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Bituca, Lô, Samuel Rosa e Fernanda Takai homenageiam Fernando Brant

Obra do compositor mineiro é reverenciada no disco 'Vendedor de sonhos', que reúne 25 cantores. Milton Nascimento gravou pela primeira vez 'O medo de amar é o medo de ser livre'


postado em 07/12/2019 06:00 / atualizado em 11/12/2019 09:56

(foto: Maria Tereza Correia/EM -8/4/11)
(foto: Maria Tereza Correia/EM -8/4/11)

O medo de amar é o medo de ser livre, música de Fernando Brant e Beto Guedes, foi lançada em 1979. O título veio de uma frase do espanhol Pedro Casaldáliga, o “bispo do povo”. Essa canção é uma das 320 que Fernando compôs em quase 50 anos de carreira – 110 delas em parceria com Milton Nascimento, que, praticamente, interpretou todo o repertório do amigo. Uma das raríssimas exceções é justamente O medo de amar... Pois agora ela está na voz de Bituca. A gravação inédita faz parte do álbum Vendedor de sonhos (Biscoito Fino), que acaba de chegar às plataformas digitais, produzido e idealizado por Robertinho Brant, sobrinho do letrista, que morreu em 2015.

Foi um verdadeiro mutirão afetivo: 25 cantores participaram do disco – de companheiros do Clube da Esquina a novas vozes da MPB. Eu, Ana Clara, sobrinha de Fernando, acompanhei meio de longe o projeto, iniciado em 2014, antes da morte dele. Cheguei a ouvir algumas faixas, sabia de uma ou outra história de bastidor. Meu tio, que planejava fazer um livro com as histórias de suas canções, ficaria feliz em ouvir Vendedor de sonhos. “Muito legal saber que esse material finalmente ganhou o mundo. Fernando Brant teve uma vida grandiosa, sua obra é imortal. E não podemos parar por aí. Fernando Brant é o Brasil, a gente jamais deve se esquecer disso”, afirma Bituca, em entrevista por e-mail.
A ideia inicial era que o repertório abrangesse de 1967 – ano em que Robertinho Brant nasceu e Travessia conquistou o país – a 1987, quando o produtor fez a primeira parceria com o tio, Alma animal. “Queria abarcar boa parte dessa obra, mas não privilegiar apenas clássicos. Um pouco do lado B também. Maria, maria, Nos bailes da vida, Canção da América já ganharam tantas versões, quis privilegiar outras. Mais do que isso, com artistas, mesmo os mais próximos do Fernando, cantando algo dele que nunca gravaram”, explica.

Robertinho sugeriu todas as faixas. Inicialmente, pensou em Milton Nascimento para Céu de Brasília ou O medo de amar é o medo de ser livre. “Falei com o Fernando, e ele disse que provavelmente o Bituca escolheria a segunda opção por conta da história do Pedro Casaldáliga, parceiro dos dois no musical Missa dos quilombos. Não deu outra”, revela.

Fernando não chegou a dar muitos palpites, mas fez questão de sugerir Dori Caymmi e Joyce para o projeto. Com Dori, aliás, compôs sua última canção, Serra do Espinhaço. Em Vendedor de sonhos, o filho de Caymmi solta o vozeirão em Sentinela, clássico eternizado por sua irmã, Nana, e pelo próprio Milton. É a única das 20 faixas que não tem arranjo de Robertinho.

“Gravei em Los Angeles, só eu e meu violão, com o meu jeito. Tem um toque de tristeza, porque o Fernando havia acabado de partir. Quis colocar aquele sentimento ali. Sentinela é uma música linda, da fase criativa do Brasil. Dos mineiros, Fernando Brant era a pessoa mais próxima a mim, eu o admirava profundamente. Ele faz muita falta, ainda mais nestes tempos sombrios que o país e a cultura atravessam”, lamenta Dory.

Coube a Joyce a canção sugerida por Fernando – Saudade dos aviões da Panair –, que ficou bastante marcada pela interpretação de Elis Regina. “Ele foi um amigo queridíssimo, que faz muita falta ao Brasil numa hora dessa. Ninguém falaria com tanta propriedade do que estamos vivendo. Imagino o que Fernando diria. Ele escolheu essa música para mim. No processo de pré-gravação, ele partiu, mas a homenagem ficou.”

Outra música “da Elis”, O que foi feito devera ganhou o toque delicado e, ao mesmo tempo, intenso de Mônica Salmaso. “Ela é muito linda, forte, uma canção que ouço desde criança. É uma felicidade fazer parte desse projeto. Neste momento, a gente precisa reafirmar o tempo todo e o máximo possível o valor da nossa história, da nossa cultura e da nossa identidade. A obra do Fernando Brant tem a ver com isso. Esta música, especialmente, é muito atual. O arranjo é lindo”, diz Mônica.

Fernando Brant em 1972, ano de lançamento do disco Clube da Esquina(foto: Arquivo EM)
Fernando Brant em 1972, ano de lançamento do disco Clube da Esquina (foto: Arquivo EM)


''Fernando Brant é o Brasil, a gente jamais deve se esquecer disso''

Milton Nascimento, cantor e compositor


SABOR

Robertinho Brant queria “um sabor de Minas e do Clube” na atmosfera do disco. A ideia era fazer um projeto de amplitude nacional com mineiros e não mineiros. Estão lá Djavan (Milagre dos peixes), Seu Jorge (Saídas e bandeiras nº 1), Roberta Sá (Ponta de Areia) e Nina Becker (Outubro). Quem não era tão próximo do homenageado, mas foi influenciado por ele, também contribuiu. É o caso de Samuel Rosa. Ele diz que admira não só o compositor, mas o poeta e escritor Fernando Brant.

“Brant tem uma escrita muito fácil, divertida e inteligente. E ajudou muito naquilo que foi o amálgama, a gênese da transformação da MPB”, diz. Samuel canta Paisagem da janela, que considera obra-prima. “E ela ainda está no disco Clube 1. Gravei-a num show com o Lô e me sinto honrado de estar ao lado de grandes nomes da música popular neste tributo a um dos grandes poetas e compositores brasileiros, mineiro como eu. O projeto contribui para perpetuar ainda mais a já eterna obra de Fernando Brant”, destaca.

Veveco, panelas e canelas ganhou a versão de Fernanda Takai, que já havia cantado essa música no programa Som Brasil (Globo) em homenagem a Milton Nascimento. De acordo com ela, a faixa transmite “uma esperança com cara de liberdade”. “Ao mesmo tempo, fala de coisas bem cotidianas. Meu pai tinha uma compilação em cassete de canções mineiras, essa era uma de minhas preferidas. Ainda bem que pude ficar com ela. Curiosamente, a Mariana, filha do Veveco (o arquiteto Álvaro Hardy, inspirador da letra), tem feito as últimas capas de meus álbuns com sua equipe”, comenta.

PARCEIROS

Os vários parceiros de Brant não poderiam faltar. A primeira faixa é San Vicente, na voz de Beto Guedes. Toninho Horta canta a primeira composição de Fernando, Travessia. Já Canoa, canoa, parceria com Nelson Angelo, foi uma das últimas gravações de Vander Lee, que morreu em 2016. Lô Borges ficou com Durango Kid.

“O Robertinho me deu umas duas, três opções. Quis essa música não só por ser parceria com o Toninho (Horta), que adoro, mas porque o Fernando era o próprio Durango Kid. Ele costumava assinar cartas com esse pseudônimo. Fiquei muito feliz em participar da homenagem a esse cara genial da nossa música”, diz Lô.

Tadeu Franco, que tem uma parceria com Fernando (Musa), ficou com Beco do Mota. “Como sou do Jequitinhonha (a canção fala de um lugar simbólico de Diamantina), a escolha não poderia ser melhor. Certa vez, o Fernando comentou que a melodia da introdução, lembrando canto gregoriano, foi feita por ele, algo raro num letrista. É uma obra forte, o arranjo ficou especial”, diz. “Uma das coisas que mais me marcaram nele foi o fato de ser poeta dos maiores, mas nunca se comportar como tal. Fernando era uma espécie de Carlos Drummond dos letristas”, define.

Outro grande amigo é Tavinho Moura, que interpreta Maria Três Filhos. “Fernando é a melhor pessoa para nos representar em nossa luta pela poesia, pela música e pela literatura. Essa composição ficou muito marcada pelo Bituca,e eu adoro. Os arranjos do Robertinho deram o diferencial”, elogia.

Vendedor de sonhos, a última faixa, reuniu Flávio Venturini e Marina Machado. Foi o primeiro nome dado à letra de Travessia, comenta o produtor. Além de Robertinho Brant (arranjos, vocais e violão), o disco contou com Lincoln Cheib (bateria), Enéias Xavier (baixo), Rafael Vernet (piano e órgão), Marco Lobo (percussão), Beto Lopes (violão e trompete), Pedro Martins (guitarra), Guilherme Monteiro (guitarra), Jorge Continentino (flautas e sax-barítono), Tatá Spalla (violão), Ricardo Fiúza (teclado), Thiakov (wurlitzer e guitarra) e Rodrigo Moreira (vocais).

O lançamento do CD físico está marcado para 17 de dezembro, no Rio de Janeiro, com pocket show de Tadeu Franco. Em BH, o show deve ocorrer depois do carnaval.

(foto: Biscoito Fino/reprodução)
(foto: Biscoito Fino/reprodução)

VENDEDOR DE SONHOS
Tributo a Fernando Brant
• Biscoito Fino
• 20 faixas
• R$ 36
• Disponível nas plataformas digitais


FAIXAS

San Vicente
• Beto Guedes

Credo
• Boca Livre

O medo de amar é o medo de ser livre
• Milton Nascimento

O que foi feito devera
• Mônica Salmaso

Saudades dos aviões da Panair
• Conversando no bar (Joyce)

Milagre dos peixes
• Djavan

Sentinela
• Dori Caymmi

Outubro
• Nina Becker

Travessia
• Toninho Horta

Ponta de Areia
• Roberta Sá

Durango Kid
• Lô Borges

Saídas e bandeiras nº 1
• Seu Jorge

Veveco, panelas e canelas
• Fernanda Takai

Paisagem da janela
• Samuel Rosa

Beco do Mota
• Tadeu Franco

Vida
• Zé Renato

Amor amigo
• Paula Santoro

Canoa, canoa
• Vander Lee

Maria Três Filhos
• Tavinho Moura

Vendedor de sonhos
• Flávio Venturini e Marina Machado


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