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Estado de Minas LITERATURA E SAUDE

'Sou a mãe dela', de Adriana Araújo, é como uma semente de esperança

Contando a história de superação de sua filha Giovanna, em uma jornada médica e de autoestima, a jornalista traz luz às diferenças de milhares de crianças


28/12/2020 13:15 - atualizado 28/12/2020 14:44

"Sou a mãe dela", escrito pela jornalista Adriana Araújo, conta a história de superação de sua filha, Giovanna Araújo (foto: Victor Affaro/Divulgação)

“Minha filha, Giovanna, tinha um ano e meio. Já havia enfrentado três cirurgias e andava com ajuda de um aparelho ortopédico – uma engrenagem de plástico e metal que começava no pé e só terminava na virilha e deixava aquele pedacinho de gente com um ar de robocop, com passos meio desengonçados”, diz a jornalista e apresentadora de TV Adriana Araújo em uma carta aberta escrita há cinco anos e destinada a um médico, o qual não se lembra o nome, e que, em suas palavras, não enxergou sua filha. 

Carta essa que, atualmente, faz parte do livro “Sou a mãe dela”, escrito por Adriana Araújo e publicado pela Globo Livros recentemente. Giovanna Araújo, atualmente com 23 anos e agora estudante de medicina, fazia uso desse aparelho para andar, pois, em razão de um problema congênito, a Hemimelia Fibular – ausência de um osso que compromete o desenvolvimento do membro mais afetado, no caso, a perna direita –, havia nascido com as pernas deformadas. 

“Mas ela seguia atrás de uma bola e sorria, como qualquer criança”, relembra a mãe em outro trecho da carta. Porém, mesmo após inúmeras cirurgias e algumas melhoras, Giovanna ainda caminhava com algumas dificuldades. Foi, então, que o médico ao qual a carta e parte do livro se destinam as atendeu e declarou que a melhor opção para a pequena era a amputação do membro. 

Adriana Araújo vê o livro como uma semente de esperança para milhares de crianças(foto: Victor Affaro/Divulgação)
Adriana Araújo vê o livro como uma semente de esperança para milhares de crianças (foto: Victor Affaro/Divulgação)
Adriana, por sua vez, não desistiu de sua filha e logo o número 18 surgiu em sua mente, conforme relatos. “Dei a minha decisão de mãe, assim, com a perna bamba, o coração disparado e o choro por um fio: ‘o dia que ela fizer 18 anos, se ela quiser amputar o pé, ela vem aqui, te procura e autoriza a amputação'”, diz. Aquele dia, que parecia interminável para a repórter, acabou alguns anos depois, mais precisamente em 2015, quando Giovanna completou a maioridade. 

“Ela continua baixinha, o que a faz parecer mais uma adolescente do que uma adulta. Ela já tem aparelhos nas pernas. Tem cicatrizes. Seguimos lutando contra o medo. Minha filha não vai voltar ao consultório dele e autorizar a cirurgia de amputação. Hoje ela tem as pernas do mesmo tamanho, o calcanhar quase todo apoiado no chão. Tem dificuldades para usar salto alto, mas já não precisa de nenhum aparelho ortopédico na perna. E não precisa de mais cirurgias. Usa tênis quase todo o tempo, anda, corre, faz ginástica, nada, estuda, viaja, pega metrô, sai com as amigas…”, relata. 

Como toda menina de 8, 18 ou 23 anos merece sorrir, Giovanna sorri até hoje. Para além do médico que não a “enxergou”, foram muitos desafios. Uma jornada médica, sim, conforme conta Adriana Araújo, mas também uma busca incessante pela autoestima. “Quando você tem um filho ou filha com uma diferença física, você pensa no quanto você precisa caminhar para construir a autoestima, o respeito e amor por si mesma, porque o mundo muitas vezes vê limitações e impossibilidades antes de possibilidades.” 

“O mundo às vezes usa palavras que limitam, diminuem, machucam e que podem causar um estrago muito grande em crianças com uma diferença tão grande, como a Giovanna e tantas outras. São 1 bilhão de pessoas com diferenças no mundo. Então, o livro fala sobre a importância de você refletir sobre como ajudar crianças com diferenças a crescer com autoestima”, diz a mãe dela, que conta, ainda, que foi ao ver a sua história e de Giovanna como uma semente de esperança para tantas outras que a ideia do livro surgiu. 
 
Giovanna Araújo atualmente cursa medicina e a busca incessante pelas luvas especiais para seu exercício da profissão foi um marco em sua vida e de sua mãe, bem como serviu como impulso para a publicação do livro
Giovanna Araújo atualmente cursa medicina e a busca incessante pelas luvas especiais para seu exercício da profissão foi um marco em sua vida e de sua mãe, bem como serviu como impulso para a publicação do livro "Sou a mãe dela" (foto: Arquivo pessoal)
 

“Depois de a Giovanna ter entrado na faculdade de medicina e ter concluído etapas angustiantes, senti uma necessidade de fazer uma revisão de tudo que a gente tinha vivido. E fiz da escrita uma terapia. Simultaneamente, entrei em uma outra fase muito angustiante, a de procurar as luvas médicas da Giovanna, luvas feitas sob medida, porque ela tem dois dedos na mão direita, ela nasceu assim por conta da síndrome ortopédica. E ela precisava de luvas sob medida para ser médica. Foi angustiante porque não é algo que exista facilmente e muitas pessoas te dão 'nãos', sem nem tentar.” 

“Nesse processo todo, comecei a escrever, inclusive escrevi para os dois médicos dos anjos de jaleco – que ajudaram Giovanna – para quem sempre quis escrever. Mas ainda não pensava como um livro. Quando descobrimos as luvas, depois de um ano e meio de busca e de levar muitos 'nãos', vi que a Giovanna não era a única no mundo que precisava de uma luva médica sob medida para poder exercer a medicina. E então enxerguei que contar a nossa história poderia levar uma semente de esperança para outras pessoas”, completa. 

A visão da filha dela


Adriana Araújo conta que Giovanna não acompanhou de perto todo o processo de escrita, muito em função da falta de tempo pelos estudos e, também, da particularidade dos textos de mãe, como denomina a autora. “Eu guardava. Quando efetivamente pensei que poderia virar um livro, ela leu e, inicialmente, ficou reservada, porque é do estilo dela, e resistiu sobre a ideia do livro”, relata a jornalista. Porém, segundo ela, a jovem se surpreendeu com o que ali continha. 
 

"Foi uma luta grande, teve aflições, angústias, dores, mas tiveram muitas alegrias e pessoas que estenderam as mãos. Então, esse livro é uma tentativa de fazer, também, uma jornada de gratidão"

Adriana Araújo, jornalista e autora do livro "Sou a mãe dela"

 

“Ela que escreveu a introdução e, lá, ela conta que resistiu à ideia do livro, mas, no momento que leu, foi surpreendida ao ver a história que conhecia contada pela perspectiva da mãe. Uma jovem. Então, ela viu que eu também era jovem quando fui mãe e percebeu o bastidor da história sobre o meu olhar. E tem um texto muito bonito dela falando sobre isso, sobre enxergar a própria história na visão da mãe, que esteve ao seu lado nos melhores e piores momentos. Fiquei muito emocionada.” 

Para além de todas as lutas e jornada enfrentadas ao longo da vida de Giovanna Araújo, essa, para Adriana, é gratidão pura. “Foi uma luta grande, teve aflições, angústias, dores – ela enfrentou muitas dores entre as cirurgias –, mas tiveram muitas alegrias e pessoas que estenderam as mãos. Então, esse livro é uma tentativa de fazer, também, uma jornada de gratidão”, pontua. 

Mais que uma semente de esperança 


Toda a renda da autora será doada à crianças com Hemimelia Fibular(foto: Globo Livros/Divulgação)
Toda a renda da autora será doada à crianças com Hemimelia Fibular (foto: Globo Livros/Divulgação)
O livro “Sou a mãe dela” não ficou apenas em relatos, reconhecimento e pertencimento. Para além de crianças poderem se enxergar na história e lutar pela vida e autoestima, elas poderão sentir na pele um pouco de todo esse amor em forma de doação. Segundo a autora e jornalista, Adriana Araújo, a princípio, todo o valor arrecadado por ela seria dividido entre doações e uma “poupança” para Giovanna investir em sua profissão futuramente. Porém, a jovem guerreira abriu mão de sua parte. 

“Decidi doar para crianças com Hemimelia Fibular, pois ela é uma síndrome que demanda muitas cirurgias, o SUS não tem vagas disponíveis e especialistas em todas as capitais para atenderem essas crianças. Então, muitas acabam amputadas ou não caminham, e muitas estão fazendo vaquinhas na internet para as cirurgias. Eu coloquei no livro, na contracapa, que parte dos royalties iriam para as crianças e a outra parte eu gostaria de dar de presente para a Giovanna investir em alguma coisa dela como médica. Mas a Giovanna abriu mão desse presente e aceitou doar também, então vai tudo para as crianças”, diz orgulhosa. 

Para comprar o livro “Sou a mãe dela”, basta acessar o link: http://globolivros.globo.com/livros/sou-a-mae-dela

*Estagiária sob supervisão da editora Teresa Caram 


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