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Pandemia torna mais urgente ainda o ato de falar para não sucumbir

Movidos pela dor desencadeada pelas perdas resultantes da COVID, somos levados a territórios mais antigos do afeto e das marcas feitas por ele vida afora


21/02/2021 04:00


O velho Freud já dizia: onde há fumaça há fogo. Os índios faziam sinal de fumaça para se comunicarem à distância, indicando perigo. Com isso, diziam que havia problemas ainda ocultos a ser enfrentados. A ponta de um iceberg também indica que para dentro da água se oculta um volume muito maior que aquele que podemos ver a olhos nus.

Somos também assim. Ao nos mostrarmos ao outro, apenas revelamos nossos melhores ângulos. E, além deles, há muito mais coisas que não mostramos: nossos defeitos, egoísmos, invejas que não queremos expor, porque são considerados negativos e feios. E outras coisas porque não sabemos. O inconsciente nem sempre se revelará nem mesmo a nós. Há muito mais além daquilo que se mostra.

O dito popular “esta é só a ponta do iceberg” indica da mesma maneira que aquela ponta ali, que parece ser pequena, de fato, carrega algo maior e mais complexo que deverá surgir e ser resolvido ainda.

E não adianta fugir. Se fugir, a coisa pode se tornar pior. Quanto mais adiamos as soluções, maiores se tornam os problemas. Como os icebergs, as pessoas não são o que aparentam, por trás da fachada tem muito mais.

Na clínica, encontramos, nas primeiras entrevistas, as pontas do iceberg e, a partir daí, nos colocamos a trabalho para saber o que vem depois e o que trouxe aquela pessoa até o analista. Sempre encontramos motivos ocultos. Além daqueles que o sujeito traz, outros de que ele nunca se deu conta, e ainda os inconscientes que ele também desconhece sobre si.

Então, nas primeiras entrevistas, entrevemos o que virá por aí no caminho que iniciamos naquele momento com aquela pessoa. E o quanto de submerso vem daquela pontinha de gelo que parece flutuar no mar e, no entanto, é um rochedo escondido.

Se inicialmente para nós ainda está oculto e desconhecido porque inconsciente, logo serão em parte reconhecidos, encontrados com surpresa até mesmo para sujeito que nos fala. E nunca saberemos mais do que aquilo que irá nos trazer porque nada sabemos sobre ele de antemão.

Temos atravessado, a meu ver, a terceira guerra mundial com o coronavírus. Nossa geração nunca passou por uma guerra mundial, mas esta é como uma. Estamos lutando pela vida da humanidade e isso não é fácil. Não é fácil conviver com a mortalidade cotidianamente.

Mas a esta dor causada pela atual condição da humanidade – que eclode em crises de pânico, depressão, ansiedade e angústias, como mostra a clínica médica e psíquica de nossos consultórios – soma-se o que em cada um já era dor existencial, já era marca de afetos passados acumulados, que com este a mais atual, que é a COVID-19, nos sobrecarrega e nos conduz a um insuportável impossível de ser negado, adiado.

Torna-se urgência e obriga de fato a falar para não sucumbir. E movidos pela dor desencadeada pelas perdas resultantes da COVID, somos levados a territórios mais antigos do afeto e das marcas feitas por ele vida afora.
 





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