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Estado de Minas COMPORTAMENTO

Amor-próprio tem a ver com afetos recebidos e não se autodepreciar

O amor-próprio é pautado em amar quem você é, o que inclui pontos negativos e positivos, falhas e acertos, o que é difícil e o que é fácil


11/07/2021 04:00 - atualizado 08/07/2021 12:57

Cobranças internas e externas podem desencadear a autodepreciação e anular o amor-próprio(foto: S. Hermann & F. Richter/Pixabay )
Cobranças internas e externas podem desencadear a autodepreciação e anular o amor-próprio (foto: S. Hermann & F. Richter/Pixabay )


Como diz o dito popular, 'a gente dá o que tem'. Os afetos precisam ser recebidos, aprendidos e apreendidos por cada pessoa para, então, ser reconhecidos em si mesmo e compartilhados com outros. É uma troca fundamental.

Vamos refletir: quando nasce um ser humano, se não há alguém que o alimente, o limpe, o mantenha aquecido, hidratado, que olhe por ele, que troque afetos, que cuide… ele morre. Um bebê não sobrevive sozinho. E essa nossa dependência de outras pessoas é longa.

É necessária uma dedicação grande pelos dois primeiros anos e, mesmo ganhando autonomia com o tempo, essa primeira infância, que vai até por volta dos 7 anos, ainda necessita de atenção e cuidados. "As relações e interações formadas entre a criança e seus cuidadores irão influenciar, e muito, nessa autorreferência, nesse autorreconhecimento e, claro, no gostar ou não de si mesmo”, diz a psicóloga Haline Terra, especialista em psicologia analítica.

Com a experiência como terapeuta e embasada nas psicologias sistêmica, analítica, existencial, na psicanálise, Haline Terra alerta que são tantas psicologias e tantos tipos de seres humanos que é impossível trazer uma resposta única e considerada “a correta” sobre o ato de se amar, se gostar, se valorizar. Há tantas contradições (ou não) que muitas pessoas acreditam que têm que se punir para mudar.

“De uma maneira geral, a autopunição vem de uma necessidade de controle. O olhar dessas pessoas tende a estar mais voltado a 'como eu deveria ser' (ideal) que a 'quem eu sou de verdade' (real). A questão é que se usamos o tempo, a energia física, psíquica e emocional para essa mudança exigida, seja pela expectativa da família ou do meio social. Trata-se de uma mudança direcionada para algo idealizado. Se essas pessoas não conseguem o 'ideal', se punem. O grande problema é que nem sempre o que é idealizado é realmente necessário. Por isso, se conhecer, saber quem é, saber o que deseja, o que é significativo de fato para si mesmo é tão importante. É esse autoconhecimento que pode dar fim à autopunição e conseguir fazer com que se abra mão do controle. Saber que não temos o controle de quase nada pode ser muito libertador.”

O PESO DA COMPARAÇÃO 


Psicóloga Haline Terra avisa que é impossível trazer uma resposta única sobre o ato de se amar, se gostar, se valorizar porque há tantas contradições(foto: Arquivo Pessoal)
Psicóloga Haline Terra avisa que é impossível trazer uma resposta única sobre o ato de se amar, se gostar, se valorizar porque há tantas contradições (foto: Arquivo Pessoal)
Na sociedade atual, há pressão para sermos cada vez melhores, produzir mais, ter destaque, ser reconhecidos/premiados, além da relativização causada pelas redes sociais. Cobranças internas e externas que podem desencadear a autodepreciação. Segundo a psicóloga, aí estão vários exemplos do que pode acontecer com cada um de nós se o olhar estiver direcionado apenas para fora.

E há uma grande responsável por todas essas consequências: a comparação. “Fulano já produziu isso”; "Sicrano já viajou pra tal lugar”; “Olha o prêmio que fulano ganhou!”; “E aí? Você se formou? Está trabalhando? Ganhando bem? Está namorando? Quando ficarão noivos? E o casamento? Já têm filhos? Só um???”; e por aí vai…

De uma maneira geral, a autopunição vem de uma necessidade de controle. O olhar dessas pessoas tende a estar mais voltado a 'como eu deveria ser' (ideal) que a 'quem eu sou de verdade' (real). Saber que não temos o controle de quase nada pode ser muito libertador

Haline Terra, psicóloga



São questões pelas quais todos passamos e, se ficarmos refém das comparações, dificilmente conseguiremos ficar satisfeitos. “Daí vem todo tipo de autodepreciação, cobrança exagerada e críticas sem fim. Mais uma vez, é importante se conhecer, saber das próprias qualidades, das limitações, dos desejos pessoais, para não cair nesse ciclo vicioso e se perder, acabar fazendo apenas o que te dizem ser bom e não descobrir o que realmente tem valor para você”, enfatiza a psicóloga.

 
FALHAR FAZ PARTE DA VIDA  


Por outro lado, ser duro consigo mesmo, em alguns momentos, pode ser necessário, já que às vezes falhamos sabendo que podíamos ser melhores. Para Haline Terra, isso significa ser duro, mas no sentido de ser firme. Isso é um sinal de maturidade, de conseguir “segurar o tranco”.

Se formos condescendentes demais conosco, não sairemos do lugar. Crescer, conquistar, realizar, concretizar exige firmeza interior, psíquica, que impulsiona à ação, para o movimento positivo. Isso não pode ser confundido com autoritarismo sem medida, sem reflexão e sem flexibilidade.

“Falhar faz parte de qualquer processo na vida. Não somos perfeitos. Ficar apenas chorando e lamentando pela falha, ou se punir, xingar e se maltratar são dois opostos que paralisam qualquer chance de crescimento, seja no âmbito pessoal, profissional, ou nos relacionamentos. Portanto, uma dica para achar o equilíbrio é perceber, estar atento a como e o quanto estamos caminhando, nos movimentando. E aí estar atento ao próprio corpo pode ser bem interessante, já que ele nos conta, nos mostra como estamos. Você consegue perceber e escutar o seu corpo?”

LIVRE PARA MALTRATAR E AMAR 


Muitas vezes, o chavão de amar você antes de tudo e todos é mal interpretado. Para Haline Terra, antes de mais nada, é necessário distinguir amor-próprio de egoísmo. “Gosto da definição de egoísmo do dicionário: 'É um amor exagerado aos próprios interesses a despeito de outrem. Exclusivismo que leva uma pessoa a se tomar como referência a tudo; orgulho, presunção’. Ou seja, no egoísmo, o ego da pessoa é o centro do universo, ela não consegue olhar nem considerar quem está ao seu redor.”

Segundo ela, essa autorreferência tende a deturpar a realidade e impede relacionamentos, quaisquer que sejam, verdadeiros. Só um ponto de vista é aceito: o da própria pessoa, e só o que ela consegue ver. É um olhar extremamente limitado. Já o amor-próprio é pautado em amar quem você é com todo o seu coração, de toda a sua alma e com a capacidade do seu entendimento. Isso inclui os pontos negativos e positivos, as falhas e os acertos, o que é difícil e o que é fácil.

“O amor-próprio diz da capacidade de nos reconhecermos humanos, com tudo o que isso implica. É um olhar extremamente amplo. Por isso a fala de Cristo 'ame o seu próximo como a si mesmo' é tão potente: só somos capazes de amar o outro se amarmos a nós mesmos, se reconhecermos o outro em nós mesmos.”

Para a psicóloga, conquistar o amor-próprio implica crescer, amadurecer, ampliar a visão, ganhar consciência sobre si mesmo e sobre os outros. “Então, o que é importante de fato, o que realmente pode fazer a diferença é se observar, verificar sua postura diante de si mesmo e do outro, perceber e celebrar esse amadurecimento. Esse caminho não é nada simples, muito menos fácil. Mas é um caminho capaz de gerar mais empatia e compaixão entre nós, seres humanos, atitudes extremamente necessárias para nos relacionarmos de forma saudável.”

COMO SABER SE VOCÊ ESTÁ SE MALTRANTANDO? 

Coach Luzia Costa dá dicas de como saber se está vivendo uma relação abusiva com você mesma(foto: Fernando Capellato Fotografia/Divulgação )
Coach Luzia Costa dá dicas de como saber se está vivendo uma relação abusiva com você mesma (foto: Fernando Capellato Fotografia/Divulgação )


A coach Luzia Costa, empreendedora, mentora e CEO do Grupo Cetro, tem como propósito transformar vidas por meio do empreendedorismo. “Engraçado como essa pergunta faz sentido. A primeira coisa que pensamos é: 'eu me maltratar? Imagina, não tem ninguém que me ama mais do que eu”. E aí, ficamos apostando somente em palavras de afirmação, como eu me amo, eu me cuido, eu me aceito, falando de relacionamentos abusivos à minha volta, enquanto na verdade estou sofrendo maus-tratos o tempo todo por mim mesmo. Como saber se estamos vivendo uma relação abusiva com nós mesmos? Foi pensando nisso que separei 10 dicas.”

1 – Você se maltrata quando se compara com outra pessoa. “Lembre-se: comparação não tem a ver com se inspirar. Quando se inspira em alguém, passa a espelhar coisas boas, quando se compara, entra em um julgamento pesado. Porque que isso é perigoso? Quando se compara com outras pessoas, começa a se sentir inferior e a gerar uma necessidade de aceitação absurda dentro de você mesmo”.

2 – Você se maltrata quando dedica mais tempo a um estranho do que às pessoas que ama. “Quando perde tempo com reuniões demoradas, que poderiam ser otimizadas, viagens desnecessárias, que poderiam ser resolvidas a distância. Tente se planejar para ter mais tempo para passar ao lado de quem realmente lhe faz bem. Isso irá lhe ajudar a ter uma vida mais prazerosa.”

3 – Você se maltrata quando diz frases como “nossa como sou burro”; “não consigo”; “sou feio”. “Complicado, não é mesmo? Então reflita: se não conseguiria ouvir isso de outra pessoa sem se sentir ofendido, porque você pode falar então? Por mais que não perceba, seu subconsciente absorve esses xingamentos, e em algum momento vai externar isso, que vai acabar lhe prejudicando nos relacionamentos.”

4 – Você se maltrata quando tem dúvidas da sua identidade. “Quando deixa as pessoas te definirem pelo que tem e faz, deixa as pessoas gerarem em você o sentimento de obrigação, em ter que fazer certo o tempo todo. Lembre-se: o que tem não lhe define, seu trabalho não te define, sua conta bancária não te define. Sua verdadeira identidade tem a ver com o que você transfere de verdade com o que está dentro de você.”

5 – Você se maltrata quando não tira um tempo para aprimorar seus dons e talentos. “Tem pessoas que nascem com um dom incrível, e por ter nascido com ele, vive em um piloto automático, porque isso gera a facilidade, assim não investe em desenvolver os talentos, porque acredita que irá fazer somente o que tem dom, então não se desafia.”

6 – Você se maltrata quando aceita os relacionamentos tóxicos a volta. “Os relacionamentos tóxicos existem em todo lugar, então é importante saber identificar para não achar que isso é comum. Tem pessoas que são sanguessugas, e o tempo todo estão a sua volta por puro interesse. Não é algo só por interesse financeiro, mas com sugar suas energias com discussões por assuntos desnecessários, querer que diga o que ela tem que fazer no trabalho, aquela pessoa que ocupa demais do seu tempo te tornando improdutiva, que reclama demais, que nunca está satisfeito com nada. Tome cuidado, porque isso faz muito mal para o seu psicológico.”

7 – Você se maltrata quando não reconhece que precisa de ajuda. “Tem momentos que passamos por situações que sozinhos não vamos conseguir resolver. Nessa hora precisamos reconhecer que é necessária ajuda. Pode ser por meio de uma conversa em um café com um amigo, um bate-papo de desabafo com seu líder, em uma sessão de terapia, mas precisa colocar para fora alguns sentimentos ou situações que estão desalinhadas e lhe fazendo mal.”

8 – Você se maltrata quando decide resolver problemas que não são seus. “Quando alguém chega lhe conta do problema dela, lembre-se de estar pronto apenas para ouvir e até mesmo aconselhar, mas esse problema é da pessoa. Se você se envolve e tenta resolver, vai gerar um estresse que não era para você, gastando tempo e energia à toa.”

9 – Você se maltrata quando toma decisões na hora da raiva. “Quando estamos irados não é tempo de tomar decisões. É necessário se afastar, acalmar o coração, é só então decidir o que será feito, porque decisões tomadas na hora da raiva, nos leva a um arrependimento, que muitas vezes o orgulho não permite que a gente trate. Isso gera um prejuízo profundo na alma.”

10 – Você se maltrata quando não honra a sua história. “Eu lhe convido a acordar para a vida. Só você sabe de tudo que passou. Experimente olhar para dentro de você e veja o quanto é forte, o quanto já suportou, e veja quantas pessoas podem se inspirar em você. Pode ser uma história com cicatrizes muitas vezes, com as marcas doendo até hoje, mas digna de ser honrada e respeitada.”




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