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Estado de Minas REPORTAGEM DE CAPA

Bonito é quem se aceita

Projeto voluntário trabalha o resgate da autoestima em diversas comunidades. Participantes redescobrem o amor-próprio e o potencial para deixar as imagens distorcidas no passado


postado em 25/08/2019 04:00 / atualizado em 23/08/2019 17:41


 
 


“Pra mim, a imagem é um reflexo do estado de espírito. Meu biótipo não vai mudar, mas posso gostar dele. Ser feliz, me aceitar, me amar. Por que não?”

(foto: Fabrício Viana/Divulgação )
(foto: Fabrício Viana/Divulgação )
.Elizângela de Almeida Pires 
de 45 anos, secretária

 
Consultora de imagem há 12 anos, Carol Meyer saiu incomodada de uma palestra depois de mais uma vez ouvir uma plateia aflita por se encaixar nos padrões estéticos vigentes. “Já percebia que muitas mulheres sofrem em busca da imagem perfeita, mas tive depoimentos tão fortes que me vi na obrigação de fazer algo de concreto. Pensei: 'Essa ditadura precisa acabar'.”
O gatilho resultou na criação do Projeto Autoestima, iniciativa que ganhou visibilidade nas redes sociais. Carol usou a própria rede de amigos para reunir profissionais de áreas distintas, como beleza, fotografia e psicologia, interessados em ajudar. E partiu para a ação em torno de comunidades diversas. O público masculino também é bem-vindo nas reuniões, que incluem muito bate-papo, serviços estéticos, sessões de fotos e terapia. 

transformação 


“O projeto é uma maneira de fazer com que as pessoas se vejam além das aparências, sem tanta exigência e pressão para ser perfeitas. Na minha trajetória, sempre incomodou o fato de indivíduos não se gostarem por completo. Defeitos praticamente imagináveis sempre foram descritos com muita dureza durante palestras e consultorias e fui percebendo que essa insatisfação não tinha a ver com beleza, mas com conhecimento pessoal.”

DESCOBERTA 


Elizângela de Almeida Pires, de 45 anos, secretária, transformou a imagem que fazia de si mesma. “Sofri bullying na escola durante a adolescência devido ao biótipo 'gorda, negra e de cabelo bombril', como diziam na época. Sentia-me o patinho feio. Só comecei a valorizar minhas qualidades mais tarde, graças a um amigo, que elogiou meu sorriso e outros atributos, e pediu que eu passasse batom vermelho. Ali, vi que eu era bonita, que meu cabelo era bonito. Independentemente do que a sociedade impõe como padrão e se torna castigo para quem não se encaixa”, conta.
Elizângela credita ao apoio do amigo à nova visão de si mesma. “Não era de fato o patinho feio que imaginava ser. Ao contrário, sempre fui rodeada de pessoas que se espelhavam em mim.”
Mas o passo final para deixar aquela experiência negativa no passado veio com a participação no Projeto Autoestima. “Já seguia a Carol e vi que ela fez a página no Facebook. Então, me inscrevi, participei, me reencontrei com o sonho de ser modelo plus size. Após a sessão de fotos, acabei 'descoberta' por uma agência, recebi convites para diversos trabalhos e estou mais feliz que nunca. Hoje, estou ajudando outras pessoas a se enxergar por dentro, pois é a beleza interior a que mais conta.”

PROCESSO 

Idealizadora do Autoestima, Carol Meyer (4ª da esquerda para a direita), com o cabeleireiro Ramiro Cerqueira e participantes do projeto que busca resgatar a autoestima(foto: Ruy Viana/Divulgação )
Idealizadora do Autoestima, Carol Meyer (4ª da esquerda para a direita), com o cabeleireiro Ramiro Cerqueira e participantes do projeto que busca resgatar a autoestima (foto: Ruy Viana/Divulgação )

Também professora e escritora, autora do blog Dicas da Carol, a consultora de imagem Carol Meyer destaca que o Projeto Autoestima vem colhendo resultados. “Quando uma pessoa, homem ou mulher, se aceita e até gosta dos pequenos defeitos – afinal, todos nós os temos –, ela consegue atingir uma boa autoestima, o que se reflete em todas as situações e relações da sua vida. E é fundamental se sentir bem para experimentar a plenitude em todos os sentidos.”
 
O grupo, que objetiva facilitar o processo de confiança, segurança e aceitação entre os participantes, se reúne uma vez por mês, mantém uma conta no WhatsApp para troca de ideias e apoio mútuo e já fez ações pontuais em comunidades da cidade (com idosos na Igreja São Tarcísio, no Bairro Nova Cintra, e grupo de adolescentes grávidas no posto de saúde do mesmo bairro). Participam como parceiros voluntários o cabeleireiro Ramiro Cerqueira, a psicóloga Lílian Lima, fotógrafos e outros profissionais.
“É muito interessante perceber como a imagem pessoal influencia até o nosso humor. Quando uma pessoa se sente bem consigo mesma, nada lhe parece impossível e ela cultiva por si um grande respeito, reconhece o seu valor”, frisa Carol.

IMAGEM FAKE  


A consultora ressalta que um simples corte de cabelo pode ser o gatilho para a redescoberta de si mesmo. “Um caso interessante foi de uma mulher, recém-saída de uma depressão pós-parto, que resolveu dar um basta no papel de vítima e deu a volta por cima. O primeiro passo para começar essa nova era foi cortar o cabelo, um marco. Apesar de o marido não gostar, ela disse que precisava recomeçar e viu que, o que realmente importava, naquele momento, era o que ela pensava sobre si mesma. Foi uma libertação”, conta.
Para a consultora, reconhecer e gostar da imagem que temos como um grande presente é um passo importante para cultivar e levantar o amor-próprio, a autoestima. “Não é uma gordurinha a mais, nem a cor da pele ou um nariz fora do 'padrão' que vai me reduzir ao que não sou. Em um mundo feito de aparências, é necessário mostrar o algo mais, que tem a ver com inteligência, talento, diversidade, simpatia, charme, elegância... É hora de valorizar o que temos de melhor e deixar essa imagem fake de lado. Somos mais do que isso.”

ESPELHO X FELICIDADE 


A consultora de imagem lembra: “Não existe como você ser feliz sem se aceitar. E isso não quer dizer que você precisa se encaixar em alguma coisa, apenas valorizar o que tem. Vejo muitas mulheres deprimidas, exatamente por não se aceitarem. Ou por se preocuparem mais com a opinião do outro sobre si”. Carol reforça que a autoestima pode ser trabalhada e fortalecida. “É uma sementinha que precisa ser regada todos os dias. Claro que ela será abalada de várias formas, por meio de relacionamentos abusivos, distúrbios alimentares, chefes intolerantes, pais que cobram o que um filho não pode dar. E é por isso que ela precisa ser alimentada com gestos simples e apoio, muito apoio. Comece elogiando um amigo, incentivando uma criança, sendo amável com alguém. Tudo isso faz diferença”, finaliza.








SERVIÇO

Projeto Autoestima
Para participar, basta acessar o grupo https://chat.whatsapp.com/J0oX2uURw0NEI718fIM0Su ou mandar e-mail para carol@dicasdacarol.com.br.


entrevista

Lílian Lima
psicóloga clínica, terapeuta  cognitivo comportamental
(foto: Arquivo pessoal)
(foto: Arquivo pessoal)
 
Amor-próprio 
em alta


De que forma a imagem do indivíduo permeia a psicologia?
Há diversas demandas relacionadas a tudo que envolve autoestima, autoimagem e autoconceito, pois o tema permeia emoções e sentimentos.

A questão visual/estética acaba extrapolando os limites da aparência por si só,certo?
Sim. Vivemos em um país em que a cultura do magro, do corpo escultural, o que comemos, a forma como nos vestimos e nos enquadramos moldam nosso comportamento. Com isso, nossos desejos acabam se anulando em função desse padrão considerado ideal. Muitas vezes, nem nos reconhecemos, por excesso de desejos e estímulos coletivos.

Como essas questões são trabalhadas no Projeto Autoestima?
No projeto, respeitamos cada indivíduo com o que ele tem de melhor, o que não está limitado à aparência, ou ao que fazem ou não. Estimulamos a autoestima e o amor-próprio.

Como podemos trabalhar a autoestima?
A autoestima vai muito além de se enquadrar em padrões. Está relacionada a como me vejo, me percebo, me sinto diante de diversos desafios do dia a dia e da vida. Quanto mais me conheço, mais desenvolvo minhas potencialidades e diferencio minha imagem individual da coletiva (a ideia de comparação). É importante ressaltar também que a autoestima não está ligada a cultura, questões financeiras, posses, bens e finanças. Pelo contrário, tem a ver com autoconhecimento: à medida que me conheço, mais valorizo minhas potencialidades.

Em que medida o autoconhecimento e a autoaceitação impactam na qualidade de vida do sujeito?
Como disse antes, conhecer-se é fundamental para ter autoestima: quanto mais me conheço, mais chances de conviver de forma harmônica com meus desejos e minhas    limitações. Porque é importante pensar também que somos seres com potencialidades altas e baixas. Por exemplo, posso ser excelente psicóloga, mas um fracasso como jogadora de basquete. Isso não significa que minha autoestima estaria comprometida no todo. Quando me conheço, reconheço que tenho potencialidades para algumas questões e não para outras. E quanto mais estima tiver sobre mim, mais me sentirei feliz. É isso que buscamos trazer para o projeto e as pessoas envolvidas nele.

A beleza vai além da aparência, certo? Tem a ver com autocuidado, autocarinho?
Sim. Lembra-se da imagem do gatinho que se olha no espelho e vê um leão? Tem a ver como ele se vê, se sente, se idealiza. Não preciso me submeter a procedimentos para me tornar a Gisele Bündchen. Mas posso me sentir linda e poderosa como ela. Cuidar-me diariamente tem tudo a ver com carinho, e não estou falando de ter roupas caras ou de marca, mas sim de me vestir para me sentir feliz, realizada, confortável. E quando me conheço, tenho meu próprio estilo, me sinto bem com ele, tudo fica mais leve e gostoso. 
 

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