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Contos de fadas amenizam a dor

Projeto transforma crianças em autores de livros, escritos durante tratamento no Hospital da Baleia. O lançamento será hoje, às 9h, no Clube Olympico, em Belo Horizonte


postado em 16/12/2018 05:07

André Pereira Souza, de 8, não gostava de ler e acabou se encantando com a possibilidade de criar a própria história(foto: Fotos: Paula Seabra/Divulgação )
André Pereira Souza, de 8, não gostava de ler e acabou se encantando com a possibilidade de criar a própria história (foto: Fotos: Paula Seabra/Divulgação )

 

 

 







Era uma vez uma fadinha chamada Arco-íris, que vivia feliz em uma floresta encantada. Tinha muitos amigos, que adoravam suas asas coloridas e sua virtude de ajudar todos. Certo dia, apareceu uma bruxa invejosa, que queria acabar com tanta alegria. Para isso, fez uma poção mágica para as asinhas da fada sumirem e, assim, também destruir suas amizades. Andando triste pela floresta, Arco-íris ouviu gritos de socorro. Era um duende preso em uma armadilha, que logo ela conseguiu soltar. “Obrigado, menina!”, clamou o duende, satisfeito. Chateada, a fada lhe disse que não era uma menina. “Agora, você não vai gostar mais de mim, porque não tenho mais minhas lindas asas.” De pronto, o duende declarou. “Você me ajudou sem as asas e é linda assim. O que importa é o que temos por dentro.!” Ficaram amigos para sempre, e a fadinha continuou a sorrir, fazer amizades e a amparar quem precisa.

Não muito perto dali, no interior de Minas Gerais, em uma cidade pequena, com montanhas e rios, mora o bode Candinho, entre galinhas e carneiros, em terra de capim verde e roxo. Ele é o animal de estimação de um esperto menino, que lhe dedica cuidados desde bebê. Bonito e de pelo macio, um dia, Candinho acabou metido em uma confusão com o bode Chefe, grande e preto, que queria sua comida. Depois da briga, Candinho ficou todo machucado. O garoto e seu avô rapidamente cuidaram das feridas e o senhor resolveu amansar o bode Chefe para que não arrumasse mais problemas com nenhum outro animal. Desde então, Candinho e Chefe se tornaram companheiros, correm e brincam alegremente.

Mirella Louise Vitor Alfenas, de 6 anos, e André Pereira Souza, de 8, são os autores das histórias contadas aqui. Eles estão entre os sete pacientes oncológicos do Hospital da Baleia, em Belo Horizonte, participantes de projeto que, em uma parceria com a plataforma Estante Mágica, transformou os pequenos em autores de livros. Foram meses de trabalho, com alegria, imaginação e determinação, em um processo de escrita e ilustração das obras, com acompanhamento de educadoras voluntárias.

O desafio foi transformar o ambiente hospitalar em espaço educativo, principalmente para os que estão afastados da escola. Como um forte estímulo, as crianças deixam de lado o sofrimento da convivência diária com agulhas, soros, quimioterápicos e o mal-estar, superando adversidades para narrar histórias divertidas e sensíveis, vencendo os problemas com coragem e perseverança, em uma atividade cujo significado ultrapassa as fronteiras da atenção médica.

A iniciativa é uma experiência-piloto, no esforço conjunto entre o Hospital da Baleia e a Estante Mágica, plataforma educacional voltada para escolas que transforma alunos em autores – até hoje, cerca de meio milhão de crianças, entre 3 e 10 anos, participaram do projeto. É a primeira vez que a proposta ocorre fora do cenário escolar. As obras serão lançadas hoje, às 9h, no Clube Olympico, em Belo Horizonte, com direito a sessão de autógrafos.

INCENTIVO

O trabalho começou em agosto, quando foram selecionadas sete crianças de 8 a 11 anos em tratamento contra o câncer. De lá pra cá, elas foram acompanhadas pelas educadoras na criação dos personagens, construção das histórias e ilustrações dos livros. Os encontros ocorreram nos dias de tratamento dos pacientes, no hospital. Depois de prontos os textos e as ilustrações, as obras foram encaminhadas à Estante Mágica, que fez a editoração e produção dos livros.

Mirella foi diagnosticada com um tipo de leucemia em fevereiro deste ano. Com 17 dias de tratamento, muito agressivo, o cabelo caiu. Quando, no hospital, ficou sabendo que ia escrever um livro, voltou pra casa superanimada e já começou a produzi-lo. A mãe, Pâmela Aparecida Vitor Alfenas, conta que a perda das asas pela fadinha Arco-íris é uma analogia à queda do cabelo da menina na vida real. “No momento em que ocorreu, perguntei se ela queria usar peruca. Mas não. Mirella é muito tranquila quanto a isso. Não liga para o que está por fora. Durante a produção do livro, toda a família foi envolvida. Mesmo quando ela estava abatida, escrever era uma distração. Está muito orgulhosa e ansiosa para o lançamento”, diz.

Natural de Itambacuri, no Vale do Mucuri, André também foi acometido por leucemia. Ligado em tecnologia e preguiçoso para a leitura, a produção da história sobre o bode Candinho mudou essa característica. “O livro para ele é uma novidade. Acabou gostando de escrever, e todos ficamos encantados. O processo foi fundamental para a socialização, para tirar o foco só do hospital, de exames, consultas, dessa rotina tão cansativa. Fazer o livro foi uma diversão e uma inspiração”, exalta Nébia Pereira de Souza, mãe do garoto, que agora adora frequentar a biblioteca do hospital.

“Para crianças que, por causa da doença, ficam longe da escola, perdem o contato com a aprendizagem, fazer os livros foi uma grande brincadeira”, enfatiza Cláudia Márcia Pereira, coordenadora da Rede de Amigos do Hospital da Baleia, instituição filantrópica que recebe pacientes de mais de 700 cidades diferentes. “Eles desenvolvem o raciocínio e a criatividade e a imaginação voa. O projeto contribuiu para melhorar a autoestima das crianças em situação de abandono escolar. Elas sentem que são capazes, esquecem a dor, a tristeza, o tratamento, para deixar chegar a alegria. É um incentivo para a superação da doença”, ressalta.

“Além de proporcionar uma divertida experiência aos pequenos, queremos despertar nas crianças habilidades para o mundo moderno – os chamados 5Cs (comunicação, criatividade, colaboração, curiosidade e criticidade, ou pensamento crítico)”, explica o cofundador da Estante Mágica, Robson Melo. A Estante Mágica acabou adaptando sua metodologia para aplicação dentro de um ambiente controlado, e sua equipe se mostra surpresa com o resultado tão positivo, em um modelo inédito. Robson comemora os frutos e revela já considerar atuar com o projeto em situações parecidas, em outros hospitais ou ocasiões em que as crianças se afastam da escola. “No trabalho com o Hospital da Baleia, recebemos o retorno de como as crianças se sentiram empoderadas, protagonistas de sua história. Reconhecendo-se no processo de criação, elas são encorajadas pelo autoconhecimento, pela autoconfiança. Um auxílio no próprio processo terapêutico”, finaliza Robson.





Os livros

» Meu bode Candinho, de André Pereira Souza, de 8 anos

» A vitória do Homem-formiga e do Garoto-formiga sobre Carrapato e Bizarro, de Arthur Mendes Santos, de 11

» A festa da loba, de Felipe Gabriel dos Reis, de 8

» Pitty e o dragão, de Lucas José Sanches Santos, de 11

» Uma flor de princesa, de Maria Clara Oliveira da Costa, de 10

» A fadinha Arco-íris, de Mirella Louise Vitor Alfenas, de 8

» A fuga do leão, de Sara Gomes da Silva, de 8

Interessados podem adquirir exemplares dos livros nos sites www.lojinha.estantemagica.com.br www.estantemagica.com.br/amigos


palavra de
especialista

Miriam Sarsur
educadora que acompanhou Arthur, de 11 anos, e Mirella, de 6


Mais leveza à dura rotina


“O Projeto Estante Mágica-Hospital da Baleia deu às crianças participantes a oportunidade de se descobrirem autores de livros que ganhariam espaço além do hospital. Ao entender o projeto, percebi o quanto a atividade seria positiva para desviar a atenção dos procedimentos que envolvem o tratamento, ao levar as crianças para um espaço mental mais lúdico. E isso ocorreu, mesmo dentro da pequena sala de azulejos brancos em que me reuni pela primeira vez com Arthur, e depois com Mirella. É necessário considerar que a internação ou o tratamento semanal no hospital são períodos especialmente difíceis para uma criança, por ela se ver rodeada de pessoas e coisas tão diferentes do que vive em sua rotina infantil, com seus irmãos, amigos, brinquedos, cadernos ou animais de estimação. O envolvimento em uma atividade diferenciada como essa foi, por si só, motivacional para que eles dessem asas à imaginação e à criatividade, expressassem sentimentos e se comunicassem. Espero que o empenho na criação da história e da ilustração tenha contribuído para o bem-estar e para o tratamento de todos e que abraçar o resultado – um lindo livro de capa dura – proporcione muita alegria e aumente a autoconfiança de cada um. Daqui pra frente, os pais poderão sempre resgatar essa experiência, destacando e valorizando o livro, como forma de incentivar seus filhos a buscar outros interesses, para poder vivenciar o período de tratamento com mais leveza e segurança. Quero acreditar que a participação no projeto tenha estimulado a curiosidade pela leitura e leve cada pequeno escritor a continuar sendo um autor em sua vida.

 

 


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