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Estado de Minas

Desafiando o #MeToo, Woody Allen lançará sua biografia em abril

'A propósito de nada' sairá pela Hachette, que foi criticada pelos filhos do diretor com Mia Farrow. Eles o acusam de ter abusado de Dylan Farrow


postado em 05/03/2020 04:00 / atualizado em 04/03/2020 18:43

Woody Allen em San Sebastián, na Espanha, no ano passado, onde filmou o inédito Rifkin's Festival (foto: ANDER GILLENEA/AFP)
Woody Allen em San Sebastián, na Espanha, no ano passado, onde filmou o inédito Rifkin's Festival (foto: ANDER GILLENEA/AFP)
Durante anos, houve rumores sobre um provável livro de memórias do cineasta Woody Allen, quando ele era considerado uma das mentes mais criativas da indústria cinematográfica. Na era do #MeToo, a publicação da história de vida de um dos alvos do movimento contada por ele mesmo passou a ser vista como um negócio irrealizável no mercado editorial.
 
No entanto, a Grand Central Publishing, uma divisão do grupo Hachette Book, anunciou nesta semana que, no próximo 7 de abril, lançará Apropos of nothing (A propósito de nada), que vem a ser o livro de memórias de Woody Allen.

"O livro é um relato completo de sua vida, tanto a pessoal quanto a profissional, e fala de seu trabalho no cinema, teatro, televisão, clubes de humor e publicações", segundo a Grand Central. "Allen também escreve sobre seus relacionamentos com a família, os amigos e os amores de sua vida."

Não foram divulgados os termos financeiros do livro, que a Grand Central adquiriu discretamente há um ano, e um porta-voz se recusou a fornecer mais detalhes sobre seu conteúdo. Apropos of nothing será publicado nos Estados Unidos e também no Canadá, na Itália, na França, na Alemanha e na Espanha. Depois, em outros "países ao redor do mundo", de acordo com a editora. Allen dará "várias entrevistas" sobre o livro, anunciou a Grand Central.

O cineasta de 84 anos, que foi indicado ao Oscar 24 vezes e tem quatro estatuetas – melhor diretor e roteiro por Noivo neurótico, noiva nervosa (1977), melhor roteiro por Hannah e suas irmãs (1986) e melhor roteiro por Meia-noite em Paris (2011) –,  é considerado um dos comediantes mais influentes de sua geração.Mas as acusações de sua filha Dylan Farrow de que ele abusou dela quando ela ainda era criança, no início dos anos 1990, afetaram sua carreira nos Estados Unidos, no contexto do movimento #MeToo, quando vieram novamente à tona.

A denúncia foi feita por sua ex-mulher, a atriz Mia Farrow, na época em que o casal estava se separando, em meio ao escândalo da revelação do romance de Allen com Soon Yi Previn, uma das filhas adotivas do casal. A polícia conduziu duas investigações a partir da denúncia e não encontrou evidências de que o crime tivesse sido cometido, encerrando o caso. Allen nega que tenha abusado de Dylan. 

Amigos do cineasta levantam a hipótese de que Mia, num ato de vingança contra o ex-marido, tenha manipulado a filha pequena para que ela sustentasse uma versão fantasiosa do ataque e julgam que Dylan desenvolveu uma falsa memória do abuso. Essa hipótese é defendida por outro dos filhos adotivos de Mia, Moses Farrow, hoje um psicólogo, que a acusa de ter praticado abuso emocional. Woody Allen é casado com Soon Yi Previn desde 1997. O casal tem duas filhas.

GAVETA 

O fato é que, quando Dylan, agora adulta, voltou a falar sobre o episódio de abuso, a Amazon Studios cancelou um contrato de produção e distribuição com Allen e vários atores disseram que não trabalharão mais com ele. Seu filme Um dia de chuva em Nova York estreou na Europa e na América Latina no ano passado (em novembro no Brasil), mas não foi lançado nos Estados Unidos. Sua produção atual, Rifkin’s Festival, com Christoph Waltz e Gina Gershon, foi filmada no verão passado e está procurando uma distribuidora.

Segundo alguns relatos, Allen teria assinado um acordo multimilionário com a Editora Penguin, em 2003, para publicar seu livro de memórias, mas mudou de ideia. Em 2018/2019, vários editores, citando preocupações com o #MeToo, teriam dispensado o representante de Allen que buscava uma editora para seu livro. Mas, segundo um porta-voz da Grand Central, um acordo foi firmado em março de 2019, depois que o editor e o vice-presidente Ben Sevier leram um esboço completo do livro.No passado, uma autobiografia de Allen não encontraria problemas para ser publicada. Sua carreira como ator e diretor foi muito celebrada e ele é conhecido por seus jogos de palavras e comentários espirituosos. É um escritor que há décadas publica ensaios humorísticos na New Yorker e em outras publicações. Entre seus livros anteriores estão as coleções de ensaios Sem plumas e Cuca fundida.
Ronan Farrow decidiu não publicar mais pela Hachette, em protesto(foto: Angela Weiss/AFP)
Ronan Farrow decidiu não publicar mais pela Hachette, em protesto (foto: Angela Weiss/AFP)

O acordo de Allen com a Hachette significa que ele compartilha a casa editorial com um de seus heróis literários, J. D. Salinger (1919-2010), e com um de seus principais detratores, seu filho Ronan Farrow, cujo livro Operação abafa – Predadores sexuais e a indústria do silêncio, sobre como produziu a reportagem que levou à queda do produtor Harvey Weinstein, acusado de assédio sexual e abuso de poder por dezenas de mulheres, foi publicado no ano passado pela Little, Brown and Company, uma divisão da Hachette (no Brasil, o volume saiu pela Editora Todavia).

PROTESTOS 

Ronan Farrow ganhou um Prêmio Pulitzer por suas reportagens sobre Harvey Weinstein e há anos se afastou de seu pai. Após o anúncio do lançamento de Apropos of nothing, Ronan Farrow afirmou que deixará de publicar suas obras pela Hachette, porque não deseja estar no mesmo grupo editorial que Woody Allen. "A Hachette não fez as verificações sobre o conteúdo deste livro", disse Farrow. 

O jornalista afirma que a editora não entrou em contato com sua irmã Dylan Farrow, o que constitui, segundo ele, uma "falta enorme de profissionalismo", além de demonstrar "a falta de ética e de compaixão pelas vítimas de agressões sexuais".

Dylan Farrow, que se prepara para lançar um livro de ficção, também protestou contra o lançamento do livro de memórias do pai. "A publicação das memórias de Woody Allen pela Hachette é profundamente entristecedora para mim, pessoalmente, e uma enorme traição ao meu irmão, cuja corajosa reportagem, capitalizada pela Hachette, deu voz a diversas sobreviventes de ataques sexuais perpetrados por um homem poderoso", afirmou. Ela ainda disse que "esse é mais um exemplo do profundo privilégio que poder, dinheiro e fama proporcionam", dizendo que "a cumplicidade da Hachette com isso deveria ser chamada pelo que é e eles deveriam ter que responder por isso".



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