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Estado de Minas PATRIMÔNIO HISTÓRICO

Nova superintendente do Iphan-MG promete gestão técnica

Débora do Nascimento França, que tomará posse este mês, depois da polêmica envolvendo nomeações para o órgão, diz que se pautará pelo diálogo com a comunidade para enfrentar o desafio da pandemia


postado em 06/05/2020 04:00 / atualizado em 05/05/2020 20:31

(foto: Ricardo Luizz/divulgação)
(foto: Ricardo Luizz/divulgação)

"As pessoas devem ser avaliadas por seu trabalho e não por sua ligação ou preferência política"

Diálogo, formação de parcerias e muito trabalho para valorizar os tesouros culturais de Minas. Com essa determinação, a nova superintendente em Minas do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), Débora do Nascimento França, vai tomar posse este mês, num ato que poderá ser virtual, dependendo da evolução do novo coronavírus. Não importa, pois o que ela mais quer é estar presente – o tempo todo e em equipe – na busca de soluções. Arquiteta, urbanista, mestranda em patrimônio e com larga experiência em Diamantina, a belo-horizontina, de 40 anos, será gestora de um dos maiores acervos culturais brasileiros – atrativos turísticos que, no momento, estão fechados à visitação devido à pandemia. Nesta entrevista, ela fala dos desafios que enfrentará, da articulação com as prefeituras, de nomeações polêmicas para a autarquia federal e da conduta técnica em tempos de alta ebulição política.

"Quero deixar a marca de uma gestão técnicaque valorize técnicos de carreira dediferentes formações"


A senhora afirmou que fará uma gestão eminentemente técnica no Iphan-MG. O que isso significa, neste momento em que todas as decisões ganham forte tom político?
Trabalho na Prefeitura de Diamantina há 15 anos, dos quais 12 como concursada. Durante esse tempo, ocupei cargos de coordenação e diretorias. A marca da minha atuação sempre foi ouvir as equipes técnicas. E tenho certeza de que no Iphan não será diferente. A superintendência é composta por uma equipe altamente qualificada e competente, vamos trabalhar juntos. Acredito que a conduta técnica é um caminho que mantém vivo o compromisso com as instituições. O diálogo também será fundamental.

Muitos setores ligados ao patrimônio respiraram aliviados diante da nomeação de uma profissional com formação na área para ocupar a superintendência do Iphan em Minas. Qual será o maior desafio?
Com certeza, um dos grandes desafios, entre tantos, será corresponder a toda essa expectativa. Fico feliz pelo apoio e reconhecimento. Entretanto, acho que não existe o maior desafio. Todos serão igualmente importantes e me dedicarei, com compromisso e seriedade, para que o Iphan continue sendo respeitado e atue de maneira efetiva, como sempre foi. O momento atual é desafiador, estamos vivendo uma pandemia mundial. É preciso atuar com segurança e responsabilidade neste momento crítico, pensando em formas alternativas que mitiguem os grandes danos sociais, econômicos e culturais que todos já estamos sofrendo.

Recentemente, o ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio, nomeou para a superintendência em Minas pessoas consideradas sem qualificação para os cargos. Houve até representação de parlamentares na Procuradoria-Geral da República questionando essa decisão. Como a senhora pretende administrar isso?
Discordo dessa afirmação. Afinal de contas, as pessoas têm qualificação técnica. As pessoas devem ser avaliadas por seu trabalho, e não por sua ligação ou preferência política. Meu foco é apenas o Iphan. Na minha gestão, espero manter uma equipe coesa, determinada a valorizar e trabalhar pelo Instituto.

"Considero fundamental obras para além de restauração das igrejas. Investir em infraestrutura de espaços públicos é estratégico"


Como espera conduzir projetos como o PAC Cidades Históricas, iniciativa de governos anteriores e de extrema importância para a requalificação dos sítios? Haverá continuidade ou contingenciamento das ações?
Sinto-me muito à vontade para falar do PAC, pois estou envolvida com o programa desde o lançamento. Pretendo intensificar o diálogo com a administração do Iphan em Brasília para que as ações sejam mantidas e possivelmente ampliadas para intervenções urbanas de maior robustez. Todos sabemos que Minas Gerais é parte fundamental da história do Brasil. Para se ter uma ideia, este mês, a Prefeitura de Diamantina vai licitar a obra de requalificação urbanística do Largo Dom João, uma das ações do PAC na cidade. Considero fundamental obras para além de restauração das igrejas. Investir em infraestrutura de espaços públicos é estratégico, pois isso melhora a ambiência urbana e potencializa a qualidade de vida da população. Não podemos nos esquecer do patrimônio imaterial, tão presente em Minas.

A senhora assume o cargo de superintendente do Iphan neste momento dominado pelo novo coronavírus e de duras críticas ao setor cultural. Planeja alguma iniciativa para a recuperação do patrimônio de Minas, que representa grande parte dos bens tombados no país?
Como disse anteriormente, Minas detém grande parte da história do Brasil. Mas todos nós reconhecemos que este não é um momento fácil. Estamos passando por uma turbulência mundial, uma pandemia inimaginável até poucos meses atrás. Mas não podemos ficar esperando. Temos de agir dentro do que a realidade nos oferece. Para isso, vou conversar com representantes dos governos federal, estadual e municipal, do Iphan e das cidades detentoras de bens tombados. Acredito que juntos seremos capazes de planejar ações efetivas, mesmo em tempos de crise.

Como o Iphan é atualmente vinculado ao Ministério do Turismo, e as cidades com potencial para receber visitantes estão às moscas, já é possível traçar estratégias conjuntas para tentar reerguer essas localidades? Afinal, o patrimônio cultural, especialmente o acervo barroco, é o grande atrativo delas.
Não só as cidades mineiras com potencial para receber turistas estão enfrentando dificuldades. Isso é uma ocorrência mundial. O turismo é um dos setores mais afetados pela pandemia. No caso de Minas Gerais, temos um dos maiores acervos culturais do país, o que contribui para o reerguimento do turismo. Temos de usar esse potencial quando chegar o momento da retomada. Vou trabalhar muito em busca de parcerias com os poderes público e privado para que essa dificuldade seja ultrapassada e consigamos, o mais rapidamente, voltar ao lugar que nos é devido por merecimento.

A falta de recursos é sempre a maior queixa das autoridades e comunidades para manter um patrimônio que inclui igrejas, capelas, mosteiros, museus, grutas e tantos outros tesouros. A criatividade vence essa barreira? É possível fazer parcerias? Com quem?
A criatividade é sempre fundamental. Parcerias sérias e comprometidas serão sempre bem-vindas. Como estou acabando de chegar, quero, junto com a equipe, identificar e entrar em contato com esses possíveis parceiros, sejam eles públicos ou privados.

Quais serão as suas prioridades, assim que assumir o cargo?
Ainda é cedo para falar em prioridades. Quero ouvir toda a equipe da superintendência e estreitar o diálogo com os escritórios técnicos. Acredito que eles conheçam a fundo a demanda de cada local. Pretendo estar em contato constante e alinhada com a presidência do Iphan em Brasília e nas demais localidades do Brasil. Todos temos de remar o barco para o mesmo lado. Dia após dia, vamos avançar muito.

Quais boas experiências de sua gestão em Diamantina, patrimônio da humanidade, poderão ser aplicadas, de forma ampla, em Minas?
Cada cidade tem suas especificidades, demandas e carências. Certamente, minha experiência em Diamantina contribuirá para o desenvolvimento do meu trabalho na superintendência. Agradeço aos meus colegas de Diamantina por tudo o que fizemos juntos, quero contar com eles. Uma experiência de sucesso que acredito poderá ser aplicada a outras cidades é o convênio entre Iphan e prefeituras para a manutenção de prédios públicos. A equipe de restauração atuou com êxito nesse trabalho em Diamantina.

Qual será a marca de sua gestão?
Vou me dedicar com afinco ao meu trabalho. As marcas serão consequência de uma gestão participativa, focada e determinada. Sabemos da importância das construções coletivas na proteção do patrimônio cultural. Hoje, temos instrumentos capazes de trazer a comunidade para o centro das discussões. Inventários participativos e educação patrimonial são exemplos disso. O diálogo e as parcerias institucionais serão constantes. Precisamos de um olhar multidisciplinar para o patrimônio. Gosto muito do que faço, sou arquiteta, urbanista e mestranda do Iphan por escolha e amor. A experiência do mestrado me possibilitou tirar questões reflexivas da prática patrimonial. Darei continuidade aos programas existentes e pretendo desenvolver ações para salvaguardar o patrimônio, seja ele material ou imaterial. O Iphan é um órgão importante, respeitado e sério. Quero deixar a marca de uma gestão técnica que valorize técnicos de carreira de diferentes formações, que sempre se atualizam. É um orgulho estar chegando. Conto com toda a equipe para alcançar êxito.


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