Jornal Estado de Minas

SAÚDE

COVID-19: ECMO salva vidas, dizem especialistas


Talvez o termo ECMO cause estranheza, mas, em meio à pandemia de COVID-19, quase todo mundo já ouviu falar em “pulmão artificial”. E, afinal, elas são a mesma coisa. Trata-se de uma técnica terapêutica que tem ajudado a salvar vidas de pacientes em estado grave em razão da infecção causada pelo novo coronavírus.



Mas, como ela funciona e por que é capaz de se tornar aliada no combate ao caos causado pelos quadros clínicos de COVID-19? 

De acordo com a cardiointensivista e diretora da ECMO Minas, Marina Fantini, uma das responsáveis pela implantação pioneira da terapia no país, a ECMO – sigla em inglês para Oxigenação por Membrana Extracorpórea – é uma terapia de alta complexidade indicada para pacientes, adultos ou pediátricos, com grave disfunção pulmonar ou cardiopulmonar 

Conhecida como ‘pulmão ou coração artificial’, o tratamento tem a função de dar suporte ao órgão, enquanto a doença é enfrentada. O aparelho, no entanto, é apenas uma parte da terapia.

"Seu principal diferencial é humano e está no time multidisciplinar e capacitado de cirurgiões cardíacos, médicos intensivistas, fisioterapeutas e enfermeiros que atuam diretamente nos cuidados com o paciente em monitoramento 24 horas. O preparo de um profissional de saúde, com foco na terapia, pode levar cerca de três anos. Definitivamente, não é uma terapia para aventureiros”, comenta. 

No caso da COVID-19, a terapia é indicada para pacientes que tiveram o pulmão acometido pela doença de forma muito grave e que apenas medidas habituais de CTI são insuficientes para o órgão funcionar normalmente.



“Os pulmões são os órgãos mais atingidos pelo vírus e o equipamento auxilia a função pulmonar, enquanto a doença é enfrentada, no momento em que a própria ventilação mecânica já não produz efeito desejado. Quando os profissionais de saúde conseguem recuperar as funções normais do pulmão, a terapia pode ser encerrada.” 

“É importante destacar que o procedimento não pode ser indicado a qualquer paciente e demanda uma avaliação cuidadosa de cada caso. A terapia, além de estar salvando vidas todos os dias durante a pandemia, permite, inclusive, recuperar as funções motoras e pulmonares dos pacientes com muito mais facilidade, podendo reduzir o investimento em saúde e melhorando a qualidade de vida das pessoas”, explica Marina Fantini. Ana Luiza Valle Martins, médica intensivista e diretora clínica da ECMO Minas, concorda. 
 
(foto: ECMO Minas/Divulgação)
 

Segundo ela, há índices importantes de melhora da qualidade de vida de pacientes que são tratados com a ECMO. “Um dos pontos altos da terapia é que ela pode proporcionar não só a recuperação das pessoas como maior qualidade de vida depois do tratamento. Cerca de 70% dos casos que vivenciamos, nesse período, foram bem-sucedidos, e os pacientes submetidos à ECMO puderam retornar às suas atividades, de forma mais rápida e com muito menos sequelas”, pontua a também responsável pelo uso da técnica no Brasil, ao lado de Marina Fantini e da coordenadora de enfermagem da ECMO Minas, Izabela Cristina Fernandes Rodrigues. 

O gestor comercial Ricardo Vander Pereira, de 35 anos, é prova viva disso. Ele, que teve COVID-19 em março deste ano, conta que se recuperou rapidamente após o uso da terapia, voltando à sua rotina antes do que pensava.



“A ECMO para mim foi de extrema importância, como última esperança para a minha cura. Sem a terapia, possivelmente não estaria vivo. Além da máquina, a qualidade da equipe de profissionais de saúde que me atenderam foi essencial para a minha recuperação. Fiquei internado por dois meses e submetido à ECMO por dez dias. Hoje, estou totalmente curado e consegui voltar de forma completa às minhas atividades cotidianas sem sequelas.” 

Há duas formas de realizar o procedimento: a venovenosa, que substitui a função pulmonar, e a venoarterial, que substitui a função cardiopulmonar. Conforme Marina Fantini, uma cânula é introduzida na veia do paciente, o sangue é drenado por essa cânula e impulsionado por uma bomba até a membrana que exerce a função de pulmão artificial. Nessa membrana, o sangue é oxigenado, retira-se gás carbônico e esse sangue é devolvido em excelentes condições ao paciente. 

ALÉM DA PANDEMIA 


Apesar de mais conhecida e, talvez, mais utilizada em meio à pandemia de COVID-19, a ECMO ou técnica de “pulmão ou coração artificial” já era utilizada no país desde antes do início dos casos de infecção por coronavírus no Brasil para tratar outros quadros clínicos, e com sucesso, seguindo a mesma premissa: salvar vidas.

“Criada nos EUA há mais de 40 anos, a ECMO é usada no Brasil há 15 anos no apoio a cirurgias cardíacas e no atendimento a quadros graves, como pneumonia severa, aspiração de mecônio por bebês, infecções pulmonares, transplantes, pacientes oncológicos, asma e insuficiência respiratória.” 

É o que afirma Ana Luiza Valle Martins. Porém, o Ministério da Saúde publicou na última quarta-feira (23/6), na Portaria 1.327/2021, a decisão de que a terapia ECMO, que vem sendo usada para salvar pacientes graves acometidos pela COVID-19 não terá cobertura do Sistema Único de Saúde (SUS).



“Para a Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias do Sistema Único de Saúde (Conitec), que avaliou a proposta, a terapia tem custos altos e o sistema de saúde público brasileiro ainda não dispõe de unidades suficientes com infraestrutura para a instalação da ECMO.” 

“Para nós, que atuamos na linha de frente no combate à COVID-19, essa decisão representa um retrocesso para o processo de democratização do acesso ao tratamento pela população e poderá impactar diretamente na redução do número de vidas salvas durante a pandemia. É comprovada a redução do custo final do paciente submetido à ECMO, se comparado ao custo do paciente que não foi submetido à terapia e ficou internado por mais tempo na UTI. Além disso, pacientes submetidos à ECMO retornam às suas atividades de forma mais rápida, o que também reflete no custo aos cofres públicos e efetividade da terapia”, afirma Ana Luiza. 
 
(foto: ECMO Minas/Divulgação)

 
Segundo ela, é importante ressaltar, ainda, que existem terapias de alto custo para doenças sem tratamento definitivo, cobertas pelo SUS, com valores absolutos muito mais elevados.

“Em geral são tratamentos prolongados e não de uso único como a ECMO, cujo custo único diluído se torna inexpressivo se comparado a outras terapias vitalícias, como a hemodiálise. No que diz respeito à centralização das unidades especializadas, diversas terapias de alta complexidade são realizadas em unidades especializadas, que por sua vez, se localizam, em sua maioria, nessas regiões.” 

“Terapias complexas precisam ser centralizadas para que sejam realizadas de forma mais eficiente. Existe também a possibilidade de transportar de forma segura os pacientes que estão em outras regiões do país. Diversos trabalhos científicos demonstram que a centralização de terapias complexas, inclusive a ECMO, melhora os resultados e aumenta a expectativa de vida do paciente”, completa. 





Ricardo Pereira, salvo pela terapia, mostra-se grato ao procedimento e declara o seu desejo: “Gostaria que todos os pacientes, que assim como eu precisassem desse tratamento, tivessem acesso a ele. Tenho certeza que mais vidas poderiam ser salvas.” 

*Estagiária sob a supervisão da editora Teresa Caram 
 

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