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Estado de Minas

Photoshop da realidade

Padrões e estilos disseminados na internet determinam o comportamento e a atitude de jovens, que tanto podem ser benéficos quanto provocar doenças na busca por uma imagem ideal


postado em 09/06/2019 04:09

A estudante Rayane Rodrigues Pessoa, de 15 anos, passa seis horas do dia nas redes sociais e gosta de interagir, mas reconhece que nem tudo são flores no mundo virtual (foto: Ramon Lisboa/EM/D.A Press)
A estudante Rayane Rodrigues Pessoa, de 15 anos, passa seis horas do dia nas redes sociais e gosta de interagir, mas reconhece que nem tudo são flores no mundo virtual (foto: Ramon Lisboa/EM/D.A Press)


Momento de transformações, explosão de sentimentos, profusão de hormônios, crises, anseios, medos, desejos e euforias. Ciclo que significa desafios. Ao longo da história, os jovens encontram paradigmas que perfazem um elo com o contexto sociocultural de uma época específica. No século 21, um dos fatores que mais refletem na vida e no comportamento dessa geração certamente é a experiência com as redes sociais. O perigo é a determinação de padrões e estilos que, quando trazidos para a prática de cada um, são na verdade uma maquiagem para um cenário irreal.


Na mesma hora em que o virtual se sobrepõe às vivências palpáveis, olho no olho, surge uma perspectiva alterada que pode se tornar objetivo para muitos. Mas tentar ser uma cópia do que se vê na internet acaba sendo um preço alto a pagar. Ao querer se encaixar em modelos que, na maioria das vezes, não lhe servem, o jovem é suscetível a amargar desgastes emocionais graves. Em alguns casos, desembocam até em riscos para a saúde mental. Além de relacionamentos interpessoais prejudicados, a realidade é colocada em segundo plano quando o que se almeja é o universo “perfeito” visto pelas telas.


A estudante Rayane Rodrigues Pessoa, de 15 anos, revela que usa bastante as redes sociais – são seis horas ligada por dia, desde os 13. Divide a rotina de estudos com o acesso ao mundo on-line. Ela gosta de ver fotos, vídeos, segue alguns canais e procura assuntos variados. Conta que tem amizades, mas com a maioria dos amigos se relaciona a distância – no Facebook são 1,5 mil amigos e no Instagram 400 seguidores. “Porém, não tenho contato real. Na verdade, contando quem eu converso frequentemente, são quatro ou cinco pessoas.” E nem tudo são flores – ela sabe disso. “É uma ilusão, uma realidade maquiada. Quando eu realmente preciso, não aparece um para ajudar. Muitas vezes não tem ninguém com quem eu possa contar de verdade. Todo mundo curte suas coisas, mas ninguém te entende, ninguém te ouve. E isso acontece com todos, não só comigo”, diz.


Para Rayane, o mundo virtual se impôs ao real. Mesmo quando está com um amigo frente a frente, o celular não sai da mão. Há um mês, a jovem começou a fazer terapia. Vai ao psicólogo uma vez por semana. Extremamente ansiosa, já passou por episódios de depressão, e considera que as redes sociais agravaram esse quadro. “É uma frustração. Ouço muito que não vou conseguir por ser do meu jeito. ‘Você não vai conseguir ser o que quer’, escuto. As redes sociais acabam atrapalhando, com cobranças para se adequar a padrões.” De seis meses para cá, ela também frequenta um grupo em uma igreja em BH, que buscou pelo mesmo motivo.

IMPACTO A internet a todo instante lança moda, estilos de vida, padrões de atitudes e, por isso mesmo, há limites, como explica a psiquiatra Jaqueline Bifano. Os usuários são impactados diretamente por tais arquétipos, posicionando-se de forma moldada pelos influenciadores digitais, e almejam ter a vida que veem pelas redes sociais. “Isso passa a ser o modelo, o ideal. Afinal, na internet estão todos sempre bem, bonitos, na moda. E os jovens passam a desejar se enquadrar nesses padrões fabricados. O mundo digital tem influenciado intensamente. Haja visto o lançamento de diversos livros, principalmente pelos youtubers, intitulados, por exemplo, “como cheguei até aqui”, como se fosse um manual a ser seguido, uma meta. O pior é que a maioria desses pseudoautores não passam de 15 anos de idade, salvo exceções. Não têm a menor experiência pois, como seus seguidores, são jovens descobrindo a vida.”


Em meio a padrões tão impregnados de devaneios, nas redes sociais os jovens buscam mostrar o melhor de si, expor uma vida sem turbulências. Porém, o que se percebe é a concepção de uma realidade virtual que não condiz com aquela fora da tela, acrescenta a psiquiatra. “Por outro lado, os jovens que assistem a essa vida ‘perfeita’, se sentem inferiores por não terem o mesmo nível de vida e felicidade que seus influenciadores demonstram ter. Não percebem que é uma vida ilusória, fictícia, que as coisas não funcionam como um conto de fadas. Entretanto, almejam tanto aquela vida utópica, infiltrada em sua mentalidade, que podem ser levados a atos extremos, como automutilação, suicídio, entre outros problemas causados pela depressão”, alerta a especialista.


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