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Estado de Minas

Três livros recém-lançados no Brasil abordam conquistas e desafios do feminismo

Obras buscam incentivar a união feminina e atrair também o público masculino


postado em 18/08/2019 06:00 / atualizado em 18/08/2019 10:12


Feminismo, palavra que causa diferentes sensações. Há quem entenda que se trata de um movimento e de uma expressão para retratar as diferentes lutas diárias das mulheres no mundo, que vão do direito ao voto, conquistado há alguns anos, ao constante e atual enfrentamento para a igualdade salarial no mercado de trabalho. Mas ainda há quem associe o termo a algo ruim ou pejorativo. Com a missão de atender a esses dois grupos, derrubando estereótipos e se debruçando em explicações, chegam às livrarias brasileiras três lançamentos literários que têm o feminismo como tema.
Dois deles fazem parte de coleções quase didáticas: O livro do feminismo, da Globo Livros, que anteriormente abordou temas como política e ciência, e Feminismo do cotidiano, da jornalista Marli Gonçalves, o segundo da coleção da Editora Contexto, que abriu a série abordando a filosofia. O terceiro é uma espécie de biografia da norte-americana Melinda Gates, presidente da Fundação Bill e Melinda Gates, que mostra nas páginas como o trabalho com o marido, Bill, na Microsoft, a fez entender sobre as questões feministas.

O livro do feminismo é o 14º lançamento da coleção da Editora Globo. Logo na apresentação, escrita pela colaboradora Lucy Mangan, jornalista e escritora britânica, a obra explica exatamente a sua missão: “Há muita ignorância, assim como estereótipos, hostilidade e pura confusão. O único modo de combater todas essas coisas é garantindo mais informação. Para preencher com fatos o vazio que permite que medos, dúvidas e preconceitos se instalem. Esse livro explica o feminismo por todos os ângulos e rechaça a ignorância em cada página. Também desempenha uma segunda função vital: dar às mulheres uma noção particular do seu lugar na história”.

Em mais de 300 páginas, a produção faz um apanhado histórico do movimento, contando desde as primeiras citações, que ocorreram em 1700, quase 200 anos antes de o feminismo ser considerado uma corrente, até a atual quarta onda, ainda em curso na sociedade. Para reunir uma pesquisa tão elaborada, o livro conta com diferentes autoras em uma equipe formada apenas por mulheres, como a professora de estudos de gênero da Universidade de Melbourne Hannah McCann, que é a editora consultora do livro. “Os colaboradores da edição são profissionais com os quais trabalhamos frequentemente. Neste caso, foi natural que todas as pessoas envolvidas no projeto – com exceção do editor responsável pela coleção – fossem mulheres”, conta a assistente editorial Lara Berruezo.

Com autoras de diversas nacionalidades e com diferentes experiências, o livro tem dois capítulos escritos por uma brasileira, feitos especialmente para a edição lançada no Brasil. “A consultora (brasileira) escolhida para esta obra, Beatriz Accioly Lins, é antropóloga, com pesquisa em andamento sobre gênero e sexualidade, com foco na Lei Maria da Penha. Sob sua redação constam dois capítulos exclusivos para a edição do livro no Brasil – um deles justamente sobre a Maria da Penha”, diz o editor Lucas de Sena Lima.

ESPECIALISTA A ideia desse conteúdo exclusivo para o público brasileiro veio durante o processo de criação do material. “No início da produção, com a estrutura definida, eles (a editora inglesa, responsável pela produção da coleção) nos consultam para opinar sobre os tópicos. Quando o texto final chega em nossas mãos, efetuamos uma leitura ao lado de um especialista para analisarmos se há algum tipo de adaptação necessária ao nosso leitor, ou algum capítulo exclusivo que possa ser desenvolvido”, diz Lara.

Com um texto acessível, fácil e que referencia pensadoras, historiadoras e ativistas, O livro do feminismo divide o tema em seis grandes assuntos, separados por período histórico, que dão norte aos capítulos: o nascimento do feminismo (século 18 e início do 19); a luta por direitos iguais (1840 a 1944); o pessoal é político (1945 a 1979); a política da diferença (anos 1980); uma nova onda emerge (1990 a 2010); e combatendo o sexismo nos dias de hoje (2010 em diante). “Acreditamos que nossa coleção possa contribuir para o debate atual com o que há de mais recente no pensamento sobre as áreas abordadas. Dessa forma, ela se propõe a ser o mais atualizado possível sobre a história do pensamento feminista”, diz o editor Lucas de Sena Lima.

A jornalista Marli Gonçalves fez um trabalho similar em derrubar clichês e mitos em Feminismo no cotidiano — Bom para mulheres. E para homens também..., da Editora Contexto, que está disponível para venda nas lojas físicas e on-line e terá um lançamento oficial na próxima terça-feira (20), na capital paulista. Em 160 páginas, a ativista fala sobre a vida das mulheres no Brasil para retratar o feminismo de modo geral. “É um livro muito simples. Quis falar do dia a dia do Brasil, do sistema de saúde, das leis que existem e não são cumpridas, do comportamento machista que é preciso modificar. Não fico citando autores, sentei e escrevi. Falo do feminismo, de onde ele veio, onde ele está, das diversas nuances que ele tem”, conta.

Marli é editora do site Chumbo Gordo e integrou o primeiro jornal feminista do país, Nós mulheres. Ela escreveu o livro a convite. Depois de lançar Filosofia do cotidiano – Um pequeno tratado sobre questões menores, de Luiz Felipe Pondé, a editora decidiu que o feminismo seria o tema para o segundo livro da coleção. Daí veio o nome da paulista, que tem envolvimento com o movimento feminista desde a adolescência. “Fui muito livre, falei do feminismo que eu vivo desde 1975, quando ainda estava na faculdade. O mais triste é perceber que, em 2019, houve avanço, mas as mulheres ainda passam pelos mesmos problemas o tempo inteiro. É uma luta constante, por isso tem muito a ver com o nosso cotidiano”, afirma.

HOMENS Saúde, direitos reprodutivos, violência contra a mulher, depressão e feminicídio são alguns dos temas abordados por Marli, que fez questão de fazer uma obra que fosse acessível tanto aos homens quanto às mulheres. “O feminismo é a luta pela igualdade. Se os homens não conhecerem a luta, eles não vão entender. As pessoas têm que parar de achar que feminista é a mulher toda cheia de pelos, que feminismo é xingamento. O movimento feminista ficou muitas vezes escanteado. A gente sempre tem que esperar, ficar na gaveta. Mas o feminismo é muito simples, é isso aqui que a gente vive todo dia. É fundamental esse movimento das mulheres dando as mãos. Então eu quis trazer o simples para ser compartilhado, para as pessoas pararem para ler o que as mulheres têm a dizer.”

''As pessoas têm que parar de achar que feminista é a mulher toda cheia de pelos, que feminismo é xingamento. O movimento feminista ficou muitas vezes escanteado. A gente sempre tem que esperar, ficar na gaveta. Mas o feminismo é muito simples, é isso aqui que a gente vive todo dia. É fundamental esse movimento das mulheres dando as mãos'' Marli Gonçalves, autora de Feminismo no cotidiano - Bom para mulheres. E para homens também...



Feminista convicta

A norte-americana Melinda Gates demorou para se admitir feminista. A presidente da fundação filantrópica Bill e Melinda Gates precisou rodar o mundo vendo diferentes situações de repressão enfrentadas pelas mulheres para, de fato, se enxergar feminista. É isso que a ex-funcionária da Microsoft compartilha no livro O momento de voar – Como o empoderamento feminino muda o mundo, da Editora Sextante. Em um dos capítulos do livro, ela fala sobre o assunto que a motivou a escrever a obra: “Vinte e dois anos depois (da primeira vez em que lhe perguntaram se era feminista), posso dizer que sou uma feminista convicta. Para mim é muito simples. Ser feminista significa acreditar que toda mulher deveria poder ter voz própria e buscar a realização de seu potencial. Também significa que mulheres e homens deveriam trabalhar juntos para derrubar barreiras e acabar com os preconceitos que ainda impedem o avanço das mulheres”.

A partir dessa convicção, Melinda escreveu o livro, em que divide com o leitor a experiência de como o trabalho filantrópico a modificou e a levou a entender as diferentes perspectivas femininas. Por meio de histórias de pessoas com quem conviveu e das próprias experiências, a autora aborda a importância de métodos contraceptivos na saúde, no planejamento familiar e na vida das mulheres – a principal causa de morte entre jovens de 15 a 19 anos em todo o mundo é o parto, como mostra o livro –; as ações que combateram o trabalho não remunerado (que faz a mulher ter barreiras para avançar e aumenta a desigualdade) e o casamento infantil; a luta pela presença das meninas nas escolas, nas universidades e no mercado de trabalho, além de compartilhar o que ela mesma viveu ao integrar um meio majoritariamente masculino, o da informática.

Para Melinda, repartir esse tipo de conhecimento é o que leva ao empoderamento feminino, como ela diz no capítulo Minha grande ideia que faltava: investir nas mulheres. “Há alguns anos, na Índia, visitei grupos femininos de autoajuda e percebi que as mulheres empoderavam-se umas às outras. Vi mulheres elevando umas às outras. E vi que tudo começa quando as mulheres passam a conversar entre si.” 

Feminismo no 
cotidiano — Bom 
para mulheres. E 
para homens também...
• Marli Gonçalves
• Editora Contexto (160 págs.)
• R$ 33 (versão impressa) e R$ 28 (e-book)


O livro do 
feminismo — As 
grandes ideias de 
todos os tempos
• Vários autores
• Colaboração: Hannah McCann
• Tradução: Ana Rodrigues
• Globo Livros (352 págs.)
• R$ 59,90


O momento de voar — 
Como o empoderamento
 feminino muda o mundo
• Melinda Gates
• Tradução: Alves Calado
• Editora Sextante (240 págs.)
• R$ 39,90 (versão impressa) e R$ 24,99 (e-book)


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