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Estado de Minas LITERATURA

Luiz Fernando Braga aborda o rito de passagem dos jovens em 'Freaky Prince'

Animes e Machado de Assis serviram de referência para o novo livro do escritor mineiro. Em capítulos curtos e ágeis, ele conta a história do garoto Iscandar


05/05/2021 04:00 - atualizado 05/05/2021 08:29

Iscandar, protagonista de ''Freaky Prince'', foi batizado com o nome do planeta do anime japonês ''Patrulha Estelar''(foto: SPACE BATTLESHIP YAMATO/REPRODUÇÃO)
Iscandar, protagonista de ''Freaky Prince'', foi batizado com o nome do planeta do anime japonês ''Patrulha Estelar'' (foto: SPACE BATTLESHIP YAMATO/REPRODUÇÃO)
“Freaky Prince”, de Luiz Fernando Braga, publicado pela Giostri em plena pandemia, trata do difícil rito de passagem para a adolescência de um garoto com dons especiais, em Morro de Átopos, fictícia cidade do interior de Minas. O romance se desenrola em meio a cenas da vida de uma família de classe média baixa, a amizade ambígua com um interno da Febem, as difíceis relações que se estabelecem na escola e no bairro e a manifestação estranhos e inexplicáveis poderes extrassensoriais. Além disso, o livro trata de forma suave e discreta do nascer da sexualidade de um jovem, que oscila entre a atração que sente por seu próprio gênero e o tesão por uma mulher.

O autor intertextualiza permanentemente com personagens do universo de animes, de onde retira referências e o nome do protagonista, alusão ao planeta mítico Iscandar, de “Patrulha Estelar”, clássico japonês dos anos 1970. Além disso, há referências contínuas a bandas e a artistas internacionais dos anos 1980, por meio da transcrição de letras de canções que dialogam com a trama, como é o caso de “Don’t you (forget about me)”, do Simple Minds, canção eternizada em “Clube dos Cinco” (1985), filme de John Hughes:
“Estiquei-me no gramado. Não quis mais olhar para Yamato. Concentrei-me no deslizamento de poeira cósmica no céu. Maurice se deitou também, apoiando a cabeça em minha barriga e aproveitando o ritmo da minha respiração para subir até o cometa. Apoiei a mão em seu peito. E ambos, cantando baixinho, reverberamos um no corpo do outro:

Don’t you try and pretend
It’s my feeling we’ll win in the end
I won’t harm you or touch your defenses
Vanity and security...”

As referências contínuas a essa década do século 20 têm como objetivo formar o pano de fundo da trama, cujo clima é de tensão ininterrupta e certo misticismo evidente nas personagens, ações e canções. A leitura das 202 páginas nos remete a Machado de Assis, que parece ter sido inspiração, em termos de estilo, de linguagem, de rapidez narrativa, de objetividade, de concisão na estrutura dos parágrafos e, também, na presença do defunto autor, criado entre nós pelo Bruxo do Cosme Velho em “Memórias póstumas de Brás Cubas”. Tudo ágil. O texto de Luiz Fernando Braga não é, entretanto, econômico em adjetivos, embora os use de forma a criar imagens inusitadas, densas, com apelos olfativos e visuais intensos.

A história em primeira pessoa gira em torno da vida de um garoto – Iscandar –, no hiato entre os 11 e os 15 anos, quando de sua morte – e isso não é spoiler, uma vez que essa informação é dada ao leitor logo nas primeiras páginas. De posse disso, o leitor se fixa na forma como essa morte é construída. Sensitivo, o garoto mora em uma casa simples, situada em um beco, tem como vizinha tia Edith, cujo filho – Socadim – poderá despertar no leitor profunda repulsa, por ser fruto de uma educação equivocada. A mãe de Iscandar é professora e o pai, relojoeiro. Ele é um garoto ético, estranho e, por ser diferente, sofre certo bullying na escola, onde conquista dois amigos nerds – cada um com seus conflitos íntimos – que o levarão a experiências únicas.

A narrativa se debruça também sobre quatro personagens femininas: Honey – jovenzinha fruto de seu tempo, desafiadora, inteligente, livre, confidente de Iscandar; tia Valentina, descolada, alegre; tia Edith, mulher submissa, vítima de abusos; e Aurora, a mãe do narrador, mulher trabalhadeira, forte, ligada aos valores familiares tradicionais. Bento, o patriarca, avô de Iscandar, surge como ponto de equilíbrio familiar e promete surpresas durante a leitura. Iscandar tem dois irmãos, Ana, filha do meio, e Renatinho, o caçula, cujas intuições e ações cercam a narrativa de um misticismo que exigirão do leitor muita atenção, a fim de entender o desenrolar da trama.

Além das personagens do âmbito familiar e dos amigos de escola, há na obra um personagem cercado de mistério: Yamato – nome também tributário dos animes. Ele é interno da Febem, de onde sai para interagir com Iscandar e viver um conflito central na narrativa. Esta relação é carregada de lacunas e alimentada por certa tensão sexual. Aliás, esta tensão surge em muitos momentos da narrativa, demonstrando com clareza o fim de um tempo de inocência dos garotos envolvidos na trama, a qual se desenrola com muita ação, sangue, medo, culpa e certa psicologia comportamental.

O livro, inicialmente, parece ter como público preferencial adolescentes, por tratar deste universo. Mas a escrita elegante e a narrativa, que se desenvolve como em um caleidoscópio, pedem leitores mais maduros, capazes de estabelecer relações entre os episódios que vão sendo soltos, sem uma amarra clara, mas articulados sutilmente, como em edição de filme. O texto envolve, desafia, instiga.

Luiz Fernando Braga, escritor mineiro e professor de literatura com experiência em escolas e faculdades de BH, é, atualmente, professor da Universidade Federal Fluminense. Autor de “Caio Fernando Abreu: Narrativa e homoerotismo” (Appris, 2014), texto acadêmico, fruto de seu doutorado sobre Caio Fernando de Abreu na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), migrou para a ficção com os livros “Romance hipocondríaco” (Metanoia, 2016) e “Professor Dorothy” (O Sexo da Palavra, 2019), ambos representantes da produção LGBTQIA+ contemporânea. “Freaky Prince” é o primeiro romance de Braga fora desse universo de engajamento explícito. Trata-se de ficção fundada na ação, no mistério e com oportuna análise e problematização do ser humano em suas ações cotidianas.
(foto: Editora Giostri/Divulgação)
(foto: Editora Giostri/Divulgação)

“FREAKY PRINCE”
• De Luiz Fernando Braga
• Editora Giostri
• 202 páginas
• Preço recomendado: R$ 59

* Else Martins dos Santos é professora aposentada. Doutora em linguística pela UFMG, tem mais de 40 anos de experiência como docente em escolas e  faculdades de Belo Horizonte e região metropolitana. 


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