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Dirigindo no escuro


postado em 03/05/2019 05:12

Arya (Maisie Williams) e o Rei da Noite (Vladimir Furdik) em cena decisiva do episódio (foto: Fotos: HBO/DIVULGAÇÃO )
Arya (Maisie Williams) e o Rei da Noite (Vladimir Furdik) em cena decisiva do episódio (foto: Fotos: HBO/DIVULGAÇÃO )


Fãs de Game of thrones se irritam com iluminação do episódio A longa noite, exibido no último domingo, e canal bate recorde de reclamações em site de defesa do consumidor. Fotógrafo da série defende tom realista
Pedro Galvão

“A noite é escura e cheia de terrores.” A frase em tom de profecia foi dita várias vezes ao longo da trama de Game of thrones pela personagem Melisandre, interpretada na TV pela holandesa Carice von Houten. No capítulo exibido no domingo passado (28/4), a sacerdotisa devota do Senhor da Luz mostrou qual era seu destino final na adaptação de As crônicas de gelo e fogo produzida pela HBO.

Porém, milhões de assinantes do canal tiveram dificuldades para ver o que acontecia no episódio mais grandiloquente da série e que marcou seu recorde de público em todas as temporadas – 17,8 milhões de espectadores nos EUA. Intitulado A longa noite, o episódio teve cenas de batalhas tão escuras que muita gente reclamou que não conseguia sequer saber quem estava morrendo. Há quem afirme, no entanto, que a escolha do diretor de fotografia por uma iluminação tão parca se justifica do ponto de vista da estética cinematográfica.

Seria o próprio enredo a razão pela qual a escuridão tomou conta de Game of thrones. As cenas mostraram o aguardado confronto entre o exército de mortos-vivos comandado pelo Rei da Noite (Vladimir Furdik) e as tropas lideradas pelos protagonistas Jon Snow (Kit Harington) e Daenerys Targaryen (Emilia Clarke).

A batalha ocorreu em um contexto bastante sombrio: à noite, durante o inverno e em meio à névoa provocada pela  movimentação de uma multidão de zumbis na neve. O diretor de fotografia do episódio, Fabian Wagner, defendeu a ausência de iluminação, dizendo que a ideia dos responsáveis pela série era criar cenas intensas, claustrofóbicas e desorientadoras, tal qual a situação que os personagens enfrentavam. As declarações foram feitas em entrevista ao portal norte-americano TMZ.

“Tentamos dar aos espectadores e fãs um episódio legal para assistir. Sei que não estava muito escuro,  porque eu o gravei”, afirmou Wagner, rechaçando as críticas de que a escuridão havia escapado ao controle da equipe. No entanto, Wagner fez a ressalva de que Game of thrones “sempre foi uma série muito escura e cinematográfica e que por isso deve ser assistida em uma sala escura, como um filme”. Além disso, o diretor de fotografia, também responsável por episódios amados pelos fãs como Hardhome e A batalha dos bastardos, alertou que assistir via streaming, com uma conexão ruim, de fato pode ocasionar problemas na qualidade da imagem. No entanto, mesmo quem assistiu pelo sinal digital da operadora relatou dificuldades para compreender algumas cenas.

O diretor do episódio, o britânico Miguel Sapochnik, que venceu um Emmy em 2016 pela direção do episódio A batalha dos bastardos,disse que decidiu dar “um passo além” e concebeu A longa noite numa estrutura de três atos em que cada um corresponderia a um gênero diferente. “Então, basicamente, o primeiro ato é suspense. O segundo ato começa quando Arya entra no castelo e é um filme de horror. E o ato três é um filme de ação”. Na entrevista ao Daily Mail, Sapochnik disse que “a mudança de gêneros nos permitia imprimir ritmos diferentes” e afirmou que a preocupação principal era com o conjunto e não com trechos específicos do episódio.



QUEIXAS

No Twitter, muitos espectadores reclamaram da nitidez da imagem em várias partes do mundo, descrevendo manchas e pixelização. No site Reclame Aqui, dedicado a registrar queixas contra empresas e serviços em geral, a HBO Brasil bateu seu recorde (negativo) no último domingo: 698 reclamações, apenas nas duas primeiras horas após a exibição.

Além da qualidade da imagem, boa parte das queixas eram sobre o funcionamento do serviço de streaming HBO GO, cuja assinatura custa R$ 34,90 mensais. Muitos usuários relataram problemas na transmissão, lentidão e travamento no sistema na hora em que o episódio foi liberado na plataforma. Procurada pelo Estado de Minas, a HBO Brasil disse não ter ainda nenhum pronunciamento oficial sobre o assunto.

Na opinião de quem é especialista em produção audiovisual, levar em conta as múltiplas maneiras que o público pode assistir ao produto deve ser uma preocupação dos realizadores. Joana Oliveira, diretora, roteirista, professora de narrativas seriadas e coordenadora do curso de cinema e audiovisual da UNA, defende a escolha estética da direção de fotografia, mas acredita que ela foi “ousada demais”, por um aspecto.

“Foi uma proposta artística, uma mão autoral, o que é muito legal para a televisão, mas deveriam ter levado em conta que não controlam como a edição é assistida pelo espectador”, diz Joana, referindo-se ao fato de que a série pode ser vista pela TV, computador, celular, entre outros dispositivos de diferentes configurações e variações de sinal.

“Se tem algo que esse pessoal já provou é que eles sabem filmar, mas são escolhas autorais”, diz a professora, rebatendo as críticas de que o efeito da escuridão seria um erro dos realizadores. Ela explica como esse tipo de decisão é tomada em uma produção. “A direção de fotografia traduz em luz o que se lê no roteiro. O enquadramento é definido pela direção principal, mas a técnica artística de pensar a luz como parte da narrativa é da fotografia. É uma função de enorme importância em uma produção operada por uma grande equipe, responsável pelo nível de luz que a cena terá, assim como as cores”, diz.

Joana exemplifica como isso é feito. “Produções como Game of thrones são filmadas em modo flat, em que há possibilidade de se trabalhar com a cor de forma infinita. Por isso as cenas passadas em Winterfell mostram tonalidades mais frias, enquanto em Essos elas são mais vibrantes e amareladas. São decisões que passam pela semiótica. Direção de fotografia é uma profissão artística, é preciso estudar e entender a história da arte, conhecer, por exemplo, como as fontes de luz foram usadas nas pinturas historicamente”, aponta.

Joana Oliveira considera que o episódio apresentou algumas cenas “geniais” dentro da proposta da direção de fotografia, embora outras tenham sido, de fato, “escuras demais” na experiência dela. “Por ser uma série que conquistou o público, ela dá independência aos produtores para fazer algo diferente. Apenas faltou algum bom senso sobre o espectador final, pois estamos falando de consumo de massa. Nem sempre as telas serão tão boas. É preciso trabalhar com uma segurança técnica ao levar em conta as diversas possibilidades de modos de assistir. Essa linha entre artístico e técnico tem que ser mais segura para nunca frustrar o espectador. O que uma série quer é justamente a lealdade dele”, afirma.

De acordo com a revista norte-americana Entertainment Weekly, A Longa Noite, orçado em pelo menos US$ 15 milhões (R$ 59 milhões), envolveu cerca de 750 pessoas nas gravações, realizadas durante 55 noites e sob temperaturas próximas de 0oC.


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