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Estado de Minas ALIMENTAÇÃO

Alimentos tóxicos: artificial e irresistível para muitos

De forma criteriosa e científica, médico lança livro que aborda aspectos políticos relacionados à produção e comercialização de alimentos


28/02/2021 04:00 - atualizado 04/03/2021 09:13

Biscoitos recheados: para muitos, impossível comer um só(foto: Steve Buissinne/Pixabay)
Biscoitos recheados: para muitos, impossível comer um só (foto: Steve Buissinne/Pixabay)

Antes de mais nada, caso tenha, elimine a convicção/repetição de que alimentação saudável e de verdade pressupõe comida sem gosto, sem graça, sem sabor, sem aroma, sem tempero. Não é nada disso. Por isso, o Brasil e o mundo lutam contra a chamada alimentação tóxica, que só causa doenças e mortes.

Dirceu de Lavôr Sales, médico clínico especializado em acupuntura, homeopatia e tratamento da dor, além de presidente do Instituto de Ensino e Pesquisa em Saúde (IEPS), explica que um exemplo clássico de alimentação nociva é a alimentação atual, rica em produtos industrializados, repleta de aditivos químicos, gorduras (trans e saturadas), açúcares de várias naturezas, sal, álcool, carnes e embutidos.

Os estudos das últimas décadas têm revelado que essa perniciosa combinação é responsável pelo desencadeamento de um considerável número de doenças crônico-degenerativas: hipertensão, diabetes mellitus, obesidade, disfunções imunológicas, neurodegenerativas e câncer. Dados de instituições internacionais e do Instituto Nacional do Câncer (Inca) atestam que 35% de todos os cânceres existentes no planeta são gerados pela alimentação.

Foi convencido? O importante é que há saídas para não se intoxicar com a alimentação. A escolha está em suas mãos. Dirceu de Lavôr Sales acredita que as pessoas de diversos grupos sociais têm boa percepção do que sejam alimentos nocivos e saudáveis. No entanto, falta-lhes capacidade de controlar o desejo de consumir aqueles sabidamente nocivos.

“Isso não ocorre por acaso, e se deve, sim, à conduta da esperta indústria dos alimentos, que sabe perfeitamente a combinação exata para influenciar o desejo de consumidor: são cores, odores, consistências e sabores, adicionados artificialmente aos alimentos, o que os torna irresistíveis para muitos. Entre esses muitos incluem-se pessoas de diversos níveis de escolaridade, inclusive profissionais de saúde."

A despeito dessa conduta, repetidas pesquisas não se cansam de mostrar os efeitos benéficos – anti-inflamatório, antioxidante, anticancerígeno – dos alimentos saudáveis: frutas, verduras, cereais integrais e leguminosas, entre outros.


PRAZERES IMEDIATOS 


Médico clínico Dirceu de Lavôr Sales alerta que existe um calculado processo para enganar as pessoas, a começar pelas embalagens em que as possíveis vantagens são alardeadas em letras garrafais e os ingredientes aparecem em minúsculas. de forma que a leitura seja dificultada(foto: Claudio Carvalho/Divulgação )
Médico clínico Dirceu de Lavôr Sales alerta que existe um calculado processo para enganar as pessoas, a começar pelas embalagens em que as possíveis vantagens são alardeadas em letras garrafais e os ingredientes aparecem em minúsculas. de forma que a leitura seja dificultada (foto: Claudio Carvalho/Divulgação )
Dirceu de Lavôr Sales lembra vivemos em uma sociedade de verdades encomendadas, de pessoas tensas, ansiosas, insatisfeitas, ávidas de prazeres imediatos, e, portanto, bem mais susceptíveis às mensagens da indústria dos alimentos, direcionadas ao prazer, ao imediatismo e ao modismo.

“Quem não sabe, por exemplo, os malefícios relacionados ao consumo do álcool, mas quantos tentam evitá-lo? O jovem de hoje, por exemplo, é formatado para ir na onda, surfar na superfície do nada, ostentar a sua liberdade por meio da bebida ou da droga. Os que se opõem ou não se enquadram nessa realidade são muitas vezes rejeitados, não são aceitos pela galera. E o pior, essa é a mesma realidade de muitos adultos, que buscam abrigo para suas angústias e anseios na bebida e na comida.”

Os desafios para comer alimentos saudáveis só aumentam quando muitos deles, na verdade, só parecem, mas não são saudáveis. “Na realidade, existe todo um calculado processo criado para enganar as pessoas, a começar pelas embalagens da maioria dos produtos, em que as possíveis vantagens são alardeadas espalhafatosamente em letras garrafais, e os ingredientes aparecem em minúsculas letras estrategicamente localizadas, de forma que a leitura seja dificultada. Mesmo que consiga decifrar o que está escrito, a maioria das pessoas terá dificuldade de entender o que significa cada uma daquelas substâncias.”
 

A única saída para a trágica situação que vivemos é o esclarecimento e a conscientização. Mas, se levarmos em consideração que um médico, em seis anos de curso e mais dois de residência médica, não tem uma aula sequer sobre o tema alimentação e doenças, percebemos o quanto estamos longe dessa meta

Dirceu de Lavôr Sales, médico clínico

Infelizmente, essa realidade é extensiva a muitos dos ditos produtos naturais, como leites, cereais, doces e tantos outros. Por outro lado, nossos órgãos de fiscalização e controle não têm a estrutura necessária para garantir o acompanhamento ideal no que diz respeito à comercialização-fiscalização dos alimentos.

O que significa que estamos à mercê da honestidade dos fabricantes. A única saída a médio prazo, afirma o médico, seria uma contínua companha de conscientização dos profissionais de saúde e da população.

No entanto, alimentação correta também é uma forma de cura e tratamento. No livro lançado pelo médico clínico em 2020, “Alimentação na geração e cura das doenças”, da editora Orion, é estarrecedor saber que a maior parte da alimentação leva a doenças degenerativas, inflamatórias, infecciosas, metabólicas, vasculares e oncológicas.

O livro esclarece que um bom número de doenças pode ser desencadeado pelo consumo de alimentos inadequados: ultraprocessados, carnes, gorduras, frituras, açúcar, álcool, mas, da mesma forma, ilustra com clareza o poder benéfico de alimentos como frutas, verduras e alimentos integrais no processo de prevenção e até cura de doenças já instaladas.

PARA LER  


  • Livro: Alimentação na geração e cura das doenças
  • Autor: Dirceu de Lavôr Sales
  • Editora: Orion
  • Número de páginas: 840
  • Preço sugerido: R$ 380

 
TRÊS PERGUNTAS PARA ...


Raphaella Cordeiro, nutricionista, especialista em nutrição clínica e esportiva(foto: Arquivo Pessoal)
Raphaella Cordeiro, nutricionista, especialista em nutrição clínica e esportiva (foto: Arquivo Pessoal)

 
1 - Principalmente na área fitness, esportiva, do grupo que tem cuidado e atenção com alimentação, muitas vezes alimentos ditos saudáveis na verdade não o são. Quais os riscos? 
De fato, existem alimentos vendidos como saudáveis, mas quando partimos para uma análise da verdadeira composição ele se mostram, muitas vezes, contrários à propaganda que os enaltece. Alguns têm açúcares demais que, muitas vezes, estão “escondidos” em outros nomes, muitas gorduras, sódio, aditivos químicos etc., e quando não é tudo num produto só. É necessário sempre ler o rótulo dos alimentos para entender o que estamos consumindo. Dependendo do consumo, da quantidade e da frequência e, claro, de cada indivíduo, podem ocorrer impactos na saúde em patologias como diabetes, hipertensão arterial, alergias alimentares e intolerâncias, entre outros. Quanto à quantidade, tudo vai depender do que se está consumindo e se é mesmo necessário, pois muitas vezes existem substitutos na “alimentação de verdade”, basta informação e orientação.

2 - Tem também o risco de alimentos, mesmo saudáveis, mas que consumidos em excesso podem ser nocivos à saúde. Por favor, avalie alguns grupos:

A - Espinafre, acelga, beterraba, quiabo, kiwi, frutas vermelhas, cacau, cereais integrais e chá preto: alimentos que têm oxalatos, compostos que ao se juntar ao cálcio podem levar à formação de pedras nos rins. Há alimentos que, apesar de ser realmente muito saudáveis, em excesso podem ser tóxicos. Existem mesmo compostos que são chamados de antinutrientes, mas há formas de tentar diminuir o impacto deles no organismo. É possível colocar alguns de molho de um dia para o outro, como as leguminosas, sementes e até mesmo os folhosos. Escolher as opções cozidas ou refogadas para abrandar esses compostos, podendo dispensar a primeira água de cozimento ou de fervura, por exemplo. Beber bastante líquido ao longo do dia para manter a diurese e o funcionamento orgânico em dia. Os antinutrientes não são uma grande preocupação para a maioria das pessoas, mas podem se tornar um problema quando se trata de desnutrição, por exemplo. Portanto, entender que esses alimentos têm inúmeras outras propriedades nutricionais que justificam, sim, o consumo deles na dieta de forma balanceada e variada. Outro ponto importante é usar panelas e utensílios de materiais de qualidade que não transmitam metais pesados e/ou outros compostos para os alimentos.

B - Peixe-espada, atum, o lúcio (peixe predador de água doce), tubarões ou cações: o consumo exagerado nos expõe à contaminação por metais pesados, principalmente mercúrio.
Saber a procedência desses peixes é uma forma de tentar se assegurar de que os mesmos não venham de locais que tenham possível contaminação por metais pesados. Acredito ser essa a maior forma de prevenção, pois, no geral, o consumo de peixes é saudável, especialmente assados, cozidos ou grelhados. É fundamental, para qualquer alimento, saber e ter o controle da procedência.

C - Frutas secas (nozes, castanhas…): são realmente supersaudáveis, contêm gorduras preciosas que combatem o colesterol ruim, antioxidantes, fibras e minerais, mas o problema delas são as calorias. Mais de 15g por dia é demais, ou seja, 3 ou 4 nozes ou castanhas ou amendoins.
As sementes oleaginosas são riquíssimas em nutrientes importantíssimos para as funções orgânicas. Mesmo assim, é importante dosar a quantidade de consumo para que o excesso não seja um problema. O fundamental é a variedade e a moderação, que deve sempre ser o ideal para se manter o equilíbrio do organismo.

3 - Há alimentos apontados como altamente tóxicos e perigosos. O mais popular é a carambola, que, apesar de ser fonte de antioxidantes, vitaminas e de fortalecer o sistema imunológico, é contraindicada para quem tem problemas renais. Ou o café, que, se tem propriedades medicinais comprovadas como a redução de doenças neurodegenerativas, em excesso pode causar arritmia, ansiedade, gastrite, insônia ou até irritação. Há outros?

Isso vai depender muito de situações individuais como patologias, intolerâncias ou alergias. Cada ser individualizado tem que ser analisado e, a partir daí, ver a real necessidade de excluir alimentos ou não.
 

Saiba como ler o rótulo
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