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Estado de Minas COMPORTAMENTO

Ócio que faz bem e sem culpa: saiba não fazer nada

Técnica conhecida como niksen, expressão holandesa que significa não fazer nada, ganha adeptos como meio de busca da satisfação plena


07/03/2021 04:00 - atualizado 07/03/2021 00:54

O ócio entendido como meio para o bem-estar eleva a criatividade e a produtividade e melhora a qualidade das relações interpessoais (foto: DEZALB/Pixabay)
O ócio entendido como meio para o bem-estar eleva a criatividade e a produtividade e melhora a qualidade das relações interpessoais (foto: DEZALB/Pixabay)


Exercer o direito de não fazer nada é mais simples do que parece. Parar, desacelerar num mundo que impõe rotinas estressantes de trabalho e de cuidados com a casa e a família, mesmo em tempo de pandemia. A polonesa Olga Mecking, escritora, jornalista e tradutora, faz sucesso com seus artigos em defesa da prática do ócio entendido como bem-estar publicados no New York Times, The Washington Post, The Guardian e BBC. Com a grande repercussão da teoria, ela, que vive na Holanda com o marido alemão, acaba de lançar o livro “Niksen – Abraçando a arte holandesa de não fazer nada”, pela editora Rocco.

A expressão niksen ganha espaço como tendência de bem-estar diferente de outras técnicas surgidas nos últimos anos. Não se assemelha à mindfulness, uma forma de concentrar atenções e não só diminuir o estresse e a ansiedade. Nem se parece com o termo dinarmaquês hygge, que tem uma abordagem sobre a casa e o ambiente; nem sequer com o minimalismo, que sugere simplificar tudo o que se tem para conquistar uma vida mais leve. A essência da prática do “nada fazer” é reservar momentos, sem cobranças, para ver o tempo passar. A proposta de comportamento do niksen é praticar o ócio para eliminar o estresse e aumentar o bem-estar físico e mental.
  
A técnica integra a onda da chamada slow life, expressão inglesa associada ao slow movement, movimento que propõe a desaceleração da sociedade, um basta ao ritmo frenético que o mundo atual impõe. A empreendedora Valéria Chociai, de 43 anos, graduada em hotelaria e especialista em administração de restaurantes, serviços e gestão de pessoas, aderiu a esse movimento depois de ter vivido uma crise de estresse, e encontrado ajuda de medicações, terapia, treinamentos, e bons amigos.

“Quando entendi o que eu realmente queria da vida e comecei a contar para as pessoas meus novos objetivos fui chamada de louca, romântica, irresponsável, ridícula, mimada e mais um monte de adjetivos que a gente recebe quando decide ‘sair da casinha’. Percebi, então, que precisava me encaixar em uma nova ‘tribo’”, afirma. Hoje, Valéria divide seu tempo entre garantir mimos à cadela de estimação Maria Mole, e estudar para se formar em psicossíntese pelo Centro de Psicossíntese de São Paulo.

Além de divulgar os princípios e benefícios do slow life, ela defende a desaceleração radical do ritmo de vida com a vivência que acumulou durante o segundo de seus três anos sabáticos. No fim do ano passado, lançou o projeto “365 Convites para Desacelerar” (https://365convitesparadesacelerar. com.br/), uma jornada que acolhe pessoas interessadas em desacelerar por meio de um perfil fechado no Instagram. O objetivo é auxiliar cada participante a identificar, assumir e executar seus próprios processos de abrandar e respeitar o ritmo de cada um .


DEFINIÇÕES DE SUCESSO 


O sentido de felicidade mudou, para Valéria, após a primeira crise de estresse e ansiedade que ela enfrentou, ao completar 30 anos. À época, um amigo a presenteou com o livro “Mil dias na Toscana”, inspirado na história real de uma chef americana que se apaixona por um italiano e se muda para Veneza. O casal sentiu a necessidade de desacelerar o ritmo de vida e se mudou para San Casciano dei Bagni, uma pequena cidade. “Foi quando minha vida mudou. Comunidade, natureza, tempo, simplicidade e prazer são cinco palavras que resumem a marca deixado pelo livro e descobri que existiam outras definições de sucesso além daquela que estava vivendo”, conta.

Importante transformar o desejo de desacelerar em projeto de vida. Afinal, a busca pelo prazer de viver não merece ficar no campo dos sonhos

Valéria Chociai, criadora do projeto 365 Convites para Desacelerar pelo mundo

Disseminar a ideia do ócio como meio para um fim não a preocupa. Valéria lembra que quando as pessoas descansam e cuidam da saúde física, espiritual e emocional, seja por que motivo for, não só elas têm ganhos, mas também a família, comunidades, corporações, e o planeta. “Mesmo quando o descanso é um fim em si, como acredito que ele merece ser, há aumento da criatividade, da produtividade, melhora na qualidade das relações e por aí vão as consequências.”

O QUE É POSSÍVEL CONTROLAR 

Desacelerar o ritmo de vida não é tema recente e tem ingredientes de discussão que remontam aos tempos antigos, como destaca Valéria Chociai. “Minhas pesquisas me levaram até três séculos antes de Cristo. O estoicismo, que foi uma das escolas filosóficas mais ativas, versou sobre assuntos correlatos ao ócio, ao respeito e à identificação com os ritmos da natureza, à diferenciação entre o que podemos ou não controlar”, diz.

A empreendedora Valéria Chociai lembra que quando as pessoas descansam e cuidam da saúde física, espiritual e emocional, não só elas têm ganhos, mas a família, comunidades, corporações e o planeta(foto: Arquivo pessoal)
A empreendedora Valéria Chociai lembra que quando as pessoas descansam e cuidam da saúde física, espiritual e emocional, não só elas têm ganhos, mas a família, comunidades, corporações e o planeta (foto: Arquivo pessoal)
A empreendedora cita o filósofo Alexandre Pires Vieira, tradutor de várias obras de Sêneca, ao explicar que “no fundo, o ócio, para o filósofo, não é apenas uma questão de ter tempo para descansar e realizar atividades relaxantes. É um aspecto crucial da própria vida, sem o qual não temos tempo nem energia para pensar, sendo assim forçados pelas circunstâncias a viver uma vida menos útil e realizadora do que de outra forma'”.

Até mesmo o discurso cristão, baseado na abnegação, no servir e no trabalho como fonte de dignidade, encontra na própria “Bíblia” referências sobre assuntos relacionados à desaceleração. “Tudo neste mundo tem o seu tempo, cada coisa tem a sua ocasião”, é uma passagem de Eclesiastes, parte do Velho Testamento. Em meados dos anos 1980, o médico americano Larry Dossey criou a expressão “doença do tempo” para se referir à suposição obsessiva de que “o tempo está fugindo, vai acabar faltando e é preciso estar sempre pedalando cada vez mais rápido para não perder o trem”.

A empreendedora destaca ainda o trabalho de Carlo Petrini, fundador na Itália do movimento slow food, cujo manifesto prega ideais como os de “que nos sejam garantidas doses apropriadas de prazer sensual e que o prazer lento e duradouro nos proteja do ritmo da multidão que confunde frenesi com eficiência”.

 “Importante transformar o desejo de desacelerar em projeto de vida. Afinal, a busca pelo prazer de viver não merece ficar no campo dos sonhos”, afirma Valéria Chociai.
 

FORMAS DE DESACELERAR PELO MUNDO 


  • Dolce far niente (Itália): expressão que significa, na tradução literal “doce não fazer nada”, semelhante ao lekker niksen holandês, já que descreve o não fazer nada como algo delicioso.
  • Sesta (países do Mediterrâneo, principalmente Espanha e França): mais conhecida como aquela hora no meio do dia, quando o clima está quente para ficar na rua e, por isso, é considerado perfeito para uma soneca, e também um tempo usado para o niksen
  • Shabat (tradição dos judeus): começa no pôr do sol da sexta-feira e termina no pôr do sol do sábado, e é um tempo para os judeus se dedicarem às orações, à família e à comunhão
  • Wu wei (China): o conceito chinês de wu wei pode ser traduzido como uma “não ação”, interpretada tanto de maneira positiva quanto pessimista. Tem origem no ensino taoista de Lao Tsé, um dos mais influentes filósofos chineses


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