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Estado de Minas LITERATURA

Conheça a primeira página da vida de seis autores nacionais

No Dia Nacional do Escritor, seis reconhecidos nomes da literatura contam ao Estado de Minas como escolheram essa profissão (ou como ela os escolheu)


25/07/2020 04:00 - atualizado 24/07/2020 22:02

Ignácio de Loyola Brandão estreou como romancista em 1968, com Bebel que a cidade comeu. Mas, antes do retrato de uma juventude idealista que foi massacrada pela repressão política da época, ele havia escrito outros romances. Um deles, Cravo sobre gin seco, foi enterrado por Loyola no quintal da casa de seus pais, em Araraquara, interior de São Paulo.

Um bilhete o levou a isto. “Você criou 11 personagens e todos falam igual. Reduza a um ou dois e com características diferentes. Reescreva. Mas não vai adiantar, é muito ruim”, escreveu Antonio Candido para frustração do então jovem jornalista, que havia conseguido, “com uma carteirada”, que o maior crítico literário do país (daquela e de qualquer época) lesse os originais.

Ser um escritor em um país em que, como diz o senso comum, cada vez se lê menos não é fácil, ainda mais quando se fala na literatura como profissão, e não puro diletantismo. Neste 25 de julho, Dia Nacional do Escritor, data que é celebrada há 60 anos, a reportagem ouviu seis deles com a seguinte pergunta: “Como você decidiu se tornar escritor?”.

As respostas variam. Marina Colasanti, uma das mais prolíficas autoras brasileiras, que transita em diversos gêneros, chegou à literatura de maneira semelhante à de Loyola Brandão: sua primeira incursão foi no jornalismo. 

Luiz Ruffato se preparou por anos a fio, até achar que havia chegado o momento certo, já maduro. Milton Hatoum só chegou ao romance, gênero em que é considerado um dos grandes da literatura contemporânea brasileira, depois de se frustrar como poeta, sua intenção inicial.

Como nota de pé de página, já que estamos falando de literatura, Loyola Brandão comenta o destino do bilhete de Antonio Candido. “(O encenador) Flávio Rangel o leu, certa noite, no Gigetto (histórica cantina de São Paulo), restaurante onde todo mundo se reunia. Ele pegou e me disse: ‘Você precisa enquadrar e colocar na parede. Vou fazer isso para você’. Nunca mais vi o bilhete.” Abaixo, outras histórias dos criadores de histórias.

. Ignácio de Loyola Brandão
Paulista, 83 anos, jornalista, romancista e contista, membro da Academia Brasileira de Letras desde 2019.
Para começar a ler: Não verás país nenhum (1981, Global)

“A primeira sensação com um texto escrito tive ao fazer uma redação no curso primário sobre Branca de Neve e os sete anões. Me veio de matar os anões com uma sopa envenenada no final. Para mim, eles escravizavam a Branca de Neve que eu amava. A professora leu e no final a classe deu uma gargalhada e todos viraram para mim. Senti-me olhado (admirado) por uma coisa que tinha escrito. Naquele momento, tive a primeira lição de técnica literária, quando Lourdes Prado, a professora, comentou: “Vocês ficaram surpresos com o final. Quando uma história surpreende, assusta, tem uma solução inesperada, ela foi bem sucedida.” Nunca mais esqueci. Tornei-me jornalista e fiz de tudo. Certa vez na (revista) Cláudia, o (jornalista) Thomaz Souto Corrêa me pediu que escrevesse uma história que tivesse um pai, um professor e um aluno. Pensei, pensei, e me veio um personagem, eu mesmo, que tirava a maior nota da classe quando se tratava de enfrentar listas de sinônimos. Assim nasceu O menino que vendia palavras (seu primeiro conto), reescrito na altura de 2006 (recebeu o Jabuti de Melhor Livro do Ano). O conto foi um sucesso em julho de 1965.”

. Luiz Ruffato
Mineiro, 59 anos, romancista e poeta
Para começar a ler: Eles eram muitos cavalos (2001, Companhia das Letras)

“Me preparei durante anos. Desde a época em que eu estudava (Comunicação) na Universidade Federal de Juiz de Fora eu li e estudei. Foram muitos anos até me sentir pronto, ou pelo menos achar que estava pronto. Isto foi em 2000, quando decide que precisava muito tentar encontrar uma linguagem adequada para escrever os meus livros. Escrevi Eles eram muitos cavalos, e ele serviu para entender a linguagem e depois escrever os outros. Tinha tantos anos que estava me preparando que quando me sentei para escrever, sabia o que iria fazer. Todos os livros são assim: não faço anotações, esquemas, nada. Só sento e escrevo. Mas antes, fico o dia inteiro pensando nisto. É um trabalho difícil.”

. Marina Colasanti
Ítalo-brasileira (nascida na Eritreia), 82 anos, jornalista, contista, poeta, autora de livros infantojuvenis e tradutora
Para começar a ler: Uma ideia toda azul (1978, Global)

“Decidi me tornar escritora quando já era cronista do Caderno B, do Jornal do Brasil. Era o veículo mais significativo naquele momento, e o retorno que tinha como cronista me deu ânimo para começar a escrever o primeiro livro, Eu sozinha (1968). Mas escrevi as primeiras coisas bem antes disso. Tinha entre 8 e 9 anos quando escrevi os primeiros contos e, sobretudo, os primeiros poemas. Não era nenhuma criança prodígio, mas ouvia poemas da boca do meu pai e lia toda semana uma revista infantil que trazia histórias em quadrinhos com legendas rimadas e metrificadas. O ritmo daquelas legendas se ancorava em mim. Publiquei muitos livros. Espero que o conjunto deles me represente. Se o todo me representar, será sinal que consegui o que queria: emitir um único som através de embocaduras tão diferentes.”

. Milton Hatoum
Amazonense, 67 anos, romancista e tradutor
Para começar a ler: Dois irmãos (2000, Companhia das Letras)

“Queria escrever poesia, mas este é o gênero mais difícil. Ou o mais difícil para mim. O poema se escreve, ou se deixa escrever, como dizia Bandeira, um poeta iluminado. Quando concluí o curso de arquitetura na USP, ganhei uma bolsa do governo espanhol e fui morar na Espanha. Na Europa decidi abandonar a incipiente e já fracassada profissão de arquiteto. Em 1980, em Madri, comecei a escrever o Relato de um certo Oriente. Terminei uma versão em 1987, o livro só saiu em 89. Por várias razões, só publiquei o segundo romance (Dois irmãos) 11 anos depois. Esse romance me permitiu viver do meu trabalho de escritor. Não sei o que significa ser escritor no Brasil. Em todo caso, é o que gosto de fazer quando o santo baixa e o diabo aparece. E isso tem acontecido com não pouca frequência. Quando o santo e diabo sumirem, serei apenas um leitor.” 

. Paulo Lins
Carioca, 62 anos, romancista e roteirista
Para começar a ler: Cidade de Deus (1997, Tusquets)

“Eu fazia poemas mesmo antes de escrever literalmente e minha mãe e meus irmãos mais velhos escreviam. Fazia versinhos na escola, adorava fazer redação, entrei para a ala de compositores do bloco anjinhos da Cidade de Deus, onde fiz diversos sambas. Fazia letras de música. Entrei pra faculdade de Letras porque era apaixonado por literatura. Porém eu decidi viver de literatura quando o (crítico e professor) Roberto Schwarz me levou para a casa dele depois de ler as primeiras 200 páginas de Cidade de Deus. Ele me disse que eu era um escritor pronto, que eu podia escrever o que eu quisesse.”

. Sérgio Rodrigues
Mineiro, 58 anos, contista, romancista e jornalista
Para começar a ler: O drible (2013, Companhia das Letras)

“Decidi que seria escritor bem cedo, aos 13 anos, e comecei a escrever contos furiosamente. Eram os anos 1970, e havia naquela época a mística do ‘contista mineiro’. Eu pensava: mineiro eu já sou, só falta ser contista. Ganhei alguns concursos de província com aquelas histórias, andei viajando o Brasil por causa disso, mas nunca me ocorreu reuni-las num volume, ainda bem. Só fui publicar meu primeiro livro, aliás de contos (O homem que matou o escritor ) quando tinha 37 anos. Nos 20 anos entre uma coisa e outra eu aprendi.”



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