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Estado de Minas

Exposição em BH homenageia o legado do dramaturgo João das Neves

Acervo abarca os 60 anos de dedicação do artista carioca ao teatro. Mostra será aberta neste sábado (31), na Academia Mineira de Letras, com show de Titane, Maurício Tizumba e Hudson Lacerda


postado em 31/08/2019 04:00 / atualizado em 31/08/2019 10:56

Titane e João das Neves desenvolveram em Minas Gerais sólido trabalho voltado para a cultura popular(foto: Marcelo Sant'Anna/EM/D.A Press )
Titane e João das Neves desenvolveram em Minas Gerais sólido trabalho voltado para a cultura popular (foto: Marcelo Sant'Anna/EM/D.A Press )

Homenagear o diretor, ator e dramaturgo João das Neves é a proposta da exposição Outro mundo é possível, que será aberta neste sábado (31) à noite, na Academia Mineira de Letras, com apresentação dos músicos Titane, Maurício Tizumba, Hudson Lacerda e grupo Rosa dos Ventos. A mostra reúne documentos, vídeos, fotos, áudios, trilhas, instalações, fragmentos de textos e objetos pessoais do artista.

A cantora Titane, curadora da exposição e viúva do dramaturgo, explica que a exposição transita pelo multifacetado universo de João das Neves. O ponto de partida são os espetáculos criados por ele, além de suas incursões artísticas tanto nas grandes cidades quanto no Vale do Jequitinhonha e na Amazônia, onde conviveu com os índios.

“Em suas andanças pelo país, João teve contato com a diversidade da realidade brasileira. Essas experiências, com toda a sua riqueza e complexidade, marcaram definitivamente a obra dele”, afirma Titane. Iniciativa da Academia Mineira de Letras, as conversas para montar o projeto começaram antes da morte do dramaturgo no ano passado, em Lagoa Santa (MG), vítima de câncer.

“João tem obra muito vasta. Estamos nos valendo do material que foi reunido por ocasião da recuperação do acervo dele pelo Itaú Cultural. Curiosamente, é um dos acervos mais consultados da UFMG. Vários documentos estão reunidos lá”, explica Titane.

''João acreditava ser possível uma sociedade mais igualitária, justa, humanizada. E trabalhava por isso''

Titane, cantora

João das Neves foi também escritor e trabalhou com música. Porém, o foco principal da exposição são as encenações criadas por ele. “Os assuntos coincidem muito com os lugares onde ele estava e a época histórica. Carioca, João foi criado em Copacabana. O início da vida dele como homem de teatro foi lá no Rio, na circunstância da ditadura militar. Sua obra foi muito marcada por essa conjuntura histórica. Temos fotos, áudios, recortes de jornais, programas de peças e documentos da censura liberando espetáculos com cortes”, diz Titane. O público poderá ler o manifesto assinado por dezenas de artistas e intelectuais contra a censura imposta pela ditadura militar.

“Esse período pega o início do João no CPC da UNE, do qual ele foi diretor. Inclusive, ele estava no prédio um pouco antes de ele ser incendiado”, conta Titane, referindo-se à sede do Centro Popular de Cultura da União Nacional de Estudantes, destruída em 1º de abril de 1964. “Ele trabalhava com outros aristas no espetáculo que inauguraria o prédio da UNE no Rio de Janeiro. Ele nem chegou a ser encenado, uma vez que o prédio foi invadido e incendiado”, explica.

Há também registros da criação do Teatro Opinião e do antológico show Opinião, no Rio de Janeiro. Ganha destaque a peça O último carro, escrita e dirigida por João das Neves, considerada um marco no teatro brasileiro.

“Engajada à situação do Brasil da época, é uma peça muito poderosa, revolucionária esteticamente. A trilha sonora foi composta pelo Rufo Herrera”, lembra Titane, referindo-se ao músico argentino radicado em BH.

Homem do teatro, João das Neves fazia do palco “a tradução de seus desejos, suas ideias, sua percepção da vida e da humanidade”, comenta a viúva do dramaturgo. “Ele acreditava ser possível uma sociedade mais igualitária, justa, humanizada. E trabalhava por isso. Para além de seu lugar de fala, o teatro era um lugar de troca, quer seja com o público, quer seja com os elencos ou as comunidades onde ele se instalava. Era como se essa troca fosse o próprio mundo em construção.”

De acordo com Titane, o “outro mundo possível” no qual João das Neves acreditava existiu concretamente em seu universo criativo e nas escolhas que fez ao longo da vida.

A curadoria é assinada por Titane em parceria com Rodrigo Cohen, responsável pelo desenho, concepção do espaço e montagem da exposição. Desde 2006, Cohen foi figurinista e cenógrafo de todos os trabalhos de João das Neves.

A primeira parte da exposição, Anos de chumbo, reúne documentos, certificados, registros audiovisuais e informações sobre a produção do artista entre1960 e 1970. A segunda, Deslocamentos – Sertão, cidades e floresta, traz reconstituições cenográficas, diário de viagem, áudios, vídeos e fotos relativos ao período 1980-2000. A terceira, Camaradas, remete à atuação dele entre 2000 e 2018. Por último, em Afetos, o público entra em contato com a reprodução cenográfica de parte da biblioteca de João das Neves, que reúne cerca de sete mil livros.

OUTRO MUNDO É POSSÍVEL
Exposição em homenagem ao ator, diretor e dramaturgo João das Neves. Academia Mineira de Letras, Rua da Bahia, 1.466, Lourdes, (31) 3222-5764. Abertura neste sábado (31), às 19h. Em cartaz até 4 de outubro. O espaço funciona de terça a sexta-feira, das 11h às 21h30, e aos sábados e domingos, das 10h às 16h. Entrada franca.


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