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Estado de Minas MÚSICA

O ex-Letuce Lucas Vasconcellos lança álbum com a participação de Letrux

Com 'Teoria da terra plena', o artista diz que parou de 'atingir o fígado das pessoas' com suas letras e hoje faz 'música pulmonar e cardíaca'


14/04/2021 04:00 - atualizado 14/04/2021 07:17

Lucas Vasconcellos trocou a cidade do Rio de Janeiro por Petrópolis, em 2017, e montou um estúdio em sua casa, cercada pela natureza(foto: Ana Alexandrino/Divulgação)
Lucas Vasconcellos trocou a cidade do Rio de Janeiro por Petrópolis, em 2017, e montou um estúdio em sua casa, cercada pela natureza (foto: Ana Alexandrino/Divulgação)
Muito antes de o êxodo urbano virar uma tendência, impulsionada pela pandemia do novo coronavírus, o músico Lucas Vasconcellos entrou para o time dos que trocam a cidade pelo campo. Em 2017, após 20 anos no Rio de Janeiro, ele voltou para Petrópolis, onde nasceu, na serra fluminense, e passou a morar em uma casa devidamente equipada com estúdio musical, seu novo local de trabalho. 

O cenário bucólico, entre as montanhas e a natureza virgem, fez o artista aprofundar sua relação com sons mais orgânicos, o que resultou no recém-lançado álbum "Teoria da terra plena".

"Eu tive a intuição de ir para um lugar mais calmo, silencioso e introspectivo. Hoje, todo mundo está querendo um lugar assim. Nele, o silêncio e a calma funcionam como uma espécie de isolamento”, diz Lucas. 

“E eu acho que isso me trouxe paz para fazer um disco como esse, que fala do meu momento presente. A experiência de morar aqui traz essa sensação de viver somente no presente.”

O novo álbum, quarto de uma discografia marcada pela presença de elementos eletrônicos, mostra Lucas Vasconcellos às voltas com instrumentos acústicos. Com exceção de "Forest and TV on demand" e "Fumaça dos carros", as outras oito faixas foram compostas e produzidas de uma maneira que destaca a presença de violão e piano, movimento que o músico fez após se saturar da produção com sintetizadores.
 

'Quando eu comecei a produzir os textos, percebi que não precisava tergiversar ou metaforizar muito as coisas. Achei mais interessante ser 'sincerão'. A minha vida é simples e eu não estou com tantos questionamentos sobre a existência, talvez porque eu esteja mais maduro'

Lucas Vasconcellos, cantor, compositor e instrumentista



INSTRUMENTOS 

"Eu me encontrei de novo com esses instrumentos que ouço desde antes de nascer. Sou de uma família de músicos, minha mãe era professora de piano. Quando eu toco, sinto um conforto delicioso. Então, foi natural que a onda eletrônica e experimentalista desse lugar a um jogo mais profundo na minha música", explica.

Ele conta que começou a explorar a música eletrônica por curiosidade, e o mesmo aconteceu com a acústica. "Se a produção musical é curiosa, é interessante, eu vou querer brincar com ela. É como se eu não tivesse saído da infância, e os instrumentos fossem os meus brinquedos. Eu me sinto infantil, no melhor sentido."

Lucas também compreende que um instrumento como o violão carrega história. "Tem uma mágica ancestral nele", diz. "Penso que algo parecido com ele pode ter sido tocado há 2 mil anos. Uma corda esticada produzindo uma vibração sonora é muito bonito e vai existir para sempre."

Apesar da calmaria que as músicas do disco inspiram, as letras são bastante diretas. Faixas como "As coisas são assim", "Eu vou sequestrar você" e "Vamos tacar fogo nas coisas" – a última com participação de Uyara Torrente, d’A Banda Mais Bonita da Cidade –, revelam como o artista tem enxergado a vida de maneira mais simples.
 

MATURIDADE


"Quando eu comecei a produzir os textos, percebi que não precisava tergiversar ou metaforizar muito as coisas. Achei mais interessante ser 'sincerão'. A minha vida é simples e eu não estou com tantos questionamentos sobre a existência, talvez porque eu esteja mais maduro", afirma ele, que tem 41 anos.

"As questões que me atordoavam estão mais apaziguadas. Então, é natural que meu texto pareça mais analítico. Estou mais interessado na observação das coisas. Não é mais uma música estomacal, que atinge o fígado das pessoas. Hoje, eu faço música pulmonar e cardíaca", diz.

Apesar de ter nascido no isolamento que Lucas Vasconcellos escolheu para si mesmo, "Teoria da terra plena" foi construído a muitas mãos. Entre os colaboradores estão Bruno Di Lullo, Emygdio Costa, Thomas Harres, Gabriel Barbosa, Felipe Duriez e Vinicius Nisi. O músico também destaca a importância de Eveline Maria, sua produtora e responsável pela direção artística do trabalho.

Letícia Novaes, a Letrux, com quem Lucas dividiu o duo Letuce entre 2008 e 2017, assina com ele a faixa "Falem", cuja letra versa sobre as fofocas que inundam as redes sociais – e das quais os dois já foram vítimas.

Lucas explica que o título do álbum é uma alusão, sim, ao terraplanismo e a outras teorias conspiracionistas que ganharam força nos últimos anos. "É um pouco de humor em cima disso. A minha vida aqui na serra é cheia de natureza e beleza física. Consigo conviver com a natureza de forma bonita. Fico decepcionado com a humanidade, que precisa inventar uma nova 'ciência' para falar sobre o que já é perfeito e funcional", afirma.

Capa do álbum de George Harrison de 1970, que Lucas Vasconcellos homenageia em seu novo disco(foto: REPRODUÇÃO)
Capa do álbum de George Harrison de 1970, que Lucas Vasconcellos homenageia em seu novo disco (foto: REPRODUÇÃO)


CAPA 

Segundo ele, a 'terra plena', em contraponto a 'plana', é "o lugar onde eu queria estar, fora desse mundo negacionista, de gente que odeia a ciência e, consequentemente, a arte".

A capa do álbum, assinada por Pedro Garcia, reproduz a foto que ilustra "All things must pass" (1970), de George Harrison. "Acho esse disco muito especial pelo jeito como foi composto e pela época em que foi feito e lançado", comenta Lucas.

"Tudo isso não é tão importante quanto o fato de o meu psicanalista ter me dado esse disco de presente há uns 20 anos", conta. "Ele me deu e disse: 'Cara, aí dentro tem coisas muito importantes que você precisa saber'. E eu achei isso o maior barato. Quando o Pedro [Garcia] veio aqui para a gente fazer a capa, ouvimos esse disco e ele disse: 'É isso aí. Tem que ser assim. A única diferença é que os anões vão ser os seus cachorros'."

Músico da cena independente carioca, Lucas Vasconcellos está na lida desde 2000, quando fundou a banda Binario, extinta oito anos depois. Integrou o duo Letuce por quase uma década e mantém carreira solo desde 2014, ano em que lançou o álbum "Falo de coração". Os discos "Adotar cachorros" (2015) e "Silenciosamente" (2016) também compõem sua discografia.

Entre 2015 e 2018 ele dividiu o palco com Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá na turnê em comemoração aos 30 anos da Legião Urbana.

Em 2020, antes do início da pandemia, "Teoria da terra plena" já estava pronto para ser lançado. Naquela época, o adiamento foi feito na esperança de que 2021 traria o retorno dos shows presenciais. O artista considera "muito triste" não poder apresentar o disco ao vivo para o público. Apesar disso, ele tem se agarrado à música para sobreviver.

"Minha criatividade está rolando do mesmo jeito e, se eu parar, vai ser pior para mim e para a minha sensação como músico. O grande amor da minha vida é a minha profissão. Se eu fico dando um tempo até esse cretino resolver comprar a vacina para todo mundo, a minha vida acaba", afirma.

Ele observa que "estamos em um momento de completa incerteza. Uma das poucas certezas é que as músicas estão aí para ser ouvidas e divulgadas. Isso não vai morrer. Se o vírus deixasse todo mundo surdo, a coisa seria muito diferente. Mas não é isso. Se ainda existe música, ouvido e coração, eu tô aí para entrar".

“TEORIA DA TERRA PLENA”
.Lucas Vasconcellos
.Independente
.Disponível nas plataformas digitais


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