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Estado de Minas

Bia Lessa estreia em BH versão atualizada de 'Macunaíma'

Diretora faz montagem do clássico de Mário de Andrade com elementos de outras culturas e o contexto do Brasil atual


postado em 26/06/2019 04:09

A encenação tem 11 atores que permanecem todo o tempo à vista do público, como na instalação cênica de Bia Lessa para Grande sertão: veredas (foto: SILVANA MARQUES/DIVULGAÇÃO)
A encenação tem 11 atores que permanecem todo o tempo à vista do público, como na instalação cênica de Bia Lessa para Grande sertão: veredas (foto: SILVANA MARQUES/DIVULGAÇÃO)

“Ai, que preguiça!” Macunaíma já nasceu grande. A partir da primeira frase que proferiu, o personagem acabou se definindo. Preguiçoso, ardiloso, egoísta, o herói sem nenhum caráter foi apresentado ao mundo por Mário de Andrade (1893-1945) em 1928. Noventa e um anos mais tarde – e uma série de releituras e interpretações depois do romance maior do modernista – o personagem ganha uma versão mais universal.

“Ai, que preguiça do mundo como está” foi uma das frases que Bia Lessa utilizou como ponto de partida da encenação de Macunaíma, que estreia nesta sexta (28), no Centro Cultural Banco do Brasil, em Belo Horizonte. A montagem é a primeira parceria da encenadora com a trupe A Barca dos Corações Partidos, aqui lançando seu quinto espetáculo.

“Quem pensa que Macunaíma é só uma questão de ser do brasileiro está enganado. Ele vai muito além, fala do Brasil e do ser humano como um todo”, afirma Bia, que construiu o espetáculo a partir de muitas referências. “A montagem é, de fato, uma rapsódia. Peguei o folclore brasileiro, do índio, mas também o da Alemanha. São vários elementos de diferentes países, já que o romance é também uma colcha de retalhos de referências, não só nacionais, como internacionais.”

Tunga, Augusto e Haroldo de Campos, Glauco Matoso, Paulo Leminski, Caetano Veloso, Rita Lee, todos eles estão citados no espetáculo. “São muitas camadas e muitas riquezas, como se fosse uma cebola que se vai descascando e tem sempre uma rodelinha abaixo”, diz Bia. Trabalhando com A Barca desde novembro, a diretora diz que construiu um Macunaíma soturno. “Ele não é verde-amarelo. Olha o Brasil em que estamos. O espetáculo fala das questões e contradições, o máximo do otimismo e do pessimismo, como o próprio Mário disse.”

VIAGEM 

Assim como no livro, a peça acompanha Macunaíma desde o seu nascimento, em uma tribo na Amazônia, passando por sua viagem para o Sudeste, seu encontro com deuses e mitos, até seu retorno ao seu local de origem.

Macunaíma dialoga com a montagem anterior de Bia, o espetáculo-instalação Grande sertão: veredas, que estreou no fim de 2017. Mas esse diálogo se dá por meio da diferença. “Grande sertão tem ações e uma grande reflexão em cima delas. Já Macunaíma traz um fluxo constante de ações e não de pensamento”, ela pontua. No palco, este fluxo acaba sendo traduzido com o recurso de um plástico negro que vai se transformando, dando a ideia de um caos organizado. “Como em Grande sertão, não temos coxias, e os atores (11, sendo sete do grupo e quatro convidados) estão o tempo inteiro em cena.”

Foi a partir de um encontro de integrantes d'A Barca com o ator e diretor Cacá Carvalho que surgiu a ideia da montagem de Macunaíma. O paraense encarnou o personagem na clássica montagem de Antunes Filho de 1978. “Conversando com ele, nos demos conta da importância de levar este texto novamente para o teatro. Pensamos no nome da Bia, porque ela é uma diretora que trabalha muito com a imagem”, conta Andréa Alves, idealizadora do projeto e diretora de produção da montagem.

Após assistir a uma apresentação de Grande sertão, fizeram o convite oficial para que Bia assumisse o projeto. Convite esse que ela não respondeu de bate-pronto. “Participei de uma remontagem de Macunaíma com o Antunes como atriz nos anos 1980. Para mim, fazer a peça é estabelecer um diálogo com meu mestre”, conta Bia. Morto em maio passado, aos 89 anos, Antunes Filho chegou a ser consultado sobre a nova montagem “para ver se ele se sentia confortável”. Bia foi reticente com o projeto por não saber que caminho seguir. “Como tocaria nessa coisa do índio preguiçoso hoje em dia, num momento em que a gente já sabe que a coisa mais rica que o Brasil tem é a sabedoria indígena?”

O percurso começou a ser aberto pela dupla Verônica Stigger (a escritora foi a responsável pela adaptação do texto de Mário de Andrade) e o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, que trabalharam juntos em uma exposição sobre etnologia indígena. “Fomos trabalhando cotidianamente, levantando questões diárias e solucionando problemas. A solução acaba virando a encenação, e tudo vai sendo construído junto”, conta Bia.

MÚSICA

Grupo musical que nasceu no Rio de Janeiro em 2012 a partir da montagem Gonzagão – A lenda, A Barca dos Corações Partidos realiza com Macunaíma sua montagem mais complexa. Com todos os integrantes tocando e cantando em cena, a trupe musical vem se dedicando, há seis meses, exclusivamente à montagem – desde que o projeto teve início, o grupo deixou de lado apresentações de espetáculos de seu repertório.

“O processo de trabalho partiu de improvisos. A Bia não fez teste de elenco, mas uma oficina. Nem sabíamos direito que rumos o roteiro tomaria, mas, mesmo assim, algumas das músicas do espetáculo foram compostas naquele momento”, conta Beto Lemos, integrante do elenco e também diretor musical (função que divide com Alfredo Del-Penho). Para Macunaíma, foram criadas 70 músicas – entre canções e vinhetas. Cinquenta e cinco delas entraram na montagem.

“A Barca vem sempre ampliando os horizontes. Cada um (dos integrantes) busca seu próprio desafio. Eu, por exemplo, agora toco bateria também. São vários estilos musicais, sem preconceito. Temos canções em italiano, francês, iorubá, tupi e inglês que transitam dentro da tradição da música afro-brasileira. Mas há variações. Temos inclusive um heavy metal”, afirma Lemos.

Bia tirou o grupo de sua zona de conforto. Chamou o duo experimental O Grivo para fazer a música adicional. Assim como a própria diretora, Marcos Moreira e Nelson Soares demoraram a dizer sim para o projeto. “Ela nos chamou para fazer Macunaíma e pediu para assistir a uma peça que eles estavam fazendo em BH”, lembra Soares. Era Suassuna – O auto do Reino do Sol. “Marcos e eu fomos assistir à peça e depois ligamos para a Bia. 'Você está louca? Não faz o menor sentido, são coisas díspares'”, relembra Moreira. “Ao que Bia retrucou: 'Vocês são covardes'.” Pois depois dessa não teve jeito, o Grivo embarcou no projeto.

“O som tem duas camadas muito distintas. A Barca trabalha na linguagem da música popular, o Beto tem uma história de música no Nordeste, quase intervenção urbana, enquanto o Alfredo vem do samba. São linguagens mais tradicionais. Dessa maneira, foi um desafio imenso para A Barca e para O Grivo conviverem, tanto do ponto de vista de um texto muito denso, quanto da musicalidade. Mas fiquei impressionado em como organizamos elementos diferentes. É música o tempo todo, uma trilha que é uma brincadeira de estratégias possíveis”, acrescenta Moreira.

Além d'O Grivo, a ficha técnica do espetáculo traz ainda os mineiros Paulo e Pedro Pederneiras, que assinam a iluminação. Fazer a estreia nacional em Belo Horizonte tem um significado grande para Bia. “Tivemos um grau de empatia com a plateia de BH quando apresentamos Grande sertão, que foi algo extraordinário. Voltar agora com Macunaíma, também um clássico muito brasileiro, é emocionante.”

MACUNAÍNA – UMA RAPSÓDIA MUSICAL
De Mário de Andrade. Direção: Bia Lessa. Com A Barca dos Corações Partidos. Estreia nesta sexta (28), às 20h, no Teatro 1 do Centro Cultural Banco do Brasil, Praça da Liberdade, 450, Funcionários, (31) 3431-9400. De quinta a segunda, às 20h, até 14 de julho. Sessão extra na quarta (3) com acessibilidade. Duração: 180 minutos (com um intervalo). Classificação etária: 18 anos. Ingressos: R$ 30 e R$ 15 (meia).


"Ele (Macunaíma) não é verde-amarelo. Olha o Brasil em que estamos. O espetáculo fala das questões e contradições, o máximo do otimismo e do pessimismo, como o próprio (autor) Mário (de Andrade) disse”

. Bia Lessa, 
diretora


"O processo de trabalho partiu de improvisos. A Bia não fez teste de elenco, mas uma oficina. Nem sabíamos direito que rumos o roteiro tomaria, mas, mesmo assim, algumas das músicas do espetáculo foram compostas naquele momento”

. Beto Lemos, 
ator e diretor musical


"Foi um desafio imenso para A Barca e para O Grivo conviverem, tanto do ponto de vista de um texto muito denso quanto da musicalidade. Mas fiquei impressionado em como organizamos elementos diferentes. É música o tempo todo, uma trilha que é uma brincadeira de estratégias possíveis”

. Marcos Moreira, 
do duo O Grivo, que assina trilha adicional


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