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"É o grito de independência de nossa literatura"

Primeira crítica de Grande sertão: veredas publicada pelo Estado de Minas foi assinada por Sergio Milliet e saudou o romance de Guimarães Rosa como "o acontecimento literário do século". Leia íntegra a seguir


postado em 24/02/2019 05:09

Guimarães Rosa é fotografado em sua viagem pelo sertão de Minas para a reportagem
Guimarães Rosa é fotografado em sua viagem pelo sertão de Minas para a reportagem "Um escritor entre seus personagens", publicada pela revista O Cruzeiro em 21 de junho de 1952 (foto: EUGENIO SILVA/O CRUZEIRO/ARQUIVO EM )


"Há livros que se gravam numa literatura e deixam esteira para sempre, assinalando uma revolução na língua e indicando um caminho a ser inevitavelmente seguido. Não são êsses livros pioneiros, que vão surgindo, de tempos em temos, compasso de espera, esquecidos por vêzes, demorando e frutificando ocasionalmente.

São os livros que realizam as tentativas anteriores e chegam na hora certa da mudança por todos aguardada. Não se volta mais atrás, então, e o que não lhe segue a rota apontada já nasce morto ou agonizante.

Nessa luta pela renovação de nossa língua, nessa procura de um vocabulário e, principalmente, uma sintaxe mais adequada ao nosso sentir e pensar, há que lembrar os velhos regionalistas, tão tímidos ainda, que “aspeavam” em suas frases portuguêsas as palavras colhidas nas bôcas sertanejas. Há que lembrar os que mais ousados foram, a seguir: os Oswaldo de Andrade, os Antônio de Alcantara Machado, os Mário Neme, os Jorge Amado e Lins do rêgo, já escrevendo como falamos, mas sem a visão de uma língua nacional, presos um pouco demais a suas províncias e a seus temas. Esses, entretanto, suprimiam as aspas e perceberam o problema. Há que lembrar, acima de todos os pioneiros, Mário de Andrade, uma primeira realização rica e expressiva, fiel e preciosa da nova língua.

Macunaíma será sempre o ponto de partida, o grande livro pioneiro da literatura brasileira. Até Mário de Andrade, ainda nos vestíamos à européia, ainda usávamos fraque sob o sol dos trópicos. Com êle encontramos uma roupa mais apropriada: estamos de brim agora e sem chapéu. E bem sentimos que vamos abandonar a gravata e adotar o “short”.

Mas aparece Guimarães Rosa. A princípio se ensaiando com Sagarana. Admiráveis exercícios de estilo, a que se seguem os não menos brilhantes de Corpo de baile. Brilhantes? Há algo pejorativo no vocabulário: risquemo-lo. E digamos que, com Corpo de baile, alcança o autor a autenticidade que todos buscávamos.

Mas com Grande sertão: veredas temos o grito de independência de nossa literatura. Depois dêste livro será preciso reescrever a gramática do português do Brasil. É de se imaginar com assombro o que sairá dessas páginas milionárias de invenção e observação, de poesia e de psicologia. Nelas irá faiscar o escritor brasileiro do futuro, e as águas do manancial são inesgotáveis de pepitas de excelente quilate.

Grande sertão: veredas é, sem dúvida alguma, o nosso grande acontecimento literário e linguístico do século. Está para a possível língua brasileira como a poesia de Villon ao findar a Idade Média. Nada mais tem a ver com os retóricos de então. Mas vai dar Ronsard e o resto.

Não é, porém, só pela língua, que êsse romance me parece excepcional. É também pelo conteúdo. A saga do jagunço, com sua épica e sua lírica, aí se nos oferece. E que lição discreta e honesta de sociologia! E como com ela vemos confirmado o que há de melhor em Euclides! Rejeitado o pedantismo científico, brilhante e falso, solapado o parnasianismo pesado e retumbante, fica o retrato expressionista do ‘homem forte’, como o definia o mestre.

Talvez se possa censurar a Guimarães Rosa certo barroquismo de expressão que contrasta com a aridez da paisagem e o primitivismo das almas. Não será o livro, analisado em suas minúcias, sem defeito. Mas cumpre encará-lo como um todo, um todo solidamente arquitetado, que recorda não raro essas igrejas de Minas, quase pobres por fora e por dentro pletóricas de ornatos e de ouros, com ingenuidades escultóricas e requintados painéis de civilizações exóticas. Também estranharão alguns a presença, no linguajar sertanejo, de vocábulos eruditos; se, porém, nos lembrarmos do pernosticismo característico dos indivíduos inteligentes mas de poucas letras, se pensarmos nos ‘ABC’ e em boa parte de nossa literatura de cordel, já fàcilmente se explicará a aparente anomalia.

Um livro como Grande sertão: veredas escapa ao juízo da crítica. É uma obra que se impõe com seu feitio intocável, sua mensagem total. Há quem não goste de Rabelais ou quem não aprecie Camilo. Eles são o que são. Guimarães Rosa, igualmente, é o que é.”




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