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Estado de Minas COMPORTAMENTO

Quarentena revela janela para nova perspectiva

Com desigualdades discrepantes no Brasil, em todas as searas, a pandemia da COVID-19 afeta de maneiras distintas cada camada dos brasileiros


16/08/2020 04:00 - atualizado 17/08/2020 11:16

(foto: Gerd Altmann/Pixabay )
(foto: Gerd Altmann/Pixabay )



O Brasil entra no quinto mês de enfrentamento da pandemia do novo coronavírus e vive seu pior momento, maior número de mortos e contaminados ao mesmo tempo em que os governos adotam medidas de flexibilização. Diante disso, sem falar na saúde, que sempre deveria estar em primeiro lugar, todo o resto é incerto. Como será o futuro do trabalho, ter uma renda, manter-se ocupado, que mudanças haverá de comportamento, quais visões de mundo vão prevalecer, como tomar decisões, enfim, viver no pós-pandemia.

A psicóloga Julia Ramalho Pinto, da Estação do Saber, alerta que existem várias mudanças em processo nessa “janela para uma nova perspectiva”, como ela enxerga a pandemia. “Acredito que parte das mudanças já estavam em andamento e essa janela as acelerou, como a digitação do trabalho e a busca por mais qualidade de vida. Por outro lado, a desgitalização dos afetos parece surgir com força: a necessidade dos corpos para viver as emoções. Crianças e adolescentes que ficavam muito no celular e na internet estão sofrendo com seu mundo todo on-line. Eles estão sentindo falta do encontro para brincar, falta da escola como um espaço de socialização e afetos. Namoros que eram on-line começam a perder o sentido, pacientes questionam o porquê de namorar sem o encontro dos corpos. Amigos começam a dizer do cansaço de conversar por whatsapp ou mesmo das reuniões em telas de zoom, skype etc.”, chama a atenção a psicóloga.
 
 
(foto: Lucas Gaetani/Divulgação)
(foto: Lucas Gaetani/Divulgação)
 

"Não há dúvida de que a 
pandemia trouxe perdas para muitos. Perdas de vidas próximas, de trabalho, de renda, de liberdade de uso do espaço, de contato dos afetos. Mas trouxe também essa ideia de que precisamos de 
muito pouco para viver”


Julia Ramalho Pinto, psicóloga 
 
Julia Ramalho Pinto enfatiza ainda que alguns de seus pacientes que lidavam com a ansiedade por meio das compras agora questionam o porquê de um armário e closet cheio de roupas e sapatos. “Várias pessoas relataram a necessidade de fazer uma limpeza, dos afetos e nos seus guardados. Pessoas que passavam o fim de semana em casa ou nos shoppings querem ir para parques e ter contato com a natureza. Muitos estão descobrindo o prazer de fazer uma receita, de cuidar da casa, das plantas e dos bichos. Não há dúvida de que a pandemia trouxe perdas para muitos. Perdas de vidas próximas, de trabalho, de renda, de liberdade de uso do espaço, de contato dos afetos. Mas trouxe também essa ideia de que precisamos de muito pouco para viver.”

A psicóloga destaca o conceito japonês que expressa bem tudo que se passa: ikigai. “Ele descreve que os prazeres e sentidos da vida residem no reino das pequenas coisas. O ar matinal, a xícara de café, o raio de sol… Ikigai é descobrir e apreciar prazeres da vida que têm significado para você. Muitos estão descobrindo o que é importante para eles, para muitos pacientes houve uma aceleração dessas mudanças. Descobriram o apoio nos pequenos rituais da rotina diária, sem a compulsão do consumo, e ajustaram suas expectativas em relação ao que querem da vida. Passaram a questionar, ainda mais, trabalhos excessivos, a noção de sucesso, o que é o resultado de um trabalho. E isso não é só aqui no Brasil, estou ouvindo de pessoas fora daqui também. Se essas mudanças vieram para ficar, dependem de cada um.”

Fato é que existem muitas pessoas sendo impactadas, sim. Pessoas que, enfatiza a psicóloga, conseguiram ver como a sociedade molda os valores, o que é importante na sua vida. Assim, há quem esteja redefinindo valores, prioridades, rotinas e trabalhos. Mas, é claro, existem os que estão esperando a abertura de tudo para que possam viver exatamente como vinham vivendo, não aproveitando a janela de perspectiva. Segundo a psicóloga, são os que querem que tudo “volte ao normal”, sem entender que, como sociedade, estamos em constante mudança. E que esse normal talvez não exista mais. Afinal, novas formas de vida, novos valores, novos trabalhos, nova sociedade…

FUTURO DO TRABALHO 


Quanto ao mercado de trabalho, área que Julia Ramalho Pinto também domina, ela enxerga três perspectivas: os que ficaram em casa, os profissionais de home office e quem teve de sair de casa todos os dias para trabalhar. “Os primeiros, devem repensar o próprio trabalho, se atualizar e pesquisar o que é o “novo normal” (a sociedade digital), porque é fundamental para parar de resistir ao que parece que veio para ficar. É hora de começar algo novo. Focar nas carências que percebeu na vida confinada, que se revelou muito nas necessidades básicas do ser hu- mano. Ver quais foram as tendências de consumo e pensar em quais habilidades tem para contribuir, porque neste universo é que estarão oportunidades de inovação.”

No segundo caso, Julia Ramalho Pinto prevê que muitos profissionais vão declinar a volta à vida pós-pandemia na rotina anterior. Há empresas reavaliando se a tendência do home office deve ou não ficar em definitivo. Muitos descobriram como pode ser menos desgastante, por exemplo, não ter que se deslocar, descobriram que cuidar da casa tem um certo prazer. As pessoas que conseguiram o equilíbrio provavelmente vão preferir ficar em casa. E de vez em quando fazer um encontro ao vivo, mas não como rotina.

E para quem não parou de trabalhar, ela lembra dois caminhos: as funções em que não há meio digital (ex: médico em pronto-socorro); então, o trabalho continua e é preciso se proteger sempre. E, no caso dos setores que ainda foram digitalizados, então é hora de repensar tudo. “Um exemplo. O call center, muitos ainda tiveram de sair para trabalhar, mas empresas maiores estão investindo no home office ou mesmo em chatbots (robôs para atendimentos). O principal é que as pessoas entendam que as tendências vão se tornando cada vez mais realidade: comércio on-line, home office, conexão humana, sustentabilidade, automatização de tarefas, apoio de sistemas para organização de rotinas, bem-estar e qualidade de vida.”




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