas ARTES CÊNICAS

Atriz monta peça sobre carta que a mãe escreveu ao amante após ver o Galpão

'Partida' conta a história de uma mulher que decidiu terminar a relação após assistir a 'Partido', em 1999. Estreia on-line e gratuita é nesta sexta (04/06)


04/06/2021 04:00 - atualizado 04/06/2021 07:10

A atriz Inez Viana e a atriz mineira radicada no Rio de Janeiro Denise Stutz contracenam na plateia de um teatro no espetáculo on-line
A atriz Inez Viana e a atriz mineira radicada no Rio de Janeiro Denise Stutz contracenam na plateia de um teatro no espetáculo on-line "Partida" (foto: Rodrigo Menezes / Divulgação)

Uma peça sobre duas artistas que pretendem fazer uma montagem teatral cuja história nasce em um espetáculo anterior, que, por sua vez, é adaptado de um romance. Descrita assim, a ideia por trás de “Partida”, que faz sua estreia on-line nesta sexta-feira (04/06), pode parecer confusa. Porém, as cenas trazem uma conversa fluida e afetuosa entre as atrizes Denise Stutz e Inez Viana, que partem de estruturas comunicacionais simples para criar uma trama ajustada aos formatos contemporâneos.

Sob direção de Debora Lamm, as duas compartilham um único cenário: a plateia esvaziada de um teatro. Ali, conversam por cerca de 30 minutos sobre essa peça que desejam montar. A inspiração para o novo trabalho é uma carta escrita em 1999, mas nunca enviada, pela mãe de uma delas, endereçada a um amante com quem resolve romper a relação,  depois de assistir ao espetáculo “Partido” – adaptação do Grupo Galpão para o romance “O Visconde partido ao meio”, do italiano Italo Calvino.  

Entretanto, a discussão que seria sobre o texto teatral que elas pretendem montar logo dá lugar a uma conversa livre sobre essa terceira personagem, que não entra em cena, mas domina o enredo. “É a ‘Mãe de Uma de Nós Duas’. Ela se torna uma personagem com esse nome. É uma terceira construção, uma mistura de realidade com ficção”, explica a atriz mineira Denise Stutz, radicada no Rio de Janeiro há mais de 40 anos, idealizadora do projeto. Não há preocupação em revelar qual das duas de fato é a filha, embora a história da carta encontrada seja real. 

O diálogo cita trechos da montagem do Galpão. As personagens tentam entender que aspectos daquela trama poderiam ter levado essa mulher, na época com 74 anos, a terminar com seu amante, que era mais jovem. 

LEMBRANÇAS 
As duas também compartilham memórias que têm da mulher, ainda que as lembranças sejam desencontradas. E há espaço para afirmações mais pontuais sobre o passado dela, como o fato de ter tido um filho morto pela ditadura militar. 

“O que importa é a tentativa de recuperar a memória. De saber o que aconteceu no ano de 1999. Dizia-se que o mundo ia acabar em 2000; o mundo está acabando agora, de certa forma. A peça não deixa de falar do fim do mundo. Ele leva 22 anos para  acabar”, afirma  Inez Viana, responsável pela dramaturgia de “Partida”. 

Inez observa que “é muito impressionante o poder do teatro”, citando o exemplo de que “uma mulher assiste a uma peça e essa peça mexe com a vida inteira dela”. Ela conta que “20 anos depois, eu e Denise nos encontramos para tentar entender essa epifania e, juntas, criarmos uma obra que dialoga com os tempos atuais”. 

Parceiras de longa data, as duas lidam agora com um cenário diferente ao ter que pensar a atividade teatral com todas as limitações de interação impostas pela pandemia do novo coronavírus. Além da metalinguagem da trama sobre o entrelaçamento de outras histórias teatrais, a peça fala sobre a própria adaptação ao formato digital. Em cena, elas brincam com os modelos atuais de transmissão audiovisual, e Denise simula uma falha na conexão, deixando sua personagem “travada” por alguns instantes. 

"Além do nosso encontro, nessa parceria de muitos anos, essa peça, sobretudo, é sobre a construção de alguma coisa que virá. Estamos impossibilitados de estar no teatro, como sempre fizemos, e achamos uma maneira de dar uma rasteira nisso tudo, até na linguagem da internet”, afirma Inez Viana. 

“A câmera parada remete ao teatro filmado, mas trazemos todas essas linguagens com as quais estamos envolvidos atualmente. Ninguém mais aparece nas imagens sem usar um filtro, ou sem travar, sem dizer ‘oi, está me ouvindo?’, sempre alguém cai, se reconecta. São coisas que se normalizaram na internet, com as lives. Então trazemos essa ironia dos nossos tempos”, diz. 

Inez e Denise se dizem de uma geração anterior, menos familiarizada com os meios digitais. Nesse sentido, Denise diz que a direção de Débora Lamm, de 43 anos, facilitou a imersão da proposta no formato viável para os tempos de pandemia, por meio do vídeo. “A Débora tem a linguagem do teatro e da comédia, num tempo diferente do meu”, diz a atriz. 

A diretora entende que o formato da peça possibilita ainda “espiar a intimidade entre duas pessoas”, algo que se popularizou na contemporaneidade, com os reality shows. “É interessante fazer uma interseção do teatro com essa linguagem que hoje alcança tanta gente”, afirma Débora, que concilia a carreira de diretora teatral com a de atriz, tanto nos palcos, como no cinema e na TV.  

“Essa peça, para além de tudo, é a celebração da relação das duas. Uma relação que elas constroem há um tempo, de parceria na vida, no teatro, e o grande lance dessa peça é testemunhar a identidade que elas criaram juntas. Comemora essa cumplicidade”, afirma Débora.

“Partida” foi filmada no Espaço Cultural Sérgio Porto, no Rio. As exibições serão gratuitas, no canal do Sesc Rio no YouTube.

“Partida”
Desta sexta-feira (04/06) a 27/06, de sexta a domingo, às 19h, no canal do Sesc RJ no YouTube (www.youtube.com/portalsescrio). Gratuito.
Duração: 35 minutos. 
Classificação etária: Livre. 


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