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Valorizar as diferenças

Se a educação é para todos, mais do que nunca ela precisa ser inclusiva, livre de preconceitos e que represente a diversidade em nossa sociedade


postado em 14/04/2019 05:06

"Alice é especial porque é minha filha. Não é mais ou menos especial por suas características. E não é mais difícil, é diferente. Considero minha filha um presente" (Mariana Rosa, mãe de Alice, portadora de paralisia cerebral) (foto: Jair Amaral/EM/D.A Press %u2013 14/5/18)

Hoje é o Dia Nacional de Luta pela Educação Inclusiva. Um passo à frente que o país precisa dar. A educação como direito é afirmada na Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 1948, assim como na Constituição Federal do Brasil, de 1988. Mesmo assim, ainda existem cerca de 781 milhões de analfabetos no mundo, conforme a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). No Brasil, dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que fazem parte da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), de 2016, registra taxa de analfabetismo de 7,2%, o que corresponde a 11,8 milhões de pessoas que não sabem ler nem escrever. Isso porque a meta do governo, conforme a Lei 13.005, de 25 de junho de 2014 – Plano Nacional de Educação (PNE) –, sancionada pela ex-presidente Dilma Rousseff, em seu artigo 2º previa que, em 2024, o analfabetismo deveria estar erradicado no país. Esse é apenas um dos muitos problemas e desafios que a educação enfrenta por aqui.

Diante desse cenário, parece um despropósito pensar em educação (escola) inclusiva no Brasil. Como dar um passo tão nobre, cheio de desafios e necessário, se ainda lidamos com um ensino básico tão deficitário, com tantas carências e atrasos, tanto de formação (professores e gestores) quanto estruturais (instalações físicas inadequadas, falta de equipamentos)? Parece contraditório ou mesmo impossível. No entanto, não tem como esperar resolver os problemas da educação neste país para, só aí, pensar em atender quem tem necessidades que exigem mais atenção na hora da formação educacional. Essa revolução, a essa altura, tem de ocorrer simultaneamente. É obrigatória, para que não se desperdice uma geração após a outra.

Educação inclusiva completa significa a educação livre de preconceitos e que reconhece e valoriza as diferenças. Espaço onde não há iguais versus diferentes ou normais versus deficientes. Todos juntos e com direito de frequentar as salas de aula de ensino regular, que deve retratar a diversidade presente na sociedade. Essa é a luta da jornalista Mariana Rosa, mãe de Alice, de 5 anos, que tem paralisia cerebral. Ela revela que, depois de seis tentativas de matricular a filha em escola regular e não ser aceita, enfim, em 2017, foi acolhida pela Lume Jardim de Infância, instituição particular (regular), que segue a pedagogia Waldorf, que tem por objetivo educar os três aspectos do ser: o pensar, o sentir e o agir, visando a formação de seres humanos livres e inteiros. “As escolas que a recusaram repetiram o mesmo discurso ‘Não trabalhamos com esse tipo de criança’. Essa é a justificativa mais comum. Na Lume, a Alice teve acolhimento logo no primeiro momento e caminha bem.”

Na escola há dois anos, Alice se sente bem, segundo Mariana. Ela gosta de ir para a Lume. “As crianças são afetuosas com ela e, claro, não têm preconceito, porque ele é construído. Assim, elas a incluíram com naturalidade, dão atenção. Fazem perguntas, querem saber por que a Alice não fala, não anda, sobre a cadeira diferente... Explicamos tudo na medida da curiosidade delas. Nada que impeça o estabelecimento de uma forma de interação. Tem aniversários, a Alice é convidada, minha filha passou por uma cirurgia e colegas vieram visitá-la. Tudo natural.”

No entanto, Mariana reconhece que “a Lume é exceção, tenho consciência”. Ela também enfatiza que, além das crianças, Alice foi muito bem recebida pelos pais. “As famílias procuraram entender e, quem não sabia lidar, veio falar, conversar comigo em dúvida do que falaria quando questionadas pelos filhos. Uma mãe me disse que estava preocupada em explicar para a filha e, para surpresa dela, logo no início das aulas, a menina chegou da escola contando para a mãe que tinha feito duas melhores amigas, uma delas, a Alice.”

Mariana, casada com Wesllen há 14 anos, com Alice filha única, não é de apontar dedos para culpados. Para a gerente de comunicação, a questão da falta de inclusão é histórica. “É uma luta pelos direitos das minorias, dos deficientes, que tem evoluído. Até melhorou nos últimos 10 anos, já que antes viviam isolados. É um paradoxo falar de inclusão se não os acolhem, seja na escola, seja no trabalho, privando a sociedade de aprender com o diferente. É um privilégio conviver com as diferenças humanas e é possível se dar bem de forma harmoniosa para exercer a tolerância.”

DIREITOS IGUAIS Para Mariana, a luta é diária sim e tem de ser construída para que a consciência se instale na sociedade. “A culpa não é da escola, do professor, da empresa, mas é uma questão cultural histórica. Temos, claro, de lutar por direitos iguais para tornar a diferença natural. E ela é.”

A jornalista enfatiza que ninguém está preparado para lidar com a diferença, já que não fomos educados para tal e a diferença provoca e desafia. Ela chama a atenção para a atitude e o comportamento que todos deveriam buscar, que é o de acolher, pensar na capacidade de cada um, ajustar as ferramentas e oferecer estratégias diferentes. “Não é lidar com o diferente abrindo um livro com normas e regras e colocá-las em prática. Há técnicas que auxiliam, mas a verdade é que o ajuste é quase individual.”

Mariana enfatiza que Alice não é especial na conotação que a sociedade está confortável em denominar. “Alice é especial porque é minha filha. Não é mais ou menos especial por suas características. E não é mais difícil, é diferente. Considero minha filha um presente. E, de novo, simplesmente por ser amorosa, linda e pelo vínculo de amor que temos.” E todo esse amor e respeito Mariana compartilha com todos no blog Diário da mãe da Alice.


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