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Estado de Minas SAúDE

Sensação de andar descalço

Opção para os pequenos, calçado biomimético, que simula o comportamento da natureza sob os pés dos bebês, evita problemas futuros e contribui para o desenvolvimento motor da criança


postado em 12/01/2020 04:00

Testes de análise de marcha e eletromiografia muscular foram feitos com 21 bebês de 11 a 17 meses(foto: Noeh/Divulgação)
Testes de análise de marcha e eletromiografia muscular foram feitos com 21 bebês de 11 a 17 meses (foto: Noeh/Divulgação)

 

José Alberto Rodrigues*

 

Os benefícios de estar em contato com o solo apresentam resultados terapêuticos que vão além da pura sensação. Para as crianças, o ato de andar descalço pode contribuir para o desenvolvimento motor e muscular dos pés e auxiliar nos processos de desenvolvimento da caminhada e do formato e tipo de pisada. De acordo com Priscila de Albuquerque, fisioterapeuta e professora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), o caminhar descalço proporciona à criança uma experiência distinta daquela do caminhar calçado. “Quando descalça, a necessidade de adaptação do pé a diferentes terrenos permite à criança um leque maior de experiências, as quais preparam o pé, e mesmo o corpo, para lidar com diferentes contextos”, afirma.

 

Em paralelo ao processo de se tornar tia e o desejo de desenvolver um calçado para o sobrinho, Ana Paula Lage, designer e pesquisadora, criou um sapatinho biomimético, produto inspirado na natureza, batizado de Noeh. “Trabalho com pesquisa e, na época, fazia mestrado desenvolvendo materiais biodegradáveis para a indústria de calçados, e fui em busca de mais informações para fazer esse sapatinho”, conta. Na criação do protótipo, a desenvolvedora conta que foi um desafio encontrar legislações ou informações científicas sobre o sapato ideal para bebês. “Era um produto negligenciado pela indústria para calçar os pés na etapa mais importante do desenvolvimento do corpo humano. Na curta etapa em que o cuidado com a maturação dos músculos e ossos dos pés terá consequências para o resto da vida”, explica.

 

PESQUISA Para testar a eficácia do Noeh com os bebês, fisioterapeutas doutores e pós-doutores em cinesiologia, neurociências, reabilitação, engenharia biomédica e engenharia mecânica, do Laboratório de Análise do Movimento da EEFFTO/UFMG, fizeram testes de análise de marcha e eletromiografia muscular com 21 bebês de 11 a 17 meses, no início da aquisição da marcha, e verificou-se que o Noeh não altera o padrão da caminhada da criança. “Para chegar a esses resultados foi analisado o quão semelhante ou diferente é o movimento das articulações durante a marcha com o calçado comparada com o pé descalço”, conta a fisioterapeuta.

"Estar atento para calçados que não restrinjam o movimento ou alterem o formato do pé é essencial para que as crianças consigam desenvolver sua estrutura física da forma mais efetiva e natural possível%u201D

Priscila de Albuquerque, fisioterapeuta e professora da UFMG

Segundo Ana Paula, a pesquisa foi muito valiosa “para comprovar se todas as características do calçado projetado a partir de fontes teóricas e relatos de profissionais da área da saúde realmente tinham um benefício real para o bebê. Ou seja, se a teoria funcionava na prática”, comenta.

 

De acordo com a pesquisa, os resultados obtidos mostraram que o sapatinho Noeh, comparado com o calçado de uso frequente da criança, produz durante a caminhada um comportamento mais semelhante àquele obtido pelo andar descalço. “As pesquisas realizadas no Laboratório de Análise do Movimento (UFMG) foram transversais, ou seja, avaliaram o efeito naquele momento. Para testar o impacto do uso do calçado a longo prazo seriam necessários estudos longitudinais, ou seja, ao longo do tempo, acompanhando as crianças”, salientou Priscila de Albuquerque.

 

Segundo a fisioterapeuta, a criança tem uma capacidade de resposta e de adaptação muito maior que os adultos. Por isso, ela sempre se adaptará aos estímulos externos. “Portanto, estar atento para calçados que não restrinjam o movimento ou alterem o formato do pé é essencial para que as crianças consigam desenvolver sua estrutura física da forma mais efetiva e natural possível”, disse. “Sabe-se, por meio de pesquisas, que o andar descalço tem o potencial de beneficiar o desenvolvimento do pé de crianças. Por isso, é recomendável o uso de calçados que permitam movimentos semelhantes àqueles observados durante o andar descalço”, complementa.

 

* Estagiário sob supervisão da editora Teresa Caram 


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