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Doces lembranças

Santa Luzia comemora hoje seu 327º aniversário


postado em 18/03/2019 05:12

Imagem de Santa Luzia, a padroeira da cidade, tesouro do Santuário(foto: Livia Andrade/Esp.EM/D.A Press)
Imagem de Santa Luzia, a padroeira da cidade, tesouro do Santuário (foto: Livia Andrade/Esp.EM/D.A Press)
Não são poucas as pessoas que acreditam que o aniversário de Santa Luzia é em 13 de dezembro, o dia da padroeira da cidade. O dia, mesmo, é hoje, 18 de março, quando os luzienses estarão comemorando seus 327 anos. Minha família é parte dessa história, desde que aportou no pequeno povoado Maria Alexandrina de Almeida, a baronesa que se casou duas vezes, primeiro com Manoel Ribeiro Vianna, um figuraço, que foi um dos fundadores do Banco do Brasil e construtor do primeiro teatro da cidade, raridade que só existia em Ouro Preto. E lá estreou uma ópera de que nunca ouvimos falar, Eneas em Getulia. Eles se casaram um mês depois de se conhecer. O segundo casamento da baronesa foi com Quintiliano Rodrigues da Rocha Franco.

Outra coisa que a cidade deve a ela e a seu primeiro marido é o Hospital São João de Deus, aberto em 2 de abril de 1840. Está há vários anos sem funcionar por causa do desvio de verbas, que sumiram nos meandros políticos. Ali está outra tradição, uma vez que passaram por lá praticamente todos os médicos da família (como meu pai) e vários priores. Atualmente, não são poucos os integrantes da nossa família que fazem parte da Irmandade da Misericórdia de João de Deus, que controla o hospital e da qual, com muita honra, sou um dos membros.

Gosto dessas histórias antigas e da cidade onde passei uma boa parte da minha infância, pés no chão subindo e descendo a Rua Direita, pés no chão subindo nas árvores dos quintais da família, jabuticabeiras aos montes, laranjas, mexericas, algumas uvas, mangas em profusão e até um insólito pé de pera – que, até onde sei, nunca deu uma só fruta. Provei todas as alegrias das barraquinhas no adro da igreja, que vendiam gostosuras que nós, crianças, não tínhamos dinheiro para comprar.

Mais “taludinha”, aproveitava a chegada dos primos que vinham da capital e se amontoavam na casa dos parentes para passar os feriados da semana santa, que, naquela época, durava uma semana mesmo. Colchões no chão completavam a falta de camas, que não chegavam para todos. A moçada que vinha de fora adorava os longos papos em frente ao bar em frente à igreja, consumindo muita cerveja em rodadas de cachacinha antiga, de barril, servida para poucos.

Na semana santa e nos feriados religiosos, a cidade inteira se cobria de fé. As procissões desciam pela Rua Direita, com os homens mais fortes carregando os andores, que muitos disputavam. A veia artística de minha mãe pintou um véu para Verônica limpar o rosto de Cristo na sexta-feira da Paixão. Sempre pesquisei para ver se o encontrava, mas nunca consegui. Como também jamais consegui colocar a coroa em Nossa Senhora, nas coroações de maio. O máximo foi colocar uma palma... Também, anjo de cabelos escuros sem cachos, como eu, ninguém queria. Apesar das lindas asas com penas brancas, feitas em casa, perfeitas. As coroações eram grandes acontecimentos e, no fim, os “anjos” participantes ganhavam de presente um cartucho de amêndoas, tradição luziense mantida até hoje. Como eram cultivados os doces de Preta e Pequenina, os canudos de doce de leite que foram agradar ao paladar de Lady Di em Londres, enviados por Lúcia Flecha de Lima.

A cidade era mesmo risonha e franca, sem portas fechadas, todos se conheciam e se frequentavam. As horas de refeição provocavam uma verdadeira correria de casa em casa, provávamos o melhor que vinha à mesa. A única geladeira da cidade estava em casa de uma prima, Vó Lisa, uma sofisticação só. A sala de visitas na frente era coberta por papel de parede francês, a sala de jantar tinha toalha de veludo vinho até no chão e vaso de amor-agarradinho rosa no centro da mesa. E a sala-biblioteca dava para a linda varanda. Foi onde vi, pela primeira vez, um livro em francês, de Pierre Loti.


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