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Estado de Minas

CORRENTEZA DE SENTIDOS

Grupo Batatas e Carambolas adapta A terceira margem do rio, de Guimarães Rosa, com o espetáculo Não é nada disso!, que tem sessões hoje e amanhã, no Galpão Cine Horto


postado em 23/03/2019 05:09

O casaco vazio simboliza o pai ausente na encenação da história do homem que deixa a família para viver na água(foto: Davidson Rocha/Divulgação)
O casaco vazio simboliza o pai ausente na encenação da história do homem que deixa a família para viver na água (foto: Davidson Rocha/Divulgação)

Em A terceira margem do rio, conto publicado no livro Primeiras estórias, de 1962, Guimarães Rosa conta sobre um pai que abandona a família para viver em um rio, dentro de uma canoa. A história é narrada por um dos filhos do personagem. Apesar de seus quase 60 anos, a temática pode ser bem representativa nos dias de hoje, como mostra o grupo teatral belo-horizontino Batatas e Carambolas, que estreia o espetáculo Não é nada disso!, neste sábado (23), no Galpão Cine Horto.

Escrito por Cesar Macedo, o texto é livremente inspirado na obra de Rosa. O diretor Lucas Emanuel explica que a proposta da companhia é inserir o conto em uma dramaturgia contemporânea. “Em primeiro lugar, reconhecemos as unidades de entendimento desse texto. Acredito que a maior marca dele é a temporalidade fluida. Como o filho mais novo conta as memórias da família, essa lembrança não é cronológica. Minha preocupação foi reconhecer unidades de tempo e espaço, para então montar nossa peça”, afirma.

No palco, o grupo apresenta a trama contada por Dito, um dos filhos do homem desaparecido. O próprio nome do jovem é uma alusão à forma de oralidade usada por ele para trazer recordações do pai, cujo paradeiro é misterioso. “Quis deixar marcado esse desmoronamento e as memórias se apagando”, afirma Emanuel. Segundo ele, o título do espetáculo se justifica por essa ideia da lembrança que não é tão clara na reconstrução do passado. “É a incerteza que, ao mesmo tempo, é uma afirmativa. Esse personagem conta a trajetória de uma família, mas tem o poder de forjá-la, de recontar, de aumentar. Seu próprio nome é um trocadilho com a ideia de ‘dito pelo não dito”, argumenta o diretor.

AUSÊNCIA Além das falas, e das interações dele com os irmãos e com a mãe, as reminiscências em cena são complementadas por uma cenografia conceitual, que reúne objetos que remetem ao pai ausente. O principal deles é um casaco “vazio”. “Procuramos ressaltar as imagens do texto por meio de objetos simbólicos. Tem a água, temos o símbolo forte no palco que é o arroz. Ele representa a fertilidade, o casamento, o dia a dia da família brasileira. Outro é a vela, que possui uma camada ritualística, para contar essa história de uma família que vai se deteriorando”, exemplifica, dizendo ainda que “há várias possibilidades de justificativa para a ausência do pai – a morte, o vício, o abandono –, tudo de forma muito poética.”

Além dos aspectos cenográficos e textuais na livre adaptação da obra de Guimarães Rosa, a peça leva também ao palco a discussão sobre o abandono parental. “Além de pensar no pai de A terceira margem, pensamos em aproximar essa paternidade da gente. Estudamos os arquétipos de pai, mãe, filho, e como isso estava relacionado à nossa história particular como artistas e seres humanos. É um tema muito presente numa micropolítica nossa, porque também temos nossas histórias de pais que foram distantes”, revela Lucas Manuel, lembrando que “aprimorar esse assunto” na peça era uma das preocupações do grupo, fundado em 2013 dentro do Módulo de Criação do Galpão Cine Horto.

Não é nada disso!
Sábado (23), às 21h, e domingo (24), às 19h. Galpão Cine Horto. Rua Pitangui, 3.613, Horto. R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia-entrada), à venda no site Sympla e no local. Informações: (31) 3481-5580.


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