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Estado de Minas SAÚDE DA COLUNA

Ortopedista cria inovações na cirurgia de escoliose

Ferramentas desenvolvidas, que serão apresentadas em congresso europeu, objetivam preservar a mobilidade vertebral e contribuir para o equilíbrio do tronco dos pacientes


postado em 19/08/2019 12:34 / atualizado em 19/08/2019 12:41

"O princípio inovador se difere dos mais comumente usados nas cirurgias, a fixação tradicional e a seletiva. O objetivo é realizar fixações curtas, apicais e múltiplas" - Enguer Beraldo Garcia, médico ortopedista (foto: Leandro Couri/EM/D.A Press)

Entre as principais deformidades da coluna, a escoliose é caracterizada por um desvio lateral acima de 10 graus, associada a rotação vertebral – quando a extensão de vértebras apresenta uma ou mais curvas para os lados (direito ou esquerdo). Em comparação às demais deformidades, é a que mais demanda tratamento conservador e até mesmo correção cirúrgica. Quem explica é Enguer Beraldo Garcia, médico ortopedista há mais de 40 anos, mestre e doutor, chefe do Grupo de Coluna da Santa Casa de Belo Horizonte e diretor do Instituto da Coluna Vertebral. “As principais deformidades da coluna são a cifose (curva para a frente), a lordose (para trás) e a escoliose, a mais incidente. Nesta, o tipo mais comum é a idiopática, de 60% a 80% dos casos. Não há causas específicas para a escoliose idiopática, que atinge mais o sexo feminino e ocorre em faixas etárias bem divididas: infantil, (até os 3 anos); juvenil (dos 3 aos 9 anos); entre adolescentes (dos 10 aos 17 anos) e após a fase de desenvolvimento e crescimento, sendo considerada adulta ou senil.”
Especialista no tratamento de escoliose, o médico afirma que, na maior parte dos casos, a correção é conservadora, por meio do uso de coletes e outros métodos terapêuticos. Mas quando o ângulo da curva é superior a 40, 50 graus, há indicação para a cirurgia. E é aí que o profissional vem lançando inovações.
 
Radiografias do antes e depois de cirurgia de escoliose com a aplicação do estudo do ângulo sacro-clavicular(foto: Arquivo pessoal)
Radiografias do antes e depois de cirurgia de escoliose com a aplicação do estudo do ângulo sacro-clavicular (foto: Arquivo pessoal)
MATEMÁTICA DA COLUNA

Enguer se vale da matemática para desenvolver as novas ferramentas que já foram lançadas em publicações científicas do país e do exterior. Os avanços vêm sendo empregados na prática por ele desde 2014, com resultados de qualidade. Em setembro (de 26 a 28), o ortopedista mineiro apresentará os “Novos princípios no tratamento da escoliose” em conferência internacional, a Annual International Meeting of Orthopaedic Research (MOR-2019), em Varsóvia, na Polônia.
 
A primeira novidade proposta por ele é a criação do ângulo que faltava para quantificar o equilíbrio do tronco. “A nova ferramenta para mensurar globalmente o plano coronal da coluna vertebral escoliótica, denominado Ângulo Sacro-clavicular, objetiva monitorar o real equilíbrio da clavícula (e dos ombros) durante o tratamento cirúrgico da escoliose. Ao possibilitar a mensuração e quantificação matemática do equilíbrio do tronco, o cirurgião passa a se certificar da qualidade de seu trabalho.”
 
No consultório, ele explica que, para que exista equilíbrio do tronco, cada ângulo da clavícula deve estar em 90 graus. Logo, a soma é 180 graus. Com a ferramenta proposta por ele, o desenho da intervenção que será realizada na coluna passa a levar em consideração esse equilíbrio, o que aumenta a chance de sucesso da operação, e, consequentemente, reduz os riscos de sequela, de o paciente ficar com um ombro desalinhado em relação ao outro.
 
A nova ferramenta, revela, é inovadora no mundo. “Um pensamento simples, mas que até hoje não havia sido desenvolvido nas cirurgias que objetivam tratar a escoliose”, ressalta.

FIXAÇÃO MÚLTIPLA

A outra ferramenta desenvolvida pelo médico é a fixação múltipla, quando a escoliose idiopática apresenta mais de uma curva. “Proponho o uso de fixações apicais, na alma da curvatura. O princípio inovador se difere dos mais comumente usados nas cirurgias, a fixação tradicional e a seletiva. O objetivo é realizar fixações curtas, apicais e múltiplas, o que torna a cirurgia menos invasiva. Além de não fixar vértebras neutras, preservar mobilidade vertebral, promover maior equilíbrio dos ombros e melhor distribuição da sobrecarga”, descreve.
Na prática, o ortopedista afirma que a correção cirúrgica da escoliose pode apresentar desequilíbrio do tronco e a sobrecarga dos segmentos livres. Um resultado insatisfatório no pós-cirúrgico e passível de ser minimizado com a nova técnica.
 
A terceira proposta de Enguer Garcia amplia os critérios de análise da escoliose. Ele parte da Classificação Quantitativa da Deformidade, acrescentando mais quatro tipos aos seis existentes. “Trata-se de uma análise realmente tridimensional, mais abrangente, identificando, no total, 10 subtipos da deformidade. O objetivo é induzir a correção da escoliose com restrição da fixação.”
O especialista lembra que a escoliose não tratada pode evoluir para deformidades graves, processos degenerativos da coluna, dor, instabilidade e o desenvolvimento de outros problemas de saúde, como alterações respiratórias, cardiológicas e neurológicas. Enguer Garcia afirma, ainda, que os estudos propostos por ele são inovadores por cumprir objetivos como preservar a mobilidade da coluna após uma cirurgia de escoliose e promover o maior equilíbrio do tronco do paciente.
 
Antes mesmo de embarcar para o congresso em Varsóvia (Polônia), o médico já propõe mais uma inovação na cirurgia das deformidades da coluna vertebral em relação ao posicionamento dos parafusos, que, em breve, será apresentado.
 
Quatro perguntas para...

Enguer Beraldo Garcia, médico ortopedista

 
1) Qual é a prevalência da escoliose na população? 

Cerca de 1,5% a 3% exibem curvas menores que 10 graus. E, em média, 0,15% apresentam curvas maiores que 30 graus.

2) Quais são os principais e mais frequentes tipos de escoliose?

Os tipos mais frequentes de escoliose estrutural:

• Idiopática (60% a 80%)
• Congênita (15%)
• Neuromuscular (10%)
• Neurofibromatose (5%)
• Doenças do mesênquima (cerca de 1%)

3) Por que a escoliose recebe mais indicações cirúrgicas que a lordose ou a cifose? 

O tratamento da cifose, quando realizado em fase de crescimento, traz resultados satisfatórios com o uso do colete ortopédico, num quadro melhor do que a escoliose. Já a lordose de grau relevante é menos frequente e quase sempre se apresenta como uma curva compensatória à cifose.

4) O senhor já operou pacientes com as novas ferramentas que criou? Quais foram os resultados? 

Desde o início de 2014 venho usando esse método, com muito sucesso.
 


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