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Estado de Minas

Novas embalagens prometem preservar aroma do café até a mesa

Pesquisa desenvolve saca em plástico e papel, que mantém a qualidade dos grãos mais finos e devem substituir os tradicionais sacos de juta


postado em 01/02/2016 06:00 / atualizado em 01/02/2016 09:15

(foto: Klabin/Divulgacao )
(foto: Klabin/Divulgacao )
Aroma, sabor e cor. Os cafés considerados especiais conjugam uma série de características que fazem deles verdadeiras joias para os apreciadores da bebida. Mas parte desse esforço para alcançar excelência acaba se perdendo durante o estocamento dos grãos, feito nos tradicionais sacos de juta e que leva à queda de qualidade do produto. Uma pesquisa da Universidade Federal de Lavras (Ufla), em parceria com associações e empresas ligadas à cafeicultura e indústrias de embalagens, mostra que esse problema está perto de ser superado. O estudo está testando novas embalagens para as sacas e, mesmo sem estar concluído, aponta que é possível preservar as qualidades do café colhido na fazenda até que ele chegue à xícara do consumidor.

Historicamente, são em rústicos sacos de juta que o café é armazenado. Apesar da tradição, na prática, o depósito dos grãos nesse material impõe a perda de atributos que fazem dele um produto especial. Já há, hoje, no mercado materiais para serem usados com a juta que esbarram em quesitos como logísticas nos armazéns e custo elevado. Na pesquisa “Desenvolvimento de embalagens e métodos de armazenamento para cafés especiais”, a Ufla está analisando duas novas embalagens, uma de plástico, da Videplast, outra de plástico e papel, da Klabin, que aliam eficiência e baixo preço. Tanto a Videplast quanto a Klabin são indústrias do ramo.

Ambas as embalagens contam com material resistente de alta barreira, com várias camadas microscópicas que garantem a conservação das características dos grãos que serão usados para se chegar à bebida em seu padrão especial. Segundo o coordenador da pesquisa, o professor Flávio Meira Borém, do Departamento de Engenharia da Ufla, quando a estocagem é feita em juta, em menos de três meses, o café perde a qualidade.

(foto: Sidney Lopes/EM/D.A Press)
(foto: Sidney Lopes/EM/D.A Press)
Isso se deve à variação do teor de água nos grãos e sua interação com o ar. Esse armazenamento inadequado acaba afetando cor, sabor e aroma do grão, interferindo diretamente em atributos como acidez, doçura e corpo. “Quando o mercado iniciar a substituição da juta, será revolucionário não só para o Brasil, mas para o mundo”, reforça o professor.


A pesquisa, prevista para ser concluída em junho, partiu de iniciativa da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex-Brasil) e da Associação Brasileira de Cafés Especiais (BSCA). Além da Videplast e da Klabin, o estudo engloba a Bourbon Specialty Coffe e Carmocoffees, empresas exportadoras de cafés especiais. As análises são feitas no Laboratório de Processamento de Produtos Agrícolas, na Ufla.

DESVALORIZAÇÃO A diretora-executiva da BSCA, Vanusia Nogueira, conta que já havia uma demanda antiga dos produtores por tecnologias que levassem à preservação da qualidade do café especial. “Fala-se que o café não é perecível, mas isso é uma lorota. A juta é porosa e deixa os grãos muito expostos às questões de ambiente. Primeiro, o café perde a cor. Depois, perde a qualidade, principalmente quando estamos falando de grãos mais finos”, reforça.

Numa escala de 0 a 100 pontos, os cafés especiais são aqueles com notas acima 80. “Um café armazenado em juta perde de três a quatro pontos por mês. Consequentemente, estamos falando de uma perda de R$ 100 a R$ 200 por saca”, reforça Vanusia. Diferentemente de outros mercados no agronegócio, o preço do café é definido por lote no ato da venda.

Antes da conclusão da pesquisa, a diretora-executiva já comemora os resultados. “Tem muita gente já usando a embalagem. Os resultados são fantásticos. Chegou ao mesmo padrão do vácuo, mas com um custo-benefício muito melhor”, diz. Segundo Vanusia, agora os clientes de outros países terão a oportunidade de experimentar o verdadeiro sabor do café brasileiro. “Vislumbramos uma mudança de paradigma muito grande. Estamos mostrando ao mundo que buscamos melhora”, reforça.

O experimento para testar as embalagens de cafés especiais foi montado no armazém da Bourbon Specialty Coffee, em Poços de Caldas, no Sul de Minas, em outubro de 2014. “Por meio de um grande número de análises químicas, físicas e sensoriais, os grãos nessas novas embalagens e em outras já tradicionalmente usadas foram testados a cada três meses em um período de armazenamento de 18 meses”, conta um dos pesquisadores à frente do estudo, Fabrício Teixeira Andrade – a tese de doutorado dele, em engenharia agrícola pela Ufla, é em torno dos resultados da pesquisa. Em março, ocorre a última análise das amostras.


APROVAÇÃO Em fevereiro do ano passado, o estudo ganhou proporções internacionais. Duas parcelas do experimento foram exportadas, em condições comerciais, para Cafe Imports, cujo armazém fica em Minneapolis, nos Estados Unidos. “Durante o transporte intercontinental e armazenamento nos EUA, a temperatura e umidade relativa foram medidas e registradas a cada três horas por sensores distribuídos internamente às embalagens e no interior do contêiner”, afirma Andrade.

O projeto atende uma demanda do mercado, já que cafés especiais constituem um mundo à parte, com preços bem acima do café comercial. “As embalagens já estão no mercado, visto que os resultados preliminares da pesquisa já apontam o grande potencial que elas apresentam”, afirma Andrade. “A Klabin e a Videplast estão adicionando outras propriedades funcionais que permitem o aumento de eficiência no envase, manuseio e transporte do café. Esse será mais um benefício agregado pela utilização delas”, completa.

O representante da Videplast em Minas Gerais e coordenador do projeto na indústria, Cláudio Márcio Francisco, reforça que o custo para embalar uma saca com o modelo de alta barreira é 60% menor em relação à opção usada hoje como paliativo com a juta. “As embalagens de alta barreira impedem o contato com oxigênio, que é o principal problema de qualquer produto”, reforça. Segundo Cláudio, o plástico, reciclável, contém nove camadas isolantes, vedação superior ao sistema de costura da juta e tecnologia é semelhante à usada em produtos frigoríficos e lácteos.

A embalagem da Klabin, feita também em parceria com a Videplast, é fabricada com papel multifolhado de alta resistência e pode ser impressa em até oito cores. É hermética devido ao sistema de fechamento, possui filme de alta barreira e proteção à luminosidade, além de contar com um sistema denominado Easy Open, que facilita a abertura e armazenagem pelo cliente. Ambas as embalagens têm 30 quilos, facilitando o manuseio e carregamento dos sacos de café.  

 Em expansão

>> PRODUÇÃO, EXPORTAÇÃO E CONSUMO
Na safra 2015, a Associação Brasileira de Cafés Especiais (BSCA) projeta que foram produzidas cerca de 5 milhões de sacas de cafés especiais, das quais 4 milhões foram destinadas à exportação, principalmente para Estados Unidos, Europa e Japão, e 1 milhão de sacas se voltaram ao consumo interno. Ao considerar um consumo interno de aproximadamente 20 milhões de sacas (dados da Abic), é possível dizer que o consumo de cafés especiais no Brasil responde por 5% do total.

>> DEMANDA
O consumo de cafés especiais é o que registra os maiores índices de crescimento nos mercados brasileiro e mundial, avançando entre 10% e 15% ao ano em ambos os casos. Por outro lado, a evolução do consumo dos cafés tradicionais gira em torno de 3% no Brasil e de 1,5% a 2% em todo o mundo.

>> RECEITA COM EXPORTAÇÃO

Em 2015, as exportações de cafés diferenciados (inclui-se aqui, além dos especiais, os cafés gourmet, certificados, orgânicos, etc.) movimentaram US$ 1,840 bilhão, respondendo por 32,7% da receita total de US$ 5,626 bilhões. No acumulado do ano passado, os embarques brasileiros de cafés diferenciados totalizaram 8.311.573 sacas de 60kg, respondendo por uma fatia de 24,8% das exportações totais de café efetuadas pelo país.

>> VALOR AGREGADO
Frente ao valor pago pelos cafés tradicionais, registra-se um sobrepreço médio entre 30% e 40% para os especiais, mas essa valorização chega a 100%, em algumas ocasiões. Nos leilões do Concurso de Qualidade Cafés do Brasil - Cup of Excellence, os compradores já pagaram até 3.000% acima do preço do tradicional pelo café campeão.


SUPERIORES

Os cafés especiais representam, atualmente, cerca de 12% do mercado internacional da bebida, de acordo com a Associação Brasileira de Cafés Especiais (BSCA). No comércio nacional, eles ainda ficam entre 5% e 8% dos negócios. A classificação envolve uma série de características, que vão desde a origem, variedade, cor, até aspectos sociais e ambientais, como o sistema de produção usado e as condições de trabalho na cafeicultura. Numa escala de 0 a 100 pontos, cafés com notas acima 80 pontos são considerados especiais. Eles podem superar em mais de 100% o preço da saca dos grãos comerciais. Enquanto o preço da saca do café commodity varia de R$ 450 a R$ 500, os cafés finos ficam em torno de R$ 800, podendo ultrapassar os R$ 1.000. No ano passado, a produção de café atingiu os 43,2 milhões de sacas, segundo a Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic).

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