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Estado de Minas MÚSICA

Ócio criativo da pandemia fez bem à cantora Sophia Chablau e sua banda

Canções do quarteto paulistano revelam inquietações dos jovens nestes anos melancólicos do século 21. A cineasta Daniela Thomas dirige o show on-line de hoje


22/04/2021 04:00 - atualizado 22/04/2021 11:47

A banda Sophia Chablau e Uma Enorme Perda de Tempo é a convidada de hoje do projeto 'Palco virtual'(foto: Biel Basile/divulgação)
A banda Sophia Chablau e Uma Enorme Perda de Tempo é a convidada de hoje do projeto 'Palco virtual' (foto: Biel Basile/divulgação)
Muitas coisas unem os quatro integrantes da banda paulistana Sophia Chablau e Uma Enorme Perda de Tempo. Entre elas está a música, registrada no disco homônimo recém-lançado pelo selo RISCO. Antes disso, a principal afinidade do quarteto era a paixão pelo palco, onde o grupo estreou no início de 2019, durante show no Rio de Janeiro.

Porém, a vida mudou bastante e obrigou a banda a transportar as apresentações ao vivo para o ambiente virtual. Nesta quinta-feira (22/4), às 20h, ela abre a programação do “Palco virtual”, do Itaú Cultural, com show on-line via plataforma Zoom.

Desde o início da pandemia, é a primeira vez que Sophia Chablau, Téo Serson (baixo), Theo Ceccato (bateria) e Vicente Tassara (guitarra e teclados) se reúnem para tocar ao vivo. Pensada como uma forma de apresentar o álbum de estreia da banda, a transmissão será dirigida pela cineasta Daniela Thomas, mãe de Vicente. O público ouvirá o repertório na íntegra, com direito a quatro inéditas.

“Durante um ensaio, cheguei para a Dani e falei que não tinha a menor ideia de como cantar para a câmera”, conta Sophia. “Ela me disse: 'A câmera é como o olho de alguém. Você não está cantando para a câmera, está fazendo isso para o olho de alguém'. Desde então, me sinto mais confiante, porque o show é para as pessoas. A gente quer passar essa energia de união, além de oferecer um produto audiovisual lindo.”

"Chegamos à conclusão de que nosso encontro era a maior perda de tempo, no sentido de ócio criativo. É algo produtivo e improdutivo ao mesmo tempo"

Vicente Tassara, guitarrista e tecladista


CONVITE 

E energia esse quarteto tem de sobra. Divertidos e entusiasmados, os quatro músicos, que têm entre 21 e 23 anos, se conheceram quando Sophia Chablau foi chamada para fazer um show no Rio. Sem banda para a apresentação, ela convidou os três amigos que formavam o grupo Enorme Perda de Tempo.

“Esse nome surgiu depois de uma aula sobre Adorno e Proust. Quando a gente ainda estava pensando em qual nome dar para a banda, chegamos à conclusão de que nosso encontro era a maior perda de tempo, no sentido de ócio criativo. É algo produtivo e improdutivo ao mesmo tempo. Falei para os dois e todo mundo achou que fazia muito sentido”, explica Vicente.

Depois que se tornou Sophia Chablau e Uma Enorme Perda de Tempo, a banda recebeu a bênção da cantora e compositora carioca Ana Frango Elétrico, que viu no show dela material para um disco inédito.

"Nós quatro temos uma relação muito íntima e próxima. Mentalmente, está todo mundo muito abalado. Não só por conta da pandemia, mas por causa do governo. Tá tudo muito horrível"

Sophia Chablau, cantora


“Foi tudo muito rápido. Depois da primeira apresentação, a gente já tinha outras marcadas”, lembra Téo Serson. “A alma do disco nasceu dessa colisão inicial que rolou em janeiro de 2019. Tivemos 10 dias para montar o show. Fizemos tudo meio com pressa, mas a brisa criada ali é o que a gente reproduziu, de certa forma, na gravação”, acrescenta Sophia.

Gravado em outubro de 2019, o disco estava quase pronto quando a Organização Mundial da Sáude (OMS) decretou a pandemia do novo coronavírus. Naquela época, o cartão de visitas da banda era o single “Idas e vindas do amor”, lançado na trilha sonora do filme “Acqua movie” (2019), de Lírio Ferreira.

Impossibilitados de fazer show ou mesmo de se encontrar, os quatro decidiram adiar o trabalho para momento mais oportuno. Porém, o baque foi bastante dolorido, tanto no bolso quanto na relação entre os músicos.

“A gente juntou dinheiro para o disco fazendo shows. Então, foi um grande impacto financeiro no primeiro momento, porque somos banda de casa de shows. Não importa o que acontecesse, a gente sempre tinha um show marcado. Em 2019 foi assim”, diz Sophia.

GOVERNO 

O confinamento imposto pela pandemia foi um complicador. “Nos encontramos muito pouco ao longo de 2020. Nós quatro temos uma relação muito íntima e próxima. Mentalmente, está todo mundo muito abalado. Não só por conta da pandemia, mas por causa do governo. Tá tudo muito horrível”, completa a cantora.

O disco “Sophia Chablau e Uma Enorme Perda de Tempo” traduz bem o que é ser jovem em plena segunda década do século 21, tendo de lidar com a falta de perspectiva em relação ao futuro. O quarteto garante que isso não foi intencional. “Há uma melancolia, uma nostalgia no ar”, comenta o baterista Theo Ceccato. “É interessante como as músicas brincam com a realidade, que também opera nas músicas.”

De acordo com Sophia, autora da maior parte das letras, “o sofrimento que às vezes aparece nas músicas também é vitalidade, no sentido de que a gente é contra essa juventude blasé e apática. Também há uma agitação ali. Todas as músicas, por mais profundas e tristes, têm o intuito de movimentar.”

Téo avisa: é movimento no sentido amplo. Por isso, as faixas “Pop cabecinha”, “Moças e aeromoças” e a ótima “Delícia/luxúria” são dançantes, enquanto “Fora do meu quarto” e “Deus lindo” fazem pensar.

Na melancólica “Se você”, a banda mostra habilidade para criar música etérea, tanto na letra quanto no instrumental. Já na divertida “Hello”, eles flertam com a bossa nova feita em guitarra e brincam com a letra em inglês e português. “Debaixo do pano” e “Se eu fiz pra você uma não canção eu não podia” completam o álbum.

Intencionalmente enxuto, o disco da banda, com 22 minutos, traz nove faixas. Portanto, a “perda de tempo” que o quarteto propõe não é tão “enorme” assim, mas bastante proveitosa e bem-feita.

Em entrevista realizada pela plataforma Zoom, os quatro fizeram mistério em relação às quatro inéditas que serão apresentadas na live de hoje. Mas Téo Serson entregou: elas fazem parte do projeto que a banda já começou a desenvolver. Não explicou se é disco, EP ou outro formato. Mas vale ficar atento. Nasce uma banda que tem muito a oferecer.

(foto: RISCO/REPRODUÇÃO)
(foto: RISCO/REPRODUÇÃO)

“SOPHIA CHABLAU E UMA ENORME PERDA DE TEMPO”
Disco da banda Sophia Chablau e Uma Enorme Perda de Tempo
Nove faixas
Selo RISCO
Disponível nas plataformas digitais
Live de lançamento nesta quinta-feira (22/4), às 20h, no Itaú Cultural. Reserva de ingressos pelo Sympla.


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