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Psi: Brumadinho: tragédia anunciada há anos, em versos de Drummond


postado em 03/02/2019 05:04

Na semana inteira, assistimos ao ato heroico dos bombeiros de Minas, funcionários públicos com salários atrasados, buscando corpos asfixiados e sem vida depois de soterrados e arrastados pelo mar de lama. A onda de lama não pode ser contida, ninguém pode fazê-la parar, nem a poderosa Vale.

A poderosa Vale explora os arredores da nossa cidade, escava, esburaca, acaba com as montanhas de Minas. Antecipávamos a devastação da Serra do Curral, hoje uma casquinha que enfeita a cidade ali no alto do Mangabeiras.

Perguntava-me por que tão próximo da cidade, por que não em terrenos distantes? Logo percebo minha ingenuidade. Mais distante a escavação, mais cara. E com a retirada das montanhas, essa lama toda nos alcançaria de qualquer modo. Lembrou-me o Vesúvio, que carbonizou toda a população de Pompeia... Ainda temos muitas barragens, muitos “vesúvios” para nos transformar em guerreiros de terracota.

Não estamos todos, agora, afetados pela lama em que foram transformadas nossas montanhas? Nosso clima ameno mudou, aqui vivíamos protegidos por elas e agora somos áridos, secos, quentes. O excesso de asfalto, o crescimento da cidade sem planejamento e o desmatamento colaboraram grandemente.

Naquela época, sabíamos que seria difícil conter o movimento, pois a riqueza das montanhas vendidas também gerou empregos, lucros, impostos. Um poder que atiça no homem a quebra de toda contenção, equilíbrio e capacidade de temer. O medo nos faz cautelosos, mas o dinheiro nos torna poderosos e destemidos. O resultado é desastroso. Não que o dinheiro seja, em si, coisa ruim. O problema é a cobiça, a incapacidade de distribuir, a insensibilidade para com o invisível, com quem tem menos ou nada.

Desde cedo, previmos o perigo, como também Carlos Drummond de Andrade, tocado pela frase do adesivo que circulava nos carros nas décadas de 1980/90: “Olhe bem as montanhas”. Manifesto que se tornou poema. Circula nas redes sociais nos últimos dias, foi publicado em 1984 no jornal Cometa Itabirano e não chegou aos livros. Em seu estilo simples, direto, franco e verdadeiro:

O Rio? É doce./ A Vale? Amarga./ Ai, antes fosse/ Mais leve a carga.

Entre estatais/ E multinacionais,/ Quantos ais!

A dívida interna./ A dívida externa/ A dívida eterna.

Quantas toneladas exportamos/ De ferro?/ Quantas lágrimas disfarçamos/ Sem berro?

É muito propício para os dias de hoje. Lamentavelmente, essa tragédia foi anunciada há mais de trinta anos. Tivemos outra chance, desde Mariana. Qual o quê!! Quem quer gastar mais quando pode não fazê-lo?

As multas de Mariana estão na Justiça. A Vale/Samarco tem o desplante de adiar os pagamentos com recurso sobre recurso. Onde estão nossas autoridades? Nossos defensores, nossa Justiça? Insensível, comprada, entorpecida? Estas, sim, salários em dia, não sujam as mãos nesta lama. Talvez em outra.

A pergunta que não quer calar: por que o governo, as autoridades que deveriam proteger a sociedade e nos representar, tudo fazem contra nós e o contrário do que esperamos? Estão a favor de si próprios e contra o povo? Parece ensaiada a trapalhada que temos visto repetidamente durante tantos anos...


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